20 de outubro de 2016

VOZ ARMINIANA! DESMASCARANDO A FALSA ACUSAÇÃO LEVANTADA CONTRA ARMÍNIO


Por Everton Edvaldo

Introdução:

Não é de hoje que os cristãos têm se preocupado em conhecer as doutrinas nas quais acreditam.  Entretanto, não basta conhecer o que cremos, devemos saber o porquê cremos. Conforme o tempo foi passando, várias doutrinas foram debatidas, questionadas e analisadas. Um exemplo disso, foi a doutrina da salvação (Soteriologia).

A doutrina Bíblica da salvação nos revela tanto o plano redentor de Deus para com o homem, quanto a aplicação desse plano; isto é: a salvação! Ao longo dos séculos, muitos questionamentos foram feitos, concílios foram organizados, ideias foram aceitas, outras, foram rejeitadas e ainda outras, foram condenadas como heresia. Até hoje, o tema da salvação tem sido cenário de conversas, debates e estudos, sendo que giram em torno do Arminianismo e Calvinismo (dois sistemas de interpretações sistematizadas acerca da mecânica da salvação).

Para ser mais exato, o Arminianismo tem crescido bastante entre os cristãos desde o século 19, embora seja desconhecido pela maioria. O simples fato de ser pouco conhecido faz com que esse sistema seja associado com heresias e movimentos antigos que foram refutados e condenados no passado.

Em virtude disso são criados “mitos”, “fantoches” e “falácias” sobre o Arminianismo com o objetivo de manchar a sua imagem. Diariamente arminianos são chamados de hereges pelos seus opositores. Essas acusações são antigas, e embora sejam desonestas e falsas, conseguem repercutir no meio cristão. Atualmente a internet tem contribuído bastante para isso. Frequentemente aparece algum internauta por meio de um vídeo ou rede social acusando o Arminianismo de ser Pelagiano. A maioria dos responsáveis por criarem tais mitos são os opositores do Arminianismo. Uns criticam sob a lupa da ignorância, ou seja, desconhecem totalmente o sistema, outros, embora conheçam, fazem questão de reproduzi-las afim de prejudicá-lo. Não é de se espantar que até teólogos renomados e reconhecidos literariamente caiam nesse erro. Por exemplo, o teólogo calvinista Michael Horton afirma que “Armínio reviveu o semipelagianismo.”[1] Outro dia, assisti um vídeo de um calvinista dizendo que Armínio ressuscitou as ideias de Pelágio, o mesmo é muito respeitado e bastante apreciado pelos cristãos.

Sendo assim, tenho por objetivo desconstruir esse mito na medida em que os fatos forem sendo abordados através desse artigo. Boa leitura!

O que é Pelagianismo?

O pelagianismo foi um movimento herético que surgiu entre os séculos IV e V. Era alicerçado nas ideias de um monge chamado Pelágio, embora não seja o único a desenvolvê-la. Segundo o pastor Carlos Klebler Maia:

         “O pelagianismo, ensino defendido por um monge britânico de origem irlandesa chamado Pelágio, que viveu no fim do século 4 e início do século 5 d.C. e também por Celéstio e Juliano de Eclano, pregava que o homem tem uma capacidade natural de viver uma vida santa e sem pecado e alcançar a felicidade eterna ao exercer a sua vontade livre. Eles afirmavam que a liberdade e a capacidade humana de agir corretamente, de ser verdadeiramente cristão, não haviam sido perdidas na Queda do homem.”[2]

Quem era Pelágio?

Ao contrário do que muitos pensam, Pelágio não era um homem ímpio. Era respeitado por muitos que viveram em sua época. Viveu entre 354 e 440 d.C. Conforme escreveu Justo L. González:

        “Pelágio era um respeitado mestre cristão que viera a Roma, procedente da Grã-Bretanha, para dedicar-se ao ensino e ao desenvolvimento da disciplina espiritual e moral, insistindo na necessidade de agradar a Deus por meio de uma vida de pureza e obediência.”[3]
                                            
A controvérsia de Agostinho e Pelágio:

  Pelágio não concordava com a ênfase que Agostinho dava à graça de Deus na salvação, logo, tratou de ensinar suas próprias opiniões acerca desse assunto, de maneira que, travou um embate com o bispo de Hipona. Segundo González “A controvérsia surgiu quando outro famoso teólogo e homem de comprovada santidade, Pelágio, leu algumas palavras de Agostinho que lhe pareceram intoleráveis.”[4]. Não há como falar de Pelágio sem citar Agostinho, já que o pelagianismo surgiu a princípio como uma oposição ao agostinianismo. De acordo com Michael Horton:

         “Como bispo da cidade de Hipona, ao norte da África, o experiente Agostinho (354-430) era profundamente influenciado pela teologia da graça. Sua controvérsia com Pelágio serviu para aprimorar seus insights com que ele, juntamente com Jerônimo e outros pais da igreja refinaram a formulação da igreja ocidental a respeito do pecado original, predestinação, expiação e a perseverança dos santos pela graça (...) A vontade caída, presa ao pecado, é incapaz de até mesmo buscar a graça de Deus longe da graça que ele concede a seus eleitos. O Agostinianismo era bastante equivalente à ortodoxia no ocidente, embora sempre encontrou oposição.”[5]

O estopim do debate se deu quando Pelágio discordou de Agostinho que rogava a Deus dizendo: “Concede o que ordenas e ordena o que queres” da quod iubes, et iube quod vis. (Confissões, 10.29). A principal discordância entre Agostinho e Pelágio “está baseada em parte, nos diferentes modos de entender o pecado e como ele afeta os seres humanos. Para Pelágio, o pecado é um ato contra a vontade de Deus. O pecado, embora possa afetar a vontade ao tornar-se hábito, não afeta a vontade humana de tal forma que a torne incapaz de fazer o bem.”[6] Em outras palavras, ele negava a depravação total e as consequências da queda.

O que ensinava o Pelagianismo?

Na obra: Depravação Total, pág 11, o pastor arminiano Kleber Maia dá um panorama do ensino pelagiano. Baseado nas informações fornecidas pelo autor, temos abaixo um gráfico com pequenas alterações.

Pregavam que o homem tem uma capacidade natural de viver uma vida santa e sem pecado e alcançar a felicidade eterna ao exercer a sua vontade livre.
Afirmavam que a liberdade e a capacidade humana de agir corretamente, de ser verdadeiramente cristão, não haviam sido perdidas na Queda do homem.
Negavam o pecado original, assegurando que os homens herdam de Adão apenas o mau exemplo; que o pecado é voluntário e individual e não pode ser transmitido.
Para eles a morte é algo inerente ao homem, e não o castigo pela desobediência; minoravam ou excluíam a necessidade da expiação realizada por Cristo, que nos teria dado apenas um bom exemplo a ser seguido.
Segundo Pelágio, o homem nasce bom, e pode permanecer assim por toda a sua vida, sem a necessidade de outra coisa, se não o uso da sua razão, da sua liberdade e a orientação da Palavra de Deus.

Segundo Thiago Titillo: “A pedra fundamental do edifício pelagiano é o seu otimismo em relação à natureza humana, que não pode ser corrompida pelo pecado, pois em sua essência, é inalteravelmente boa.”[7]

A rejeição do Pelagianismo.

As ideias de Pelágio tiveram tanta repercussão que foram organizados vários sínodos e concílios para analisar a questão. Titilo diz:

         “Se por um lado, os ensinos de Agostinho pareciam roubar do homem sua responsabilidade, o sistema pelagiano parecia uma completa negação da graça de Deus. Esse ponto, em especial, causou mal estar nas igrejas norte-africanas. Por isso, em 412, foi convocado o primeiro sínodo para tratar da questão, em Cartago. Ali, Celéstio foi condenado por heresia, tendo sido excomungado após recusar-se retratar-se.”[8].

Em 415, Pelagio também foi acusado de heresia, no entanto, conseguiu ser inocentado ao persuadir os juízes dos sínodos de Jerusalém e Dióspolis. Após bastante discussão o pelagianismo foi novamente condenado nos sínodos de Mileve e Cartago em 416. O papa Inocêncio declarou que Pelágio e Celéstio fossem excluídos da comunhão da igreja até fossem libertos das armadilhas de Satanás.

 Em 418, o pelagianismo foi novamente condenado num sínodo em Cartago. De acordo com Titillo “O sínodo, além de afirmar a doutrina do pecado original e a necessidade da graça, lançou diversos anátemas contra as doutrinas de Pelágio, como por exemplo, o seu ensino de que a súplica por perdão na oração do Senhor – ‘Perdoa-nos as nossas dívidas’ (Mt 6.12) feita pelos santos expressa somente humildade, e não verdadeira necessidade perdão.” [9]

Finalmente e de forma definitiva em 22 de junho de 431, o terceiro Concílio Ecumênico reunido em Éfeso condenou tanto o nestorianismo quanto o pelagianismo.

É importante destacar também que, muitas das ideias de Agostinho foram rejeitadas. Pouco tempo depois, outros procuraram um meio-termo entre Agostinho e Pelágio e ficaram conhecidos como semipelagianos, ou semiagostinianos que posteriormente também foram rejeitados.

O Arminianismo.

Após uma exposição de quem foi Pelágio e o pelagianismo, veremos o que defendia o Arminianismo para poder entendê-lo. Antes, se faz necessário uma breve descrição do que é arminianismo

O arminianismo é uma corrente de interpretação teológica sistematizada pelo teólogo, pastor e professor Jacó Armínio (1559-1609) que atua na área da soteriologia. Seria bom, se todo opositor do Arminianismo procurasse conhecê-lo, antes de criticá-lo. Digo isso, porque as convicções arminianas são sólidas, sérias e ortodoxas. Como bem escreveu Wellington Mariano:

         “O arminianismo defende a depravação total, a idéia de que o homem, após a queda de Adão e Eva, nasce em pecado e que, sem a ajuda de Deus, o homem não pode salvar-se. Defende ainda que, através da graça preveniente de Deus, o homem é liberto para crer, mas que a graça de Deus é resistível; advoga ainda, a expiação ilimitada, que nada mais é que a crença de que Deus enviou seu filho, Jesus Cristo, para morrer por todos e por cada um dos homens; que a eleição é condicional, ou seja, a condição para que a pessoa seja eleita é que ela creia, que deposite sua fé em Deus; e, por fim, que temos segurança em Cristo, mas que é possível que um verdadeiramente cristão cometa apostasia, isto é, que venha a perder sua salvação.”[10]


Desmascarando as mentiras sobre o Arminianismo.

Acusar o arminianismo de ser pelagiano é no mínimo desonesto. Não podemos levar adiante uma falsa caricatura de Armínio, já que ele nunca e nem mesmo sequer foi simpatizante de tais ensinamentos.

Em primeiro lugar, Armínio não negava o Pecado Original. O pecado original “é a herança pecaminosa que a humanidade adquiriu de seus primeiros pais; é a propensão para o mal, a inclinação para o pecado.”[11] Após a queda, todas as pessoas nascem com a natureza pecaminosa. Kleber Maia explica esse fato da seguinte maneira:

         “A partir do momento que desobedeceu a Deus, o homem sofreu as consequências do seu delito, decaiu da sua natureza original e entrou neste estado de pecado, que também é chamado de ‘pecado original’, ‘natureza decaída’, ou ‘depravação herdada’.”[12]

Armínio escreveu sobre isso: “Esta foi a razão pela qual todos os homens, que se originaram deles de maneira natural, se tornaram sujeitos à morte temporal e à morte eterna, sendo privados desse dom do Espírito Santo, ou mesmo da justiça original. Normalmente, essa punição recebe o nome de ‘privação de Deus’ e ‘pecado original’.”[13]

Armínio não só cria no pecado original como também o descrevia com maestria em suas obras. John Wesley escreveu: “Ninguém, nem o próprio João Calvino, afirmou a ideia do pecado original ou da justificação pela fé de maneira mais decisiva, mais clara e explícita que Armínio.”[14]

Em segundo lugar, Armínio não negava a Depravação Total. Ele afirmava não só a depravação da humanidade como também os efeitos da queda. Armínio diz : (temos aqui três traduções que expressam esse pensamento).
          “Mas em seu estado de descuido e pecado, o homem não é capaz de pensar, nem querer, ou fazer, por si mesmo, o que é realmente bom; pois é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições e desejos, e em todos os seus poderes, por Deus, em Cristo, por intermédio do Santo Espírito, para que possa ser corretamente qualificado para entender, estimar, considerar, desejar, e fazer aquilo que realmente seja bom. Quando ele é feito participante dessa regeneração ou renovação, considero que, estando liberto do pecado, ele é capaz de pensar, de querer e fazer aquilo que é bom, mas ainda não sem a ajuda continuada da graça divina."[15]

         “Mas em seu estado caído e pecaminoso, o homem não é capaz, de e por si mesmo, pensar, desejar, ou fazer aquilo que é realmente bom; mas é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade, e em todos os seus poderes, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que ele possa ser capacitado corretamente a entender, avaliar, considerar, desejar, e executar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito participante desta regeneração ou renovação, eu considero que, visto que ele está liberto do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer aquilo que é bom, todavia não sem a ajuda contínua da graça divina." [16]

           “Em seu estado pecaminoso e caído, o homem não é capaz, de e por si mesmo, quer seja pensar, querer ou fazer o que é, de fato, bom; mas é necessário que seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade e em todas as suas atribuições, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que seja capaz de corretamente compreender, estimar, considerar, desejar e realizar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito um participante dessa regeneração ou renovação, eu considero que, uma vez que ele é liberto do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer o que é bom, mas, entretanto, não sem a contínua ajuda da Graça Divina.”[17]

Segundo Kleber Maia “a depravação é total porque o homem inteiro está maculado pelo pecado. Todos os atos, pensamentos, vontades, desejos, escolhas e emoções de todos os homens são ímpios aos olhos de Deus.”[18]

Em terceiro lugar, também é falsa a acusação que diz que Armínio negava a extensão do pecado à toda raça humana. “Ele cria que o pecado de Adão afetou toda a sua descendência (ao contrário do que pregava o pelagianismo).”[19] Diferente de Pelágio (que alegava que o pecado não podia ser transmitido), Armínio diz:

“A abrangência deste pecado, porém, não é peculiar aos nossos primeiros pais, mas é comum a toda a raça humana e à toda a sua posteridade, que, na época em que esse pecado foi cometido, estava em seus lombos, e que desde então tem descendido deles pelo modo natural de propagação, segundo a benção primitiva. Pois em Adão ‘Todos pecaram’ (Rm 5.12). Por isso, seja qual for o castigo que tenha recaído sobre os nossos primeiros pais, ele foi igualmente repassado e acompanha toda a posteridade deles (...) Com esses males eles permaneceriam oprimidos para sempre, a menos que fossem libertos por Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre.”[20]

 Em quarto lugar, Armínio defendia que após a queda, o homem é incapaz de buscar a Deus, à parte da graça. O homem não possui aquela liberdade plena que existia em Adão e Eva antes da queda, pois, o pecado afetou também a vontade humana. Esse ponto analisaremos com mais profundidade de detalhes.

Vejamos  a opinião de Armínio sobre o livre-arbítrio: “Esta é a minha opinião sobre o livre-arbítrio do homem: Em sua condição primitiva, conforme ele saiu das mãos de seu criador, o homem foi dotado de tal porção de conhecimento, santidade e poder, que o capacitou a entender, avaliar, considerar, desejar, e executar o bem verdadeiro, de acordo com o mandamento a ele entregue. Todavia nenhum destes atos ele poderia fazer, exceto através da assistência da Graça Divina. Mas em seu estado caído e pecaminoso, o homem não é capaz, de e por si mesmo, pensar, desejar, ou fazer aquilo que é realmente bom; mas é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade, e em todos os seus poderes, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que ele possa ser capacitado corretamente a entender, avaliar, considerar, desejar, e executar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito participante desta regeneração ou renovação, eu considero que, visto que ele está liberto do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer aquilo que é bom, todavia não sem a ajuda contínua da Graça Divina.”[21]

Embora tenha utilizado esse texto anteriormente, achei necessário repeti-lo aqui para entendermos melhor o seu pensamento. Nenhum homem natural pode dar o primeiro passo para a salvação. Estando debaixo da escravidão do pecado, os ímpios estão separados de Deus, só a graça de Deus, manifestada na pessoa de Jesus Cristo, pode conceder a salvação. É Deus quem dá o primeiro passo em direção ao homem pecador, e não o contrário! Como bem escreveu Thomas Oden: “Se Deus não tivesse inicialmente chamado, ninguém poderia responder.”[22] Portanto, a vontade humana para a salvação também é corrompida.

Talvez por precaução que alguém o acusasse de ser pelagiano, Armínio escreveu: “O livre-arbítrio é incapaz de iniciar ou de aperfeiçoar qualquer bem verdadeiro e espiritual sem, a graça. Para que eu não possa ser considerado como Pelágio, como usando de mentiras com respeito à palavra ‘graça’, quero dizer, com isto, aquilo que é a graça de Cristo e que diz respeito à regeneração. Portanto, afirmo que esta graça é simples e absolutamente necessária para o esclarecimento da mente, a devida ordenação dos interesses e sentimentos, e a inclinação da vontade para o que é bom [...] Confesso que a mente de um homem carnal e natural é obscura e sombria, que seus afetos são corruptos e desordenados, que sua vontade é obstinada e desobediente, e que o próprio homem está morto em pecados.”[23]

É bem verdade que Deus criou o homem com livre-arbítrio. O homem tinha liberdade para escolher entre fazer o bem ou mal, porém, a condição do homem antes da queda, não é a mesma condição do homem após a queda. Vejamos agora o que os arminianos dizem sobre a vontade humana após a queda:

            “À parte da graça, a vontade [humana] é má, porque a natureza do homem é tão ruim que de si mesmo não pode escolher o que é certo.”[24] (Thomas Summers)

         “Eu acredito que Adão, antes da Queda, tinha essa liberdade de vontade, que ele poderia escolher o bem ou o mal; mas que, desde a Queda, nenhum filho do homem tem um poder natural de escolher qualquer coisa que é verdadeiramente boa.”[25] (John Wesley)

          “A vontade do homem em lapso ou em estado caído, e antes do chamado de Deus, não tem capacidade e liberdade de querer qualquer bem que é de natureza Salvífica; e, portanto, negamos que a liberdade de querer tanto o que é bom como o que é mal está presente na vontade humana em todo o seu estado ou condição.”[26] (Remonstrantes)

         “Com a depravação de sua natureza, o homem perdeu seu livre-arbítrio. Sua vontade tornou-se escrava do pecado, com liberdade apenas para pecar (posse peccare).” [27](Carlos Kleber Maia)

Após a queda o homem perdeu o livre-arbítrio. Sobre isso comenta Wellinton Mariano: “Outra grande e importantíssima implicação do entendimento da doutrina da depravação total acontece na esfera do Livre-Arbítrio. Muitos cristãos evangélicos sinceros acreditam e defendem que o homem tem Livre-arbítrio, mas já vimos que o homem está totalmente depravado e que isso significa que todas as áreas do seu ser foram afetadas negativamente pelo pecado, incluindo o arbítrio. Segue-se portanto, que o homem após a queda não possui Livre-arbítrio, já que o pecado também afeta a sua vontade e é exatamente por isso que Romanos 3 diz que o homem não busca a Deus. Porque o homem não busca a Deus? Porque o seu arbítrio agora está afetado, preso e inclinado para o mal de maneira que a pessoa, em sua vontade natural e sem o auxílio de Deus, é incapaz de buscar a Deus. Livre-arbítrio é o que Adão e Eva tinham antes da queda. Todos os seus descendentes, em razão da queda, nascem sem Livre-arbítrio. O arbítrio do homem, nascido em delitos e pecados, é escravo. O termo mais correto e específico portanto, para se definir o arbítrio do homem natural é arbítrio escravo, um arbítrio que não é livre, mas que está escravizado pelo pecado.”[28]

Qualquer homem natural está depravado totalmente, isso significa que todas as áreas do seu ser foram afetadas. A liberdade humana é semelhante a de um pássaro dentro da gaiola. O passarinho acha que é livre só porque pode escolher entre beber água ou se alimentar, quando na verdade existe uma gaiola ao seu redor que lhe impede de voar para mais longe. Infelizmente, o passarinho só tem a sensação de liberdade, pois a realidade é totalmente outra. A verdade é que ele está preso e não pode sair por si só da gaiola, a menos que alguém lhe abra a porta.

Com base nessa pequena ilustração, podemos entender que a gaiola é o pecado que aprisiona e escraviza o homem. Essa é a atual condição da humanidade sem Cristo. O homem está escravizado pelo pecado a tal ponto de ser incapaz de buscar a salvação. Até o arbítrio foi atingido. Armínio diz: “Nesse estado, o livre-arbítrio do homem para o que é bom não somente está ferido, aleijado, enfermo, distorcido e enfraquecido; ele também está aprisionado, destruído e perdido. E os seus poderes não estão somente debilitados, são inúteis (a menos que seja assistido pela graça), mas está totalmente privado do poder, exceto aqueles poderes dados pela graça divina, pois Cristo disse: ‘... sem mim nada podeis fazer.”[29]

Diante disso, Deus atua no ser humano com sua graça preveniente (graça que vem antes), dando condições e capacitando, de maneira que o arbítrio é liberto para crer, dando-nos acesso para a salvação. Kleber Maia comenta: “A graça (e não o seu próprio arbítrio) é que lhe dá o acesso à vida eterna em Jesus.”[30]

Por fim, a teologia arminiana glorifica inteiramente a Deus. É o Senhor que dá total assistência ao homem, e faz isso, derramando da sua graça. No arminianismo, a graça não é uma ferramenta ou um mero equipamento que pode ser usado pelo homem. A graça é o poder vivificador do Evangelho. Atribuímos a Deus toda a glória, louvor e honra. Se uma vez liberto para crer, o homem abraça a salvação, o mérito certamente é divino. Simão Episcópio escreveu: “Sem ela [a graça divina] não podemos nos libertar do fardo do pecado, nem fazer, de jeito nenhum, qualquer coisa verdadeiramente boa na religião, nem finalmente algum dia escapar da morte eterna ou qualquer verdadeiramente punição de pecado.” (“Confession of Faith of Those Called Arminians”, citado por OLSON, Roger E. Teologia Arminiana – mitos e realidades. (São Paulo, Reflexão, 2013a), p.189.)

Conclusão:

Longe de ser um movimento herético, o arminianismo leva a Bíblia a sério. Não podemos acusar Armínio de ser herege, e ignorar seus escritos e a história. Que levemos a sério as palavras de John Wesley: “Que nenhum homem esbraveje contra o Arminianismo a menos que saiba o que ele significa.” Depois de estudar com atenção e cuidado, descobrimos que é falsa a acusação levantada contra Armínio.

 Logo, concluímos que é um mito afirmar que Armínio era pelagiano, ou até mesmo dizer que ele ensinava tal coisa.

Armínio não ressuscitou as ideias de Pelágio, pelo contrário, sua teologia está embasada na Bíblia, nos escritos da Patrística e da Reforma. Que as falsas acusações sobre o arminianismo caiam por terra, e que a verdade seja dita e comunicada. Deus abençoe a todos.




[1] Citado por OLSON, Roger E.  Teologia Arminiana - mitos e realidades. (São Paulo, Reflexão, 2013a), p.179.

[2] MAIA, Carlos Kleber.  Depravação Total. (São Paulo, Reflexão, 2015), p. 11.

[3] GONZÁLEZ, Justo L. Uma breve história das doutrinas cristãs. (São Paulo, HAGNOS, 2015), p. 118.

[4] Ibid, p.118

[5] HORTON, Michael. A Favor do Calvinismo. (São Paulo, Reflexão, 2014), p. 40.
[6] GONZÁLEZ, 2015, p. 120.

[7] TITILO, Thiago Velozo. A Gênese da Predestinação na História da Teologia.        
 (São Paulo, Fonte Editorial, 2013) p. 60.
               
[8] Ibid, p. 175

[9] Ibid, p. 178

[10] MARIANO, Wellington. O que é Teologia Arminiana? (São Paulo, Reflexão, 2015).  
  p.13.

[11] MAIA, Carlos Kleber. Depravação Total (São Paulo, Reflexão, 2015), p. 42.

[12] Ibid. p. 41,42.

 [13] ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. (Rio de Janeiro, CPAD, 2015 ). Vol 2, p. 74.

[14] http://www.cacp.org.br/o-que-e-um-arminiano/. Acessado dia 04/02/2016 às 16: 44
[15] ARMÍNIO, Op. Cit., v. 1, p. 231.

[16]ARMINIUS, Jakob, A Declaration of Sentiments, Works, vol. 1, p. 664, (traduzido pela                
Revista Enfoque Teológico, vol. 1, no 1, 2014, FEICS, p. 105).

[17] OLSON, Roger, Teologia Arminiana: Mitos e Realidades (São Paulo, Reflexão, 2013),  
p. 53.

[18] MAIA, Carlos Kleber. Depravação Total (São Paulo, Reflexão, 2015), p. 47.

[19] Ibid, p. 61.

[20] ARMÍNIO, Op. Cit., v. 1, p. 439.

[21] ARMÍNIO, Op. Cit., v. 1, p. 231.

[22] ODEN, Thomas. The Transforming Power of Grace. (Lexington/KY, Abingdon Press,
1993), p. 120.

[23] ARMÍNIO, Op. Cit., v. 2, p. 406.

[24] Citado por MAIA, Carlos Kleber. Depravação Total (São Paulo, Reflexão, 2015), p. 71

[25] Ibid, p. 68.

[26] Ibid, p.62.

[27] Ibid, p.48.

[28] MARIANO, Wellington. O que é Teologia Arminiana (São Paulo, Reflexão, 2015), p.
25,26.

[29] ARMÍNIO, Op. Cit., v. 1, p. 473.

[30] MAIA, Op. Cit., p. 75