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19 de agosto de 2019

Patrística: A luta pela Defesa e Fundamentação doutrinária da Igreja Primitiva.


Por Everton Edvaldo


Introdução: Hoje vamos falar sobre um dos períodos mais gloriosos da igreja primitiva: a Patrística. Veremos o que foi, quais foram os principais personagens e escritos, o período em que se estenderam, as divisões, a importância, quantos escritos deixaram, como devemos estudá-los e quais são os perigos que devemos evitar ao fazer isso. Esse estudo é uma mistura de história, fé e ação e que sem dúvida vai agregar edificação à nossa vida. Vamos lá?

I-    O QUE FOI A PATRÍSTICA:

A Patrística foi a época em que emergiu os “pensadores e escritores cristãos dos primeiros séculos.” (CLEMENTE [Et. al], p. 7) Eles são chamados  de “pais”, porque intensificaram e sistematizaram muitas doutrinas importantes do Cristianismo.

O estudo da Patrística abrange tanto a figura dos pais, como também os seus escritos. Ele também é chamado de Patrologia “que vem da palavra latina pater.” (LITFIN, p. 20)

Foi um período em que as doutrinas cristãs foram pela primeira vez desenvolvidas. Graças a eles, o Cristianismo pode sobreviver às ameaças tanto do mundo, da filosofia e cultura romana, quanto das crenças que surgiram dentro da própria igreja.

II-  PRINCIPAIS PAIS DA IGREJA:

Vou deixar uma breve lista dos principais pais da igreja logo abaixo:[1]

Clemente de Roma (†102), foi o terceiro sucessor de Pedro, nos tempos dos imperadores romanos Domiciano e Trajano (92 a 102). No depoimento de Ireneu “ele viu os Apóstolos e com eles conversou, tendo ouvido diretamente a sua pregação e ensinamento”. (Contra as heresias)

Inácio de Antioquia (†110) foi o terceiro bispo da importante comunidade de Antioquia, fundada por Pedro. Conheceu pessoalmente Paulo e João. Sob o imperador Trajano, foi preso e conduzido a Roma onde morreu nos dentes dos leões no Coliseu. A caminho de Roma escreveu Cartas às igreja de Éfeso, Magnésia, Trales, Filadélfia, Esmirna e ao bispo Policarpo de Esmirna. Na carta aos esmirnenses, aparece pela primeira vez a expressão “Igreja Católica”.

Aristides de Atenas († 130) foi um dos primeiros apologistas cristãos; escreveu a sua Apologia ao imperador romano Adriano, falando da vida dos cristãos.

Policarpo (†156) foi bispo de Esmirna, e uma pessoa muito amada. Conforme escreve Irineu, que foi seu discípulo, Policarpo foi discípulo de João. No ano 155 estava em Roma com Niceto tratando de vários assuntos da Igreja, inclusive a data da Páscoa. Combateu os hereges gnósticos. Foi condenado à fogueira; o relato do seu martírio, feito por testemunhas oculares, é documento mais antigo deste gênero.

Didaquè (ou Doutrina dos Doze Apótolos) é como um antigo catecismo, redigido entre os anos 90 e 100, na Síria, na Palestina ou em Antioquia. Traz no título o nome dos doze Apóstolos. Os Pais da Igreja mencionaram-no muitas vezes. Em 1883 foi encontrado um manuscrito seu em grego.

Justino mártir nasceu em Naplusa, antiga Siquém, em Israel; achou nos Evangelhos “a única filosofia proveitosa”, filósofo, fundou uma escola em Roma. Dedicou a sua Apologias ao Imperador romano Antonino Pio, no ano 150, defendendo os cristãos; foi martirizado em Roma.

Hipólito de Roma (160-235) discípulo de Ireneu (140-202), foi célebre na Igreja de Roma, onde Orígenes o ouviu pregar. Morreu mártir. Escreveu contra os hereges, compôs textos litúrgicos, escreveu a Tradição Apostólica onde retrata os costumes da Igreja no século III: ordenações, catecumenato, batismo e confirmação, jejuns, ágapes, eucaristia, ofícios e horas de oração, sepultamento, etc.

Melitão de Sardes (†177) foi bispo de Sardes, na Lídia, um dos grandes luminares da Ásia Menor. Escreveu a Apologia, dirigida ao imperador Marco Aurélio.

Atenágoras (†180) era filósofo em Atenas, Grécia, autor da Súplica pelos Cristãos, apologia oferecida em tom respeitoso ao imperador Marco Aurélio e seu filho Cômodo; escreveu também o tratado sobre A Ressurreição dos mortos, foi um grande apologista.

Teófilo de Antioquia nasceu na Mesopotâmia, converteu-se ao cristianismo já adulto, tornou´se bispo de Antioquia. Apologista, compôs três livros, a Autólico.

Ireneu (†202) nasceu na Ásia Menor, foi discípulo de Policarpo (discípulo de João), foi bispo de Lião, na Gália (hoje França). Combateu eficazmente o gnosticismo em sua obra Adversus Haereses (Refutação da Falsa Gnose) e a Demonstração da Preparação Apostólica.

Clemente de Alexandria (†215). Seu nome é Tito Flávio Clemente, nasceu em Atenas por volta de 150. Viajou pela Itália, Síria, Palestina e fixou´se em Alexandria. Durante a perseguição de Setímio Severo (203), deixou o Egito, indo para a Ásia Menor, onde morreu em 215. Seu grande trabalho foi tentar fazer aliança do pensamento grego com a fé cristã. Dizia: “Como a lei formou os hebreus, a filosofia formou os gregos para Cristo”.

Orígenes (184-254). Nasceu em Alexandria, Egito; seu pai Leônidas morreu martirizado em 202. Também desejava o mártirio; escreveu ao pai na prisão: “não vás mudar de ideia por causa de nós”. Em 203 foi colocado à frente da escola catequética de Alexandria pelo bispo Demétrio. Em 212 esteve em Roma, Grécia e Palestina. A mãe do imperador Alexandre Severo, Júlia Mammae, chamou´o a Antioquia para ouvir suas lições. Morreu em Cesaréia durante a perseguição do imperador Décio.

Tertuliano (†220) de Cartago, norte da África, culto, era advogado em Roma quando em 195 se converteu ao Cristianismo, passando a servir a Igreja de Cartago como catequista. Combateu as heresias do gnosticismo, mas se desentendeu com a Igreja Católica. É autor das frases: “Vede como se amam” e “O sangue dos mártires é a semente de novos cristãos”.

Cipriano (†258). Cecílio Cipriano nasceu em Cartago, foi bispo e primaz da África Latina. Era casado. Foi perseguido no tempo do imperador Décio, em 250, morreu mártir em 258. Escreveu a bela obra Sobre a unidade da Igreja Católica. Na obra De Lapsis, sobre os que apostataram na perseguição, narra ao vivo o drama sofrido pelos cristãos, a força de uns, o fracasso de outros. Escreveu ainda a obra Sobre a Oração do Senhor, sobre o Pai Nosso.

Eusébio de Cesaréia (260-339) bispo, foi o primeiro historiador da Igreja. Nasceu na Palestina, em Cesaréia, discípulo de Orígenes. Escreveu a sua Crônica e a História Eclesiástica, além de A Preparação e a Demonstração Evangélica. Foi perseguido por Dioclesiano, imperador romano.

Atanásio (295-373) doutor da Igreja, nasceu em Alexandria, ainda jovem foi viver o monaquismo nos desertos do Egito,onde conheceu o grande Santo Antão(†376), o “pai dos monges”. Tornou-se diácono da Igreja de Alexandria, e junto com o seu Bispo Alexandre, se destacou no Concílio de Nicéia (325) no combate ao arianismo. Tornou-se bispo de Alexandria em 357 e continuou a sua luta árdua contra o arianismo (Ário negava a divindade de Jesus), o que lhe valeu sete anos de exílio. São Gregório Nazianzeno disse dele: “O que foi a cabeleira para Sansão, foi Atanásio para a Igreja.”

Hilário de Poitiers (316-367) doutor da Igreja, nasceu em Poitiers, na Gália (França); em 350 clero e povo o elegiam bispo, apesar de ser casado. Organizou a luta dos bispos gauleses contra o arianismo. Foi exilado pelo imperador Constâncio, na Ásia Menor, voltando para a Gália em 360, fazendo valer as decisões do Concílio de Nicéia. É chamado o “Atanásio do Ocidente”.Escreveu as obras Sobre a Fé, Sobre a Santíssima Trindade.

Efrém (†373), doutor da Igreja – é considerado o maior poeta sírio, chamado de “a cítara do Espírito Santo”. Nasceu em Nísibe, de pais cristãos, por volta de 306, deve ter participado do Concílio de Nicéia (325), segundo a tradição, com o seu bispo Tiago. Foi ordenado diácono em 338 e assim ficou até o fim da vida. Escreveu tratados contra os gnósticos, os arianos e contra o imperador Juliano, o apóstata.

Basílio Magno (329-379). Bispo e doutor da Igreja, nasceu na Capadócia; seus irmãos Gregório de Nissa e Pedro, são santos. Foi íntimo amigo de Gregório Nazianzeno; fez´se monge. Em 370 tornou´se bispo de Cesaréia na Palestina, e metropolita da província da Capadócia. Combateu o arianismo e o apolinarismo (Apolinário negava que Jesus tinha uma alma humana). Destacou´se no estudo a Santíssima Trindade (Três Pessoas e uma Essência).

Gregório Nazianzeno (329-390), doutor da Igreja – nasceu em Naziano, na Capadócia, era filho do bispo local; foi um dos maiores oradores cristãos. Foi grande amigo de Basílio, que o ordenou bispo. Lutou contra o arianismo. Sua doutrina sobre a Santíssima Trindade o fez ser chamado de “teólogo”, que o Concílio de Calcedônia confirmou em 481.

Gregório de Nissa (†394) – foi bispo de Nissa, e depois de Sebaste, irmão de Basílio e amigo de Gregório Nazianzeno. Os três santos brilharam na Capadócia. Foi poeta e místico; teve grande influência no primeiro Concílio de Constantinopla (381) que definiu o dogma da SS. Trindade. Combateu o apolinarismo, macedonismo (Macedônio negava a divindade do Espírito Santo) e arianismo.

João Crisóstomo (= boca de ouro) (354-407), doutor da Igreja, é o mais conhecido dos Pais da Igreja grega. Nasceu em Antioquia. Tornou-se patriarca de Constantinopla, foi grande pregador. Foi exilado na Armênia por causa da defesa da fé sã.

Cirilo de Alexandria (†444) – Bispo e doutor da Igreja, sobrinho do patriarca de Alexandria, Teófilo, o substituiu na Sé episcopal em 412. Combateu vivamente o Nestorianismo (Néstório negava que em Jesus havia uma só Pessoa e duas naturezas), com o apoio do papa Celestino. Participou do Concílio de Éfeso (431), que condenou as teses de Nestório. É considerado um dos maiores Pais da língua grega.

João Cassiano (360-465) – recebeu formação religiosa em Belém e viveu no Egito. Foi ordenado diácono por S. João Crisóstomo, em Constantinopla, e padre pelo papa Inocêncio, em Roma. Em 415 fundou dois mosteiros em Marselha, um para cada sexo. São Bento recomendou seus escritos.

Pedro Crisólogo (= palavra de ouro) (†450) – bispo e doutor da Igreja – foi bispo de Ravena, Itália. Quando Êutiques, patriarca de Constantinopla pediu o seu apoio para a sua heresia (monofisismo ´ uma só natureza em Cristo), respondeu: “Não podemos discutir coisas da fé, sem o consentimento do Bispo de Roma”. Temos 170 de suas cartas e escritos sobre o Símbolo e o Pai – Nosso.

Ambrósio (†397), doutor da Igreja – nasceu em Tréveris, de nobre família romana. Com 31 anos governava em Milão as províncias de Emília e Ligúria. Ainda catecúmeno, foi eleito bispo de Milão, pelo povo, tendo, então recebido o batismo, a ordem e o episcopado. Foi conselheiro de vários imperadores e batizou santo Agostinho, cujas pregações ouvia. Deixou obras admiráveis sobre a fé da igreja universal.

Jerônimo (347-420), “Doutor Bíblico” – nasceu na Dalmácia e educou-se em Roma; é o mais erudito dos Pais da Igreja latina; sabia o grego, latim e hebraico. Viveu alguns anos na Palestina como eremita. Em 379 foi ordenado sacerdote pelo bispo Paulino de Antioquia; foi ouvinte de Gregório Nazianzeno e amigo de Gregório de Nissa. De 382 a 385 foi secretário do Papa S. Dâmaso, por cuja ordem fez a revisão da versão latina da Bíblia (Vulgata), em Belém, por 34 anos. Pregava o ideal de santidade entre as mulheres da nobreza romana (Marcela, Paula e Eustochium) e combatia os maus costumes do clero. Na figura de Jerônimo destacan-se a austeridade, o temperamento forte e o amor à igreja.

Agostinho (354-430). Bispo e Doutor da Igreja ´ Nasceu em Tagaste, Tunísia, filho de Patrício e Mônica. Grande teólogo, filósofo, moralista e apologista. Aprendeu a retórica em Cartago, onde ensinou gramática até os 29 anos de idade, partindo para Roma e Milão onde foi professor de Retórica na corte do Imperador. 
Alí se converteu ao cristianismo pelas orações e lágrimas, de sua mãe Mônica e pelas pregações de Ambrósio, bispo de Milão. Foi batizado por esse bispo em 387. Voltou para a África em veste de penitência onde foi ordenado sacerdote e depois bispo de Hipona aos 42 anos de idade. Foi um dos homens mais importantes para a Igreja. Combateu com grande capacidade as heresias do seu tempo, principalmente o Maniqueismo, o Donatismo e o Pelagianismo, que desprezava a graça de Deus. Agostinho escreveu muitas obras e exerceu decisiva influência sobre o desenvolvimento cultural do mundo ocidental. É chamado de “Doutor da Graça”.

Bento de Núrcia (480-547) – nasceu em Núrcia, na Úmbria, Itália; estudou Direito em Roma, quando se consagrou a Deus. Tornou-se superior de várias comunidades monásticas; tendo fundado no monte Cassino a célebre Abadia local. A sua Regra dos Mosteiros tornou-se a principal regra de vida dos mosteiros do ocidente, elogiada por Gregório Magno, usada até hoje. O lema dos seus mosteiros era “ora et labora”.

Máximo, o Confessor (580-662) – nasceu em Constantinopla, foi secretário do imperador Heráclio, depois foi para o mosteiro de Crisópolis. Lutou contra o monofisismo e monotelismo, sendo preso, exilado e martirizado por isso. Obteve a condenação do monotelismo no Concílio de Latrão, em 649.

Ildefonso de Sevilha (†636) – doutor da Igreja. Considerado o último pai do ocidente. Bispo de Sevilha, Espanha desde 601. Em 636 dirigiu o IV Sínodo de Toledo. Exerceu notável influência na Idade Média com os seus escritos exegéticos, dogmáticos, ascéticos e litúrgicos.

João Damasceno (675-749). Bispo e Doutor da Igreja. É considerado o último dos representantes dos pais gregos. É grande a sua obra literária: poesia, liturgia, filosofia e apologética. Filho de um alto funcionário do califa de Damasco, foi companheiro do príncipe Yazid que, mais tarde o promoveu ao mesmo encargo do pai, ministro das finanças. A um determinado tempo deixou a corte do califa e retirou-se para o mosteiro de Sabas, perto de Jerusalém. Tornou-se o pregador titular da basílica do Santo Sepulcro.

III- O PERÍODO EM QUE SE ESTENDERAM E AS DIVISÕES.

Geralmente, a maioria dos estudiosos estendem o período da Patrística, do século II ao século VI d.C. Porém, alguns entusiastas alongam esse período até o século VIII d. C e um menor número, fecha no século XII d. C.

Para o sistematizador Johannes Quasten, a patrística começa ainda na época do N.T até Isidoro de Sevilha (636 d.C), no mundo latino, e João Damasceno (749 d. C) no mundo grego.[2]

As divisões também não são unanimes. Nós temos:

- Pais apostólicos, Apologistas e Polemistas.
- Pais Pré-Nicenos, Nicenos e Pós-Nicenos.
- Pais do Oriente (grego) e Ocidente (latino)

IV- PORQUE DEVEMOS LER OS PAIS?

- Porque eles foram majoritariamente responsáveis por construir a tradição da igreja.

- Porque ao estudá-los, nós podemos ter uma visão panorâmica e mais clara acerca da história da igreja e do seu modus operandi como por exemplo: estrutura eclesiástica, manifestações carismáticas e vida cristã.

- Porque foi no período deles que as principais heresias, modismos e falsas foram refutadas e repugnadas.

- Porque eles enriqueceram o pensamento, a filosofia e por conseguinte, a sociedade como um todo.

- Porque seus escritos são relevantes. Muitas pessoas pensam que a produção teológica de qualidade e confiável só surge a partir da Reforma Protestante, o que não é verdade, mas um grande engano. Ignorar os pais, é amputar 1/4 da história do Cristianismo.

- Porque seus escritos compõem a literatura mais próxima de Cristo, dos apóstolos e daqueles que tiveram contato com eles. 

- Tanto a vida deles como seus escritos formam a base da apologética (defesa da fé) e portanto, podem nos ajudar também nesta tarefa.

- Porque ao estudá-los, nós criamos pontes com o nosso passado e origem. É um verdadeiro encontro do presente com o passado.

- Porque "Escritura" e "Tradição", não são duas entidades concorrentes ou excludentes. Ambos possuem a sua devida importância.

V- COMO DEVEMOS ESTUDÁ-LOS?

- Em primeiro lugar, é impossível compreender bem e de forma precisa os pais, sem antes ter uma noção básica de filosofia. Digo isto porque parte da Patrística bebeu da lógica e do pensamento de alguns filósofos como Sócrates, Platão (esse em especial) e Aristóteles bem como de alguns gatilhos que eles possuíam. Lê-los sem esse conhecimento prévio, torna seus escritos maçantes, fatigantes e desinteressantes.

- Em segundo lugar, devemos lê-los à luz dos seus próprios contextos e épocas. Para isso, é bom adquirir livros que atualizem a época em que eles viveram bem como a cultura, costumes, escrita, povo, etc. Não fazer isso fará com que você veja seus escritos como exóticos e difíceis demais para leitura e compreensão. É um erro crasso ler os pais com os óculos da pós-modernidade, pois eles viveram em uma época específica.

-Em terceiro lugar, leia os pais através dos seus próprios escritos. Uma coisa é o que eles escreveram, outra coisa é o que os outros disseram acerca deles. São duas coisas totalmente distintas. Muitos estudantes da Bíblia, lê os pais com as lentes de outras pessoas, e isso pode prejudicar sua compreensão acerca deles. Claro que os livros podem intermediar e até mesmo contextualizar, porém, o caminho mais excelente é estudar os pais nas suas próprias fontes.

- Em quarto lugar, tenha consciência de que eles possuem uma escrita e estilo literário próprio, peculiar a eles. Isto significa dizer que não há uma homogeneidade em seus escritos, pois, um tem uma abordagem mais pedagógica, o outro mais questionador, o outro mais literal, outro mais alegórico, outro mais sistemático e metodológico, outro mais filosófico e reflexivo, outros mais pé no chão e objetivo/direto, outro mais prolixo.

- Em quinto lugar, leia os pais comparando seus escritos e pensamento com as Escrituras. Esse processo é chamado de "contraste''. Dessa forma, você poderá assimilar melhor o conteúdo que eles produziram.

VI- CUIDADOS AO LER OS PAIS:

- Não devemos tomar os pais como pessoas inerrantes.

- Não podemos colocar seus escritos no mesmo patamar das Escrituras, pois ela é inerrante, inspirada e poderosa.

- Nós devemos ler os pais como se estivéssemos comendo peixe. Ou seja, separando as espinhas do que é digerível. 

-  Nós devemos ter discernimento acerca da evolução do pensamento deles. Por exemplo, era muito comum os pais debaterem com outras pessoas e mudarem ou aperfeiçoarem algumas crenças pessoais.  Agostinho de Hipona mesmo, tem seu pensamento divido geralmente de duas formas: "Agostinho jovem" e o "Agostinho velho''.

- Nós devemos ter cuidado com algumas crenças heterodoxas que alguns deles criam como universalismo, por exemplo. 

VII- QUANTOS LIVROS OS PAIS DA IGREJA ESCREVERAM?

Quem de nós nunca sonhou em ter a coleção completa de 44 volumes da Paulus sobre a Patrística? Para quem não se lembra, a Patrística foi um grande período da história da igreja, em que os pais ou padres da igreja, consolidaram muitas das doutrinas cristãs que temos hoje. Eles fizeram parte da igreja primitiva e deixaram para nós um vasto material escrito, tratando sobre diversos assuntos e corrigindo dezenas de erros. Às vezes, errando, às vezes acertando, a Patrística é digna de ser estudada. Porém, conhecer seus escritos é um grande desafio.

O primeiro é o da tradução. Das centenas de volumes que existem, apenas poucas dezenas foram traduzidas para a língua portuguesa. O segundo é o da linguagem. Os patrísticos são exaustivos e possuem uma linguagem bem peculiar. Lê-los na maioria das vezes é maçante, cansativo e desmotivador para um público que não tem o hábito da leitura.

A coleção mais completa que temos em nosso país, é a da Editora Paulus. São 44 volumes bem resumidos e trazem alguns escritos de pais como Orígenes, Agostinho de Hipona, Leão Magno, Ambrósio, João Crisóstomo, Irineu de Lyon, Justino de Roma, Hilário de Poitiers, Gregório de Nissa, Gregório Magno, Eusébio de Cesaréia, Cipriano de Cartago, Ambrósio de Milão, entre outros. Ela custa atualmente: 3.320,00 R$.
Porém, o catálogo da Patrística é muito maior que isso.

Para você ter ideia, entre 1844 e 1864, um abade e padre francês chamado Jacques Paul Migne, publicou a coleção de Patrologia Latina. Ela é a maior e mais exaustiva coleção já publicada dos escritos existentes dos pais e doutores latinos da igreja primitiva e medieval. Ela cobre um período de tempo de Tertuliano (200 d.C) e vai até o Papa Inocêncio III em 1216. No total, são 221 volumes e cerca de 150.000 páginas escritas em latim.

Porém, não para por aí...

Entre 1857 e 1866, J.P. Migne também lançou a maior coleção já publicada dos escritos existentes dos pais e doutores gregos da igreja primitiva e medieval. Com a coleção da Patrologia Grega, nós podemos ter acesso aos escritos dos pais capadócios cujos trabalhos foram tão importantes para a formulação precisa da doutrina da Trindade contra o Sabelianismo por um lado, e o triteismo, por outro. São 161 volumes e 110.000 páginas.

Em 1886, o professor Rene Graffin embarcou na grandiosa tarefa de compilar os escritos dos pais que não foram incluídos nas obras monumentais de J.P. Migne. Ela resultou na coleção de Patrologia Siríaca e Oriental. São escritos dos pais da igreja em árabe, armênio, copta, etíope, grego, georgiano, eslavo e siríaco. Nela, há escritos teológicos, cartas e homilias dos primeiros pais orientais. Ela nos revela qual era o pensamento deles sobre as Escrituras, as doutrinas cristãs e as heresias que os assolavam. São 17 volumes e um total de 12.725 páginas.

Ainda hoje, várias outras obras dos pais da igreja estão sendo publicadas de forma independente. O trabalho não para. Além disso, se sabe que o possui um acervo gigantesco de obras da Patrística que poucas pessoas ou quase ninguém tem acesso. Muitas dessas obras, nós talvez nunca conheçamos. Sem contar naqueles que se perderam ao longo dos anos e que nunca teremos a oportunidade de ler. Sem dúvida, o período da Patrística foi riquíssimo em produção teológica e abastado de muito conhecimento.

No final das contas, nunca saberemos ao certo quanto livros a Patrística possui, mas é certo que ela foi incomparável e singular.

VIII- MATROLOGIA OU MATRÍSTICA:

Você sabia que também existiram mulheres nesse período que produziram e influenciaram bastante a geração em que viviam? Lamentavelmente, essa é uma lacuna que precisa ser preenchida, principalmente em solo brasileiro. Isto ocorre porque descobrir informações confiáveis sobre mulheres no cristianismo primitivo é um empreendimento desafiador.

O erudito Michael A. G. Haykin comenta:

"... a erudição desta época está agora disposta a falar das mães da igreja (''matrística'')... Mas o problema desta categoria de 'matrística' é que há poucas mulheres da igreja antiga que podem ser estudadas com profundidade semelhante ao estudo dos pais, visto que deixaram poucos remanescentes textuais.'' (HAYKIN, p. 15)

Eu costumo dizer que houveram pelo menos quatro fatores pelos quais a contribuição das mães da igreja ficou ofuscada, quase que apagada.

- Destaque. Apesar da mulher no Cristianismo ser bastante valorizada em comparação com outras religiões e povos, a igreja primitiva ainda estava na fase embrionária e era bombardeada o tempo todo pela cultura greco-romana que não era favorável à atuação da mulher na sociedade, embora história esteja repleta de exemplos notáveis de muitas delas. Isto, significa dizer que somente aquelas que se destacavam conseguiam trazer alguma contribuição significativa na sociedade. Não foi diferente na história da igreja, por isso temos tão poucas mulheres se destacando, embora massivamente elas tenham sido ativas.

- Produção. Um fato: As mulheres cristãs não produziram na mesma proporção que os homens. Naquela época, poucas tinham acesso a educação formal e portanto, não tinham condições de atuar na esfera literária da mesma forma que o homem. Resultado: Produziram pouca literatura, sem falar naqueles escritos que provavelmente devem ter se perdido em mosteiros, bibliotecas e batalhas.

Por isso que o Bryan M. Litfin comenta:

"A verdade é que houve muitas grandes mulheres na igreja antiga. Os cristãos do passado com frequência elogiavam as qualidades nobres e heroicas de santas mulheres, sobretudo as mártires e as virgens que viveram de modo consagrado a Deus. Mas devemos lembrar que na sociedade antiga as mulheres raramente aprendiam a ler e a escrever, e certamente não se esperava que tivessem uma produção literária intelectual. Por esse motivo, poucas obras de mulheres do período da igreja antiga chegaram até nós." (LITFIN, p. 20)

- Popularidade. Numa sociedade onde a popularidade era um "prestígio" quase que exclusivamente do homem, é de se esperar que elas e seus escritos não sejam populares nos dias de hoje.

- Influência. A soma desses três fatores contribui para o quatro. Além da dificuldade de destacar-se, da baixa produção e popularidade, a Matrologia não foi tão influente quanto a Patrologia. Geralmente, o testemunho dessas mulheres (seja de forma escrita ou verba) desempenhava uma influência local e discreta, sem muito alarde.

No entanto, a história atesta:  muitas delas deram uma importante contribuição para a igreja primitiva[3] como Bitalia, Veneranda, Crispina, Petronella, Leta, Sofia, a diaconisa, e muitas outras.[4]

Contudo, isso não significa que elas não estejam lá... Muito menos que devemos continuar desprezando-as. Em inglês nós temos dezenas de obras que falam acerca dessas mulheres. Elas deixaram contribuições sociais e teológicas nas mais diversas áreas, seja como pregadoras, filósofas, mártires, virgens, mães ou poetisas. [5]

Exemplos:[6]

Macrina, a jovem (327- 380 d.C). Foi a irmã mais velha de Basílio, o grande e Gregório de Nissa. Por ser uma mulher de caráter, exerceu uma grande influência sobre seus irmãos. A principal fonte de conhecimento sobre sua vida é a obra: "Macrina Junioris" de Gregório de Nissa. Ele também atestou uma competência como teóloga na obra: "De Anima et Resurrectione". Ela aparece nessa obra como sendo uma Mestra que expunha com argumentos racionais, a doutrina cristã.[7] Ela é considerada uma joia da biografia cristã do século IV.

Marcela (325-410 d. C). Foi uma cristã romana de grande habilidade intelectual. Capaz de conversar com qualquer um sobre qualquer assunto. "Jerônimo louva tanto sua devoção a Cristo como sua mente ativa e inquiridora." (Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja, p. 54)

Paula (347-404 d. C). Uma cristã que pertenceu à nobreza italiana. Responsável pela construção de várias igrejas, um hospital e alguns mosteiros, da qual era foi a primeira abadessa de um deles. Ela foi a figura feminina mais próxima de Jerônimo. [8]

Jerônimo dá testemunho acerca dela, cujo trecho é digno de ser reproduzido aqui. Ele diz:

"Ela memorizou a Escritura. [...] Insistiu comigo que, junto filha, poderia ler todo o Antigo e NovoTestamento. [...] Se em alguma passagem eu ficava confuso e confessava francamente que ignorava o sentido, ela não se contentava com minha resposta de forma alguma, mas por meio de novas perguntas, forçava-me a dizer quais dos muitos significados possíveis pareciam mais prováveis para mim.’’[9]

Melânia, a presbítera e a diaconisa Olímpia são dois outros exemplos de mulheres inteligentes, eruditas e piedosas. Melânia, por exemplo, "passava noite e dia percorrendo todos os escritos dos comentadores antigos, três milhões de linhas de Orígenes, e duzentas e cinquenta mil linhas de Gregório, Estêvão I, Pierius, Basílio e outros homens excelentes.' De fato, Paládio observa que Melânia lia cada obra 'sete ou oito vezes."[10]

Obras Citadas

CLEMENTE [Et. al]. Pais apostólicos. São Paulo: Mundo Cristão, 2017.
HALL, Christopher A. Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja. Viçosa: Ultimato, 2000.
HAYKIN, Michael A.G. Redescobrindo os Pais da Igreja. São Paulo: Fiel, 2012.
LITFIN, Bryan M. Conhecendo os Pais da Igreja . São Paulo: Vida Nova, 2015.





[1] A lista original pode ser consultada em: http://www.clerus.org/clerus/dati/2007-11/23-13/PadresIgreja.html. Texto com algumas adaptações.  Acessada, dia 24/07/2019 às 23:22.

[2][2] Conhecendo os pais da igreja, p. 20

[3] O renomado autor e especialista em patrística Mike Aquilina escreveu um livro, coescrito com Christopher Bailey, cujo título é: ''The Mothers of the Church: The Witness of Early Christian Women (Huntington: Our Sunday Visitor, 2012).'' O Mike Aquilina já escreveu sobre o testemunho das primeiras mulheres cristãs como: Blandina, Perpétua, Felicidade, Helena, Thecla, Inês de Roma, Macrina, Proba (a viúva), Marcela, Paula, Mônica, etc.

[4] Dois livros que documentam bem sobre elas são: "Crispina and Her Sisters" de Christine Schenk. Também temos: Christian Women in the Patristic World de Lynn H. Cohick; Amy Brown Hughes.

[5] Por exemplo, na obra Matrology, o erudito Andrew Kadel monta uma bibliografia das mães que viveram antes do século XV. Em cada trecho, ele faz uma breve descrição do escritor. É uma tentativa de listar todas as mulheres cristãs que escreveram antes de 1500, organizadas mais ou menos em ordem cronológica. 

[7] Livros sobre ela: ''The Life of Macrina by Gregory of Nyssa; Kevin Corrigan (Translator) Macrina the Younger, Philosopher of God by Anna M. Silvas; Gregory.

[8]  Lendo as Escrituras com os pais da igreja, p. 54.

[9] Lendo as Escrituras com os pais da igreja, p. 55.         

[10] Lendo as Escrituras com os pais da igreja, p. 55

22 de junho de 2019

Afinal de contas, quantos livros os pais da igreja escreveram?



Por Everton Edvaldo

Quem de nós nunca sonhou em ter a coleção completa de 44 volumes da Paulus sobre a Patrística? Pra quem não sabe, a Patrística foi um grande período da história da igreja, em que os pais ou padres da igreja, consolidaram muitas das doutrinas cristãs que temos hoje. Eles fizeram parte da igreja primitiva e deixaram para nós um vasto material escrito, tratando sobre diversos assuntos e corrigindo dezenas de erros. Às vezes, errando, às vezes acertando, a Patrística é digna de ser estudada. Porém, conhecer seus escritos é um grande desafio.

O primeiro é o da tradução. Das centenas de volumes que existem, apenas poucas dezenas foram traduzidas para a língua portuguesa. O segundo é o da linguagem. Os patrísticos são exaustivos e possuem uma linguagem bem peculiar. Lê-los na maioria das vezes é maçante, cansativo e desmotivador para um público que não tem o hábito da leitura.

A coleção mais completa que temos em nosso país, é a da Editora Paulus. São 44 volumes bem resumidos e trazem alguns escritos de pais como Orígenes, Agostinho de Hipona, Leão Magno, Ambrósio, João Crisóstomo, Irineu de Lyon, Justino de Roma, Hilário de Poitiers, Gregório de Nissa, Gregório Magno, Eusébio de Cesaréia, Cipriano de Cartago, Ambrósio de Milão, entre outros. Ela custa atualmente: 3.320,00 R$.

Porém, o catálogo da Patrística é muito maior que isso.

Para você ter ideia, entre 1844 e 1864, um abade e padre francês chamado Jacques Paul Migne, publicou a coleção de Patrologia Latina. Ela é a maior e mais exaustiva coleção já publicada dos escritos existentes dos pais e doutores latinos da igreja primitiva e medieval. Ela cobre um período de tempo de Tertuliano (200 d.C) e vai até o Papa Inocêncio III em 1216. No total, são 221 volumes e cerca de 150.000 páginas escritas em latim.

Porém, não para por aí...

Entre 1857 e 1866, J.P. Migne também lançou a maior coleção já publicada dos escritos existentes dos pais e doutores gregos da igreja primitiva e medieval. Com a coleção da Patrologia Grega, nós podemos ter acesso aos escritos dos pais capadócios cujos trabalhos foram tão importantes para a formulação precisa da doutrina da Trindade contra o Sabelianismo por um lado, e o triteismo, por outro. São 161 volumes e 110.000 páginas.

Em 1886, o professor Rene Graffin embarcou na grandiosa tarefa de compilar os escritos dos pais que não foram incluídos nas obras monumentais de J.P. Migne. Ela resultou na coleção de Patrologia Siríaca e Oriental. São escritos dos pais da igreja em árabe, armênio, copta, etíope, grego, georgiano, eslavo e siríaco. Nela, há escritos teológicos, cartas e homilias dos primeiros pais orientais. Ela nos revela qual era o pensamento deles sobre as Escrituras, as doutrinas cristãs e as heresias que os assolavam. São 17 volumes e um total de 12.725 páginas.

Ainda hoje, várias outras obras dos pais da igreja estão sendo publicadas de forma independente. O trabalho não para. Além disso, se sabe que o possui um acervo gigantesco de obras da Patrística que poucas pessoas ou quase ninguém tem acesso. Muitas dessas obras, nós talvez nunca conheçamos. Sem contar naqueles que se perderam ao longo dos anos e que nunca teremos a oportunidade de ler. Sem dúvida, o período da Patrística foi riquíssimo em produção teológica e abastado de muito conhecimento.

No final das contas, nunca saberemos ao certo quanto livros a Patrística possui, mas é certo que ela foi incomparável e singular.

13 de junho de 2019

Precisamos falar sobre os Neoreformados!


Por Everton Edvaldo

Chamo de Neoreformados, a geração de novos adeptos da reforma nos dias de hoje. Quem são? Onde estão? Quais são suas características? Eles estão trazendo alguma contribuição para o evangelicalismo no Brasil? Nesse breve texto vamos fazer um pequeno mapeamento desse novo movimento. 

Pois bem... Todos nós sabemos que o cristianismo no Brasil tem se tornado cada vez mais distante daquele bíblico, e isso faz com que vários cristãos despertem para lutar contra isso e defender a fé bíblica.

Na ânsia de voltar às origens, alguns acabam conhecendo a teologia reformada. Graças a ela, no passado, muitas plataformas e ferramentas foram extraídas das Escrituras para prevenir, tratar e combater os excessos da fé cristã. Mas a Reforma Protestante foi um Movimento Singular na história e ao mesmo tempo inacabado. 

O lema: "igreja reformada continuamente se reformando" não acompanhou o crescimento dos protestantes no mundo, fazendo com que as novas demandas e desafios se tornassem cada vez maiores.

Em razão disso, um grupo de pessoas cresce assustadoramente todos os anos e tenta retornar aos marcos antigos. São intitulados de "Neoreformados" porque derivam do novo Movimento Reformado, dizem eles. 

Esses, (não todos) são bastante diferente da geração reformada do passado. Nesse breve texto, eu vou fazer um contraste entre ambos. Pois bem, qual seria a diferença entre eles?

A começar, os antigos reformados evangelizavam, a criavam juntas de missões, investiam dinheiro e capacitavam pessoas para ganhar almas para Cristo. Pessoas como Whitfield, Spurgeon e Calvino são claros exemplos disso.

Os Neoreformados não gostam de evangelizar. Eles criticam todos os métodos de evangelismo que existem e não investem em missões.

Segundo, os antigos reformadores apesar de ter uma dada aversão à manifestações sobrenaturais em seus escritos, viviam experiências extraordinárias com Deus e na igreja. 

Já os novos reformados são cessacionistas radicais, militam contra as manifestações espirituais e ridicularizam as igrejas que acreditam nos dons. 

Os antigos reformados tinham uma vida de oração de admirar. Os novos, não oram muito e passam o dia todo na internet murmurando.

Os antigos reformados estudavam um pouco de tudo, os novos só estudam teologia reformada e olhe lá...

Os antigos davam respostas aos dilemas do seu tempo. Os novos insistem em dar resoluções para dilemas do passado enquanto que polemizam as novas demandas.

Os velhos produziam teologia. Os novos repetem o que os outros disseram e não são originais/autênticos.

Os antigos se preocupavam em ajudar seus líderes. Os novos mal aparecem na igreja e dão problemas aos seus pastores.

Os antigos desejavam se assemelhar à imagem de Cristo, os novos gostam de ficar parecidos com a aparência física dos antigos reformadores. Usam barba grande, colocam a foto de João Calvino no perfil do Facebook e usam sobrenomes nas redes sociais como: Funalo Monergista, Ciclano Calvinista, Beltrano Reformado.

Bem... Lamentavelmente é isso que o Movimento de Neoreformados está se tornando. De qualquer forma, eu gostaria de falar que ainda há um remanescente. Eu não sou louco de generalizar e dizer que todos eles estão andando por esse caminho.

Porém, a verdade é que de modo geral, os Neoreformados tem uma motivação certa e justa, contudo, sua conduta é extremista, fundamentalista e às vezes, beira ao sectarismo. 

Meu desejo é que essa geração de novos reformados sejam autênticos, originais, atentos às demandas do seu tempo, verdadeiros estudantes das Escrituras e acima tudo, que sejam servos de Deus.

11 de junho de 2019

O que eu tenho contra a Pregação Expositiva?




Por Everton Edvaldo

Em razão da polêmica sobre meu primeiro texto (Pentecostais, cuidado com o culto à  Pregação Expositiva), resolvi escrever outro texto a fim de esclarecer algumas coisas. Muitas pessoas não leram o primeiro texto e já teceram vários comentários discordando de algo que não leram. Eu não tenho problemas com quem discorda de mim, eu só não acho justo alguém discordar de algo que não leu. Eu costumo falar que as criticas sempre são bem-vindas, pois, é com elas que evoluo e me motivo a buscar mais informações e conhecimento.

Bem, eu acredito que muitas pessoas tenham entendido de forma errada meu primeiro texto por causa do título. Porém, o título em si é apenas uma “provocação teológica” (entenda provocação no bom sentido) para que as pessoas pensem e reflitam no que foi dito. Então espero que nesse segundo texto, as coisas fiquem mais claras. Vamos lá?

Então... Afinal, o que eu tenho contra a pregação expositiva? Nada propriamente dito, mas eu tenho algumas observações a fazer sobre seu uso nos púlpitos. 

Em primeiro lugar, em nenhum momento eu critico o uso da Pregação Expositiva nos púlpitos pentecostais. Eu sou a favor, aliás eu sou a favor do uso de todos os estilos e tipos de pregação. O que eu critico é o engessamento que já notório em alguns círculos de pregadores pentecostais que cansados de ouvir pregadores sem mensagem e que espiritualizam tudo, acabam indo para o outro extremo: agora só querem pregar expositivamente, como se isso fosse algo canônico. É como se o remédio para as pregações triunfalistas, alegóricas, místicas, espiritualistas, de auto-ajuda e coach, fosse somente a pregação expositiva, quando na verdade, é possível pregar bem e biblicamente com outros estilos de pregação.

Outra coisa que critico é a centralização, supervalorização  e exagero no uso da pregação expositiva, enquanto que outras plataformas são desprezadas e têm seu valor e papel diminuídos. 

Há quem diga que essa minha preocupação é desnecessária, pois a pregação expositiva é eficaz de qualquer forma. Isto é, tais pessoas imaginam que mesmo que haja um engessamento, qualquer pregação expositiva é melhor que as pregações bizarras que ouvimos nos púlpitos assembleanos. Porém, eu digo que essa preocupação é necessária sim! Nós Pentecostais já temos problemas demais para resolver e não se pode resolver um extremo com outro, sem falar que prevenir é melhor do remediar. Quem disser que qualquer pregação expositiva é melhor que as pregações bizarras não discerniu que não é a coisa em si que é eficaz, mas o uso que se faz dela. Isto é, uma pregação expositiva pode ser um verdadeiro fracasso se for mal feita e pode até esvaziar uma igreja (em todos os sentidos). E no lugar de ser algo prazeroso de ouvir e divinamente comunicativo, acaba sendo cansativo, rotineiro e forçado. 

Um caminho mais sábio seria pregar de acordo com a natureza das passagens bíblicas. Há textos na Bíblia que só podem ser bem comunicados se forem pregados de forma expositiva, porém, há textos que apelam ´para outros métodos e isso sim é quem determinará se será o método mais eficaz naquele momento ou não.

Quem diz que a pregação expositiva é o melhor método, precisa levar em consideração não apenas essas coisas que disse acima mas  também o momento pós-pregação. O momento pós-pregação nos permitirá fazer uma breve avaliação sobre o que a gente pode melhorar na próxima pregação e se a escolha daquele tipo de sermão foi mesmo eficaz. Bem, se houve comunicação entre a Palavra de Deus e o Seu povo, já temos meio caminho andado. As demais coisas que acontecerem no culto são apenas consequências de como o povo de Deus recebeu essa Palavra. Tendo essas coisas em mente, haverá momentos que a pregação temática, textual ou qualquer outra será mais eficaz que a expositiva, e nós devemos nos alegrar nisso, pois não é um método que opera, mas o Espírito Santo de Deus através da Sua Palavra. Ou seja, desde que seja bíblica e cristocêntrica, Deus pode operar eficazmente da mesma forma, intensidade e proporção nos mais diversos métodos. 

Alguns reformados tem feito da pregação expositiva um bezerro de ouro, e nós Pentecostais não podemos cair no mesmo erro, pois mesmo sendo um método bastante eficaz de modo geral, a pregação expositiva por não ser canônica, é uma plataforma humana, possuindo com isso uma série de limitações. Por exemplo, a Europa foi saturada durante vários anos pela pregação expositiva e hoje está morta espiritualmente. É verdade que não foi ela quem matou a Europa, porém, no mínimo, ela foi insuficiente para salvar aquele continente do liberalismo teológico. Isto é, a conta chegou para os reformados, contudo, a pregação expositiva, não foi suficiente para pagá-la. Ou seja, você consegue entender que até mesmo a pregação expositiva possui limitações? E é natural que haja isso, pois ela é um método humano.

Enquanto isso, nós Pentecostais estamos há décadas avançando com as missões pelo mundo,  pregando de forma expositiva, textual e temática, ganhando milhares de almas para Cristo todos os anos. Acredito que isso represente bem a liberdade do Espirito Santo em nosso meio. Ele é livre e não está preso a métodos humanos. À essa altura do campeonato, cair no mesmo erro dos reformados, talvez seria um retrocesso.

Por fim, existe algo  muito mais importante que o tipo do sermão,  que é a vida do pregador. Esta, deve ser um sermão vivo e móvel de Deus sobre esta terra. Um pregador que tem vida com Deus, rega seu sermão com lágrimas, fogo do Espírito Santo e gotas do sangue de Jesus.

Que Deus abençoe a vida de vocês!