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27 de setembro de 2018

Entrevista Exclusiva com o Pastor Linaldo Junior.



A nossa Entrevista hoje é com o Pastor, Professor e Capelão, Linaldo Junior. Ele é Pastor, Capelão, Professor e Escritor. Pastoreia a Igreja Batista Missionária em Dois Irmãos e Peixinhos. No IALTH é Capelão, Professor e Coordenador. É casado com a Pedagoga Waldyelayne Oliveira. É da COBAM (Convenção Batista Missionária), e membro da ORPABAM (Ordem dos Pastores Batistas Missionários).


01) Com a explosão do Movimento Pentecostal, criou-se uma visão popular de que as igrejas históricas “ficaram para trás”, pois no começo, ela não viu com bons olhos as manifestações espirituais. Contudo, alguns anos depois, algumas igrejas históricas passaram por uma renovação espiritual. Como pastor batista, poderia nos explicar como é atualmente o relacionamento dos batistas com a questão dos dons espirituais?


 Em linhas diretivas gerais, os Batistas que aderiram ao conhecido “Movimento de Renovação Espiritual”, que iniciou nos anos 60 do século passado, além de ser continuístas, têm visto a própria questão do uso dos dons espirituais com mais maturidade e elaboração teológica, e buscando assim fazer uma dieta nos exageros de outrora e atuais.

O grande problema é que paralelamente a isso, o cessacionismo tem adentrado com a mesma “força”, por vezes de forma patente, e em outros nichos de forma latente e sutil. E isto pelo fato de que ao invés de se tratar os exageros e ênfases erradas quanto aos dons espirituais, como Paulo faz em I Coríntios 12, 13 e 14, muitos estão a absolutizar os equívocos e extremismos, achando assim que o falso pode tirar o valor do verdadeiro.

Sendo assim, temos Batistas equilibrados, os que apenas “tradicionalmente” acreditam nos dons, mas que na práxis negam isso, e até há aqueles que pertencem a núcleos que na teoria seria a antítese do continuísmo, mas hoje tratam os dons como deveria sempre ser: com naturalidade e, em dependência sincera do Espírito que distribui os dons como quer, como Paulo trabalha amplamente de forma direta e indireta em Efésios, por exemplo.

Isto tudo posto, entendo que nós Batistas Renovados/Carismáticos, precisamos de uma renovação espiritual urgentemente, para que coletivamente não engessemos o que foi espontâneo e sincero, fruto de um avivamento pontual de Deus em nosso contexto eclesial. Na minha denominação, a COBAM (Convenção Batista Missionária), esta tem sido uma preocupação: com bom siso, resgatar uma fé equilibrada sobre isso. Enéas Toginini, Rosivaldo de Araújo, José do Rêgo, e outros nomes expoentes deste movimento, certamente desejavam tal lucidez no início desta santa obra do Espírito.


02) O senhor leciona a disciplina de “Teologia Ministerial”, um assunto que não é tão bem trabalhado em alguns seminários do Brasil.  Muitos acreditam que a teologia ministerial é apenas para aqueles que desejam se tornar pastores. Como o senhor define “Teologia Ministerial” e qual a sua importância para um estudante de teologia?


Infelizmente de forma subjetiva, se acha vulgarmente que esta disciplina, como a do Aconselhamento Bíblico e similares, é estritamente poiêmica, e assim se cria uma romanização na prática evangelical, contrário ao próprio conceito do sacerdócio universal, tão bem trabalhado, por exemplo, por Lutero. Evidentemente que há certos exercícios que cabem apenas ao Pastor Regente. Mas isso precisa ser bem delimitado e trabalhado, como temos feito.

No IALTH, aonde sou Capelão e Docente, temos esta disciplina de forma bem definida, e inclusive aplico tal a partir de uma macro exposição bíblica holística, em uma pedagogia de vanguarda neste sentido. A partir disto, entendemos que, Teologia Ministerial é uma disciplina diretiva e imperativa, que trabalha os aspectos práticos, teológicos e vivenciais do crente em todos os âmbitos de sua vida.

O seu conceito é: para que serve na prática a teologia e as doutrinas bíblicas? Qual a forma correta do exercício pastoral e dos outros ministérios? Como demonstrarei a minha fé através das atitudes? Por isso, em tal trabalho é feito desde assuntos teológicos e até de cunho mais acadêmico, como questões relativizadas nos Seminários em geral, mas extremamente importantes como: vida familiar e social, devocional, além de aspectos como bom senso, sabedoria, ética cristã, etc.

Além de que, trazemos experiências ministeriais diversas e adversas, para compartilharmos tais com os alunos. Outrora eu desprezei esta disciplina (em minha primeira graduação), mas ao ser ordenado ao pastorado, logo discerni a sua importância e graças a Deus, isto tudo contribuiu para que hoje eu seja um fervoroso docente e defensor dela. Em minha Igreja e congregação, e por onde ministro a Palavra, tenho usado amplamente os imperativos da chamada Teologia Ministerial.


03) Há anos exercendo a atividade de Capelão, sabemos que esta é uma tarefa árdua e laboriosa.  Quais são os principais desafios de ser capelão e qual seria uma ferramenta ou característica indispensável que o capelão deve possuir?

É um privilégio ser um Capelão, e no meu caso, exercer tal também pelos diretivos da Capelania Empresarial e Eclesiástica. Agora se exercida de forma sofisticada e coerente, esta função é recheada de uma espécie de “coletiva solidão”. Ou seja, você lida com muitas pessoas, mas ao mesmo tempo você terá que ser solitário, tanto por aspectos como no que diz respeito a se guardar certos sigilos, quanto de que seu labor será não compreendido amplamente e por ser mais nos e dos bastidores, não reconhecido massivamente.

O Capelão é uma figura invisível, embora imprescindível. A Capelania faz trabalhos espetaculares, para que outros venham a ter os seus caminhos facilitados. Ser um conselheiro bíblico, é ser visto por vezes como alguém maravilhoso, mas ter que lidar com distorcidas e míopes “visões” de alguns, que o coloca ao mesmo tempo como intransigente e áspero, afinal, nossa missão e compromisso é exclusivamente com a verdade, e isso pode incomodar a alguns.

Sendo assim, enfatizo as três características iniciais que é indispensável para que o capelão tenha:

1. Ele deve ser muito bem preparado em diversos aspectos (tanto academicamente, como também nas esferas psicológicas e espirituais), para que saiba lidar com muitos desafios, como por exemplo, a tensão entre ser agradável, mas não perder a veracidade. Precisamos ser sinceros, sem cometer “sincericídios”. E é muito fácil ser amado por todos e sugestionar as pessoas nesta direção, mas isso não é ético, pois o Capelão deve cumprir o seu papel com amor, mas sem máscaras e artificialidades;

2. Deve ter muito discernimento espiritual para lidar com as mutações, hibridizações, e diversas e adversas problemáticas de nosso tempo, tendo a Palavra de Deus como a única regra de fé e prática, nesta geração relativista e que nem mesmo conhece o básico das Escrituras.

3. O papel do capelão é sempre atingir o bem maior e seu foco não está nos resultados em si, mas em ter sido o instrumento da vontade de Deus aonde ele trabalha, quer ouçam quer deixem de o ouvir. Neste sentido, o mais importante não são os resultados, mas os frutos e assim não apenas carregarmos a bíblia, mas sermos instrumentos carregados pela Palavra.

É por isso que temos poucos capelães realmente preparados, até pelo fato de que ninguém é capelão com cursos de um dia, e digo isto, visto estarmos a ver uma espécie de “simonia” moderna neste sentido. Existem diversas Capelanias: Empresarial, Hospitalar (geral e avançada), Eclesiástica, Esportiva, Escolar, Infantil, Carcerária, Infantil, Poiêmica, etc. Ou seja, não temos apenas um universo da capelania, mas um multiverso nela e dela.


04) O senhor já afirmou que teve sua Cristologia influenciada por Edgar Young Mullins, principalmente por ele defender Cristo como chave hermenêutica das Escrituras, além de Walter Kaiser Jr, em sua ênfase de entender a revelação de Deus na história como progressiva. Poderia explicar para o leitor o que é tais e porque o senhor acredita no nisso?

Jesus é o todo no tudo. Ele é o Senhor sobre tudo e todos. Ele é o caminho, a verdade, e a vida. Ninguém irá aceitar e entender o propósito das Escrituras, se não creditar que Ele é o verbo que se fez carne e o que revela a Palavra. O “mostra-nos o Pai, e isto nos basta”, ainda tem sido uma indagação do farisaísmo religioso hodierno. Regras hermenêuticas e a exegese bíblica, são fundamentais para se entender os cenários amplos da Bíblia e contextos doutrinários. Jesus, porém, é o que nos explica o propósito e a razão de tudo, inclusive da nossa fé. Edgard Young Mullins, foi uma grande Pastor Batista, que brilhantemente desenvolveu ainda no século 19, isto.

Precisamos também entender e aceitar pela fé, que a revelação de Deus na história se dá progressivamente, como bem trabalha o Walter Kayser Jr, por exemplo. No Antigo testamento, víamos a promessa do Cristo que viria. No Novo testamento, do Cristo que foi encarnado. Agora em nosso tempo, acrescido na fé do Cristo que voltará. E tudo isso pelo fato de que a obra da cruz é o ápice  máximo de tudo, inclusive da revelação bíblica.

Infelizmente, se conhece muito da crucificação (a história, cenário e pano de fundo), e pouco da obra da cruz (seu macro propósito). E por tais razões não se crê mais na justificação pela fé, no extraordinário amor de Deus, e na sua inexorável graça. Ou no máximo se aceita isso, apenas conceitualmente, e não em “espírito e em verdade”. Daí termos tantas poucas mensagens sobre a cruz, arrependimento, regeneração, céu e inferno, etc., por exemplo.


05) Falando sobre a reforma protestante, infelizmente alguns reformados dão uma atenção e espaço exacerbado ao teólogo João Calvino. Há quem diga que ele foi o “maior teólogo de todos os tempos.” Outros, o intitulam como o teólogo do Espírito Santo. Bem sabemos que Calvino contribuiu e influenciou grandemente o seu tempo, mas na sua perspectiva, é justo colocá-lo num patamar tão alto? O que há por trás disso?

Primeiro, esta minha resposta vale também aos que fazem de Armínio ou de qualquer homem de Deus um absoluto. Todo homem é relativo (mentiroso), e só Deus é absolutamente pleno (verdadeiro). Isto enfatizado, eu na verdade tenho muita vontade de rir ao saber que tem quem eleve Calvino, ou qualquer ente não canônico e que não foi assim inspirado por Deus, a um patamar tão elevado.

É uma enorme incoerência dizer que depois do cânon fechado, todos são apenas iluminados pelo Espírito Santo, mas ao mesmo tempo colocar alguém, no mesmo nível dos Apóstolos, por exemplo. Para mim, se isso fosse uma questão realmente a ser tratada, o maior nisto foi o Apóstolo Paulo (em certo sentido). E na frente de Calvino ainda tem: Tiago, Pedro, João, etc. Qualquer coisa a mais que isso, é uma espécie de “romanização do protestantismo” e paganizar os próprios conceitos da Reforma.

Ele também não foi o teólogo do Espírito Santo em hipótese alguma, se nesta afirmativa houver um desejo de colocá-lo “acima da média”, e em um status quo de maior autoridade. Até pelo fato de suas ênfases e trabalho ter sido claramente em outra direção existencial, inclusive nos seus aplicativos doutrinários; além de que quando conhecemos as questões políticas e reais por detrás da própria Reforma, vemos que as questões prioritárias eram outras.

O que está por detrás disso, do eleger homens a tais níveis, são peculiares projeções psíquicas e latentes angustias de sentimentos de culpa e neuroses não resolvidas, que produz este culto a homens. E na verdade, até mesmo os canônicos não devem receber este “amor pueril”, que faz da teologia uma espécie de HQ espiritual, ou de um conto do nível branca de neve e seus sete anões. Dizer que Calvino, Lutero, Armínio, Fulano ou Sicrano, é o “Teólogo do Espírito Santo”, é encarar a realidade como uma obra ficcional, do tipo DC Comics, Marvel, Disney, etc.

06) O senhor compactua com a ideia de que “precisamos de uma nova Reforma Protestante”?

Somente no sentido de que necessitamos de mudanças urgentes e cruciais no atual contexto evangelical. Agora, no que comumente se entende quando se faz afirmativas assim, não compactuo com este tipo de “projeção psíquica latente”. Primeiro, reformar o quê? Segundo, pense bem: será que de forma substanciosa, a reforma protestante realmente chegou no Brasil, em seu “espírito” e ímpeto? Precisamos ir além de uma “Reforma”.

Sou um defensor e proclamador dela, temos que admitir  que a Reforma Protestante foi muito importante, mas não é uma espécie de “segunda vinda do evangelho”. Ela teve suas contribuições, e houve nela a ação soberana de Deus, mas também em tal há limites, extrapolações, questões humanas e políticas nos bastidores, e como qualquer movimento, por mais sincero que seja, teve seu lugar para aquele tempo e contexto.

Hoje, precisamos de algo muito mais amplificado, acentuado, diretivo, imperativo e holístico. O que ocorreu na alta idade média, passou. O que precisamos é primeiramente retornar ao que era a ideia dos próprios reformadores: abraçar ao evangelho. Aliás, aonde ficou o conceito dos próprios reformadores: “Igreja Reformada, sempre se Reformando?”. Ao meu ver, hoje é apenas estética e cosmética as ideações nesta direção. Ser “reformado” é para muitos deixar a barba crescer, cantar só determinados tipos de músicas, ter certas liturgias e carregar as Institutas. Ou seja, é só mudanças de embalagem e alquimias religiosas.

07) Como o senhor descreveria o cenário atual da igreja brasileira? O que podemos melhorar?

Sendo bem sintético, em todos os sentidos, estamos no pior momento da sua historicidade. De coisas mínimas, como se conhecer realmente a Palavra, até sobre as questões mais complexas, como dos múltiplos discernimentos que devemos ter, se percebe o quão retrógrado tem sido a fé dos evangélicos hoje. Aliás, estamos em um momento aonde temos que evangelizar os crentes, e perceber que infelizmente, coisas medievalistas e jurássicas, como formula batismal, predestinação x livre arbítrio, etc., ainda é objeto de embates, brigas, dissensões e celeumas. 

08) Quais são as ferramentas essenciais que o estudante de teologia não pode abrir mão?

Acima de tudo, uma vida devocional sincera e ampla, e um enorme desejo e vigor de estudar e academicamente crescer (com sinceridade e conversão plena). Precisamos também de teólogos que desejem fazer teologia de fato, e ter respostas coerentes para as demandas do nosso tempo, ao invés de, por exemplo, viver com  a mente na idade média, ao invés de entender o que devemos saber e ter, na atual “idade da mídia”, e de diversas e adversas mudanças e nuances. Isto, sem falarmos de questões como as da Mecânica Quântica, ao qual ainda não temos massivamente um diálogo lúcido, e uma apologética autoral para responder como convém, aos “multiversos” de perguntas que vão crescer a cada dia mais nesta e em outras direções.

09) Essa semana, lamentavelmente mais um pastor se suicidou nos Estados Unidos. Isso tem sido constante ao longo dos anos. De que forma nós podemos identificar potenciais suicidas? Como podemos ajuda-los?


Este é um assunto muito longo, e que de fato é emergente e emergencial. Há formas diversas de fazermos trabalhos preventivos e diretivos nesta direção, mas o passo inicial é se entender a seguinte questão: o que fazer mediante a esta infeliz realidade? Como podemos teologicamente e biblicamente sermos uma luz neste assunto?

Ao se identificar um potencial suicida, e quaisquer características de ideação suicida, a ajuda de um profissional adequado tem de ser fornecido a tal. Nossas igrejas precisam trabalhar eticamente e biblicamente esta problemática. Necessitamos de ajudar os nossos jovens, indo nas causas que levam alguém a prática do suicídio (a questão da depressão, inclusive infantil, é grave).

Além de que, informações simples, como o fato de que a maioria dos suicídios ocorrem ou na fase do inicio da juventude, ou entre idosos, já nos revela que, por exemplo, este publico precisa ser tratado e trabalhado objetivamente, e assim nestas faixas etárias, é necessário um intensivo preventivo. Isto também considerando que há uma sutil diferença hoje entre Idade Biológica e Idade Funcional.


10) Quais tipos de “teologias” estão prejudicando o cristianismo aqui no Brasil?

Eu destaco duas: O neo-pentecostalismo e seu cosmético “oposto”, mas maldoso também, do qual chamamos de hiper-calvinismo e até do hiper-arminianismo. São extremos opostos, com embalagens diferentes, mas com as mesmas latências, e motivações.

Temos que entender que, é possível termos conceitos certos, mas não uma bíblica e real fé realmente naquilo que se proclama. Além de que, heresias como aquelas que fatalizam tudo, mostrando por exemplo, que se alguém pecou foi pelo fato de Deus ter ordenado isso, mostra a utilização de pressupostos teológicos, para transferir as próprias culpas e responsabilidades para o próprio Deus, o que gera mais culpa e neurose ainda mais nos indivíduos.

Me lembro, que ouvi de um professor em sala de aula que todo arminiano não é salvo! "Oxe... Como assim'', pensei eu! O pior é que o que está por detrás deste “arianismo teológico”, é gravíssimo. No final, estamos vendo o resultado: um cristianismo sem Cristo, evangélicos sem evangelho, protestantes que se calam no que realmente é sério e patente e crentes que carregam a Bíblia, mas que não conhecem de fato quem é Deus.

30 de julho de 2018

Entrevista exclusiva com o Pastor Artur Eduardo




Por Everton Edvaldo

A nossa entrevista hoje é com o Pastor Artur Eduardo. Graduado em Teologia e Filosofia. Pós graduado em Doc. do Ensino Superior, Teologia Bíblica e Psicopedagogia (FATIN). Mestre em Filosofia (Univ. Federal de Pernambuco). Doutorando em Filosofia (Univ. Federal de Pernambuco). Diretor do IALTH (Inst. Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades). Pastor da IEVCA (Igreja Ev. Aliança). Casado com Patrícia, com quem tem uma filha, Daniella.


01) Pastor Artur, ao longo dos anos, o senhor tem batalhado para levar a qualidade do ensino bíblico para diversas classes de pessoas, mas conte-nos, como foi a sua experiência com a Bíblia. Quando começou o interesse pelo estudo das Escrituras e o que levou o senhor, a investir na área da educação cristã?

R – O interesse, na verdade, vem desde que eu me lembro de quando sou convertido à fé cristã. Tornei-me professor de formação teológica em 1998, cerca de 2 anos antes de me tornar pastor, no ano 2000. Depois de lecionar em alguns seminários e faculdades no Grande Recife, o Senhor Deus nos orientou a fundar o IALTH – Instituto Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades, que tem crescido e se fortalecido na região. No IALTH temos podido implementar melhor nossa visão acerca da educação teológica, filosófica e das humanidades, aliando o viés ministerial ao acadêmico.

02) Há mais de 20 anos, o senhor tem lidado com milhares de alunos, das mais variadas igrejas e crenças, de modo que acumulou ao longo dos anos, um vasto conhecimento sobre o perfil geral dos alunos. Sendo assim, nos responda: quais os perfis, motivações e expectativas dos alunos que entram num Seminário hoje?

R – É muito diferente, hoje, de há 20, 30 anos. Lembro-me que quando fiz seminário, na década de 90, a quase totalidade dos alunos era composta de pessoas com ciência de uma vocação ministerial. Eram menos cursos: havia o de bacharel em teologia, o de missiologia e o de educação religiosa. Normalmente, eram esses três nos seminários. As pessoas que estudavam, tinham aspirações eclesiais em áreas nas quais era exigida a formação em um dos tais. Hoje, vemos alunos destes e de outros cursos que surgiram ao longo dos anos, que estão fazendo para aumentarem conhecimento, por uma questão de complementação de formação. Há os que também fazem por vocação ministerial, mas posso lhe assegurar que são bem menos do que há anos. O perfil do aluno de teologia, de um modo geral, mudou. 

03) Todos nós sabemos que cada momento da história da igreja, teve seus próprios desafios tanto no âmbito intra-eclesiástico quanto no extra-eclesiástico. Desafios, que por vezes, tiraram o sossego de muitos homens de Deus. Que tipo de desafios, um teólogo do século XXI enfrenta, e de que forma, ele pode lidar com eles.

R – Muitos. Temos “teologias”, se é que podemos chamá-las assim, que são verdadeiros desafios à fé cristã conservadora e à teologia ortodoxa. Temos “teologias feminista, negra, gay”, as muitas formas de “evangelho social” (esquerdismo evangélico) e outros movimentos supostamente acadêmicos, no âmbito eclesiástico, cujo intento principal não é outro senão seu próprio nicho ideológico. Concomitantemente, temos observado uma grande apatia em relação à massa da Igreja, quanto à teologia. As pessoas acham “bonito” esse ou aquele aspecto teológico, mas a tendência é não se interessarem seriamente por questões teológicas, preocupando-se, no mais das vezes, com aspectos mais triviais da fé. Isto é muito ruim, porque as principais doutrinas não são bem compreendidas pela grande maioria dos cristãos, hoje, que tende por conseguinte a viver uma vida espiritual puramente intuitiva, baseada naquilo que se consolida em sua experiência de fé e espiritualidade, confundindo isso com o cristianismo e a própria vontade de Deus. De igual forma, temos também uma crescente tensão entre aspectos dogmáticos da fé cristã que se opõem em confrontos, ora velados, ora mais abertos. Isso mostra que estamos longe de termos uma unidade teológica, porque lá atrás no tempo, as fissuras que resultariam nos movimentos eclesiais que vemos hoje não foram fechadas, pelo contrário, foram abertas, expostas e muito malcuidadas pela Igreja. O resultado são alas do evangelicalismo mundial disputando entre si o status de “ortodoxo”, às vezes mais baseadas em ícones de seus próprios movimentos do que na fé bíblica que alegam defender.

04) Atuando também na área da Filosofia, certamente o senhor já ouviu dizer que "um teólogo não precisa ter um conhecimento de Filosofia para ser um bom teólogo." Isso é verdade ou uma falácia? Qual a importância da Filosofia para os estudos teológicos e em que momento, ela anda junto com as principais disciplinas de um estudante de Teologia?

R – Quanto à primeira pergunta, é uma falácia. Quanto à segunda, a resposta é muito simples: ninguém pode falar nada sobre algo como arbítrio e determinismo, por exemplo, sem as devidas considerações acerca de todos as nuances que algo como esses temas envolvem. E quanto a nuances, refiro-me aos aspectos morais, lógicos e teológicos que assuntos como aquele suscitam. Esta reflexão, em si, é filosófica. A filosofia lida e auxilia a teologia com esses temas, uma vez que impele a razão a desdobramentos que, do contrário, não seriam possíveis. Raciocinar e deduzir que não é necessário filosofia é, em si, o uso da filosofia!! Observou? Até para excluí-la da atividade teológica, deve-se usá-la.

05) A Teologia é um campo vasto, que pode ser explorada em seus diversos aspectos. Por exemplo, existem obras  de Teologia Histórica, Introdução à Teologia, Teologia Bíblica, e por aí vai... Queremos saber do senhor, qual ou quais as diferenças básicas entre Teologia Bíblica e Teologia Sistemática e qual o espaço, papel e importância que cada uma ocupa dentro do contexto cristão.

R – A teologia bíblica, grosso modo, é aquela que se relaciona diretamente aos livros ou excertos bíblicos. É claro que o livro de Salmos, por exemplo, contém aspectos teológicos gerais, uma vez que, por mais diferentes que sejam, os salmos têm algo mais forte que os une, do que o que os separa; caso contrário não estariam agrupados num mesmo livro. Mas, sabe-se, por exemplo, que há grupos de salmos mais iguais entre si. É por isso que os teólogos dividem o livro de salmos em livros menores, com grupos de salmos que compartilham algumas características mais notáveis. Quando falamos de uma teologia bíblica do livro de Salmos, temos de levar em consideração os temas e semelhanças linguísticas e literárias desses grupos menores, o que, quando feito, nos dá um quadro mais abrangente da teologia do livro de Salmos. Isto é, de modo geral, a teologia bíblica. O mesmo pode ser feito com todos os livros da Bíblia. Por exemplo: por que há quatro evangelhos canônicos, sendo que três são “sinóticos” (“semelhantes”): Marcos, Mateus e Lucas? Por que, mesmo sinóticos, os evangelhos contêm diferenças? É óbvio há algo mais do que a mera personalidade literária de cada autor. Há uma teologia própria de cada livro, com suas especificidades que lhe são próprias.

Em relação à teologia sistemática, podemos dizer que é um determinado agrupamento de temas bíblicos, que são dispostos e trabalhados por teólogos, cujo intuito é formar um panorama abrangente de como a Bíblia fala sobre os mesmos, os quais são cruciais à fé teísta. Temas como a doutrina de Deus, de Cristo, do Espírito Santo, da Igreja, o homem, do pecado, dos anjos e demônios, do fim etc. Teologia sistemática lida com temas bíblicos. Teologia bíblica lida com as teologias dos livros da Bíblia.

06) Numa época em que o cristianismo tem sido confrontado por ideologias satânicas, imorais e insanas, a Apologética deveria ocupar um papel importante na vida do cristão. Entretanto, a realidade tem sido outra, pois, poucos cristãos estão preparados para fazer essa defesa consistente do cristianismo fora dos âmbitos eclesiásticos. Pela experiência que o senhor tem nessa área, quais apologistas que têm lutado para mudar esse quadro, o senhor indica para nós e que são influentes e respeitados não só no ambiente acadêmico-teológico, mas também no acadêmico-secular?

R – A lista é razoavelmente grande, pois há dois mil anos que há apologistas na Igreja, lutando cada um suas respectivas lutas, atreladas aos seus tempos. Desde os primeiros “apologistas” patrísticos, nos primeiros séculos da Igreja, aos trabalhos de teologia, filosofia e teologia natural de nomes medievais, todos deveriam ser estudados no âmbito acadêmico eclesiástico. Infelizmente, são nomes em grande parte desconhecidos do público evangelical, de um modo geral. Não é à toa que muitos desses são estudados nos centros de filosofia mundo afora, e são respeitados como filósofos, pois seu trabalho gerou importantes contribuições à história das ideias. O curioso é que estes homens, em particular, criaram suas obras “filosóficas” à luz da teologia, e normalmente aquelas contribuições filosóficas são eminentemente cristãs. Por isso, creio que nomes como Agostinho, Boécio, Anselmo, Duns Scottus, Tomás de Aquino, Scotus Erígena e Guilherme de Ockam são fundamentais para quem quer estudar os temas abordados em apologética.

Nas eras moderna e contemporânea, nós temos nomes de peso, que vieram da academia e nos legaram suas contribuições. É impossível você falar de apologética cristã no período moderno sem mencionar Lutero e o momento de ruptura em que ele viveu. O pensamento de Lutero, cristalizado em seus escritos, revela-nos bem um aspecto da apologética cristã que se levantou contra os desvarios romanos, aceitos como se fossem revelações bíblicas. A partir daí, temos inúmeros homens que deixaram valiosas contribuições à apologética, às vezes em áreas muito específicas, mas não menos importantes. Leibniz foi um desses homens. Cito Leibniz pela sua tentativa de explicar a justiça de Deus, relacionando-a com o mal no mundo e a pergunta sobre se esse mundo é de fato o melhor mundo possível. Seu livro “Teodiceia” é um marco para a apologética cristã, ainda que não se concorde com todas as ideias do filósofo. Em tempos mais recentes, temos nomes de peso no cenário acadêmico mundial, como Josh McDowell, Ravi Zacarias, J. P. Moreland, Peter Bochino, Dinesh D´Souza (católico) e mais atuante em história e política, Michel Lincona, Alister McGrath, Norman Geisler, Paul Copan, Frank Turek, Gary Habermas e William L. Craig. Todos com grandes contribuições apologéticas nas áreas de história, filosofia da religião e teologia.

07) Nos últimos anos, muitos cristãos se interessaram pelo debate soteriológico que foca nas questões relacionadas com a Mecânica da Salvação, Providência Divina, Livre-Arbítrio, etc. Embora não se resuma a isso, a massa dos cristãos se define como Calvinistas e Arminianos. Nesse meio, outro grupo tem ganhado espaço, crescido e se destacado por suas explicações sofisticadas e bem fundamentadas, inclusive o senhor faz parte dele; são os Molinistas. Baseado nisso, queremos saber o porquê o senhor se define como Molinista e porquê a maioria dos que se definem como Molinistas são Filósofos ou têm interesse por ela?

R – Antes de responder, é preciso ressaltar que calvinistas e arminianos têm suas linhas norteadoras de pensamento que, querendo eles ou não, moldam e guiam suas perspectivas bíblicas. O grande desafio, para calvinistas, arminianos e molinistas, é desvencilhar as linhas de pensamento que seguem dos homens que lhes emprestaram seus nomes: Calvino, Armínio e Molina. É por isso que, particularmente, não gosto destes rótulos e os uso mais por efeito didático do que por qualquer outro motivo, embora veja, com pesar, como o partidarismo soteriológico é emotivo e segregador em nosso meio. Dito isso, penso ser o molinismo uma melhor explicação quanto ao processo da “mecânica da salvação”, uma vez que se destaca por apresentar, a partir da Escritura, uma série de deduções sobre Deus que fazem sentido, ante problemas que se nos parecem insolúveis nos outros sistemas soteriológicos.

No calvinismo, por exemplo, se aceitarmos que Deus é soberano como nos moldes que foram apresentados por Calvino, então temos uma série de problemas incontornáveis: Deus é o autor do mal (e quando dizem os calvinistas que não é, afirmam que Deus decretou que o homem livremente escolhesse pecar, o que é um contrassenso); Deus decide quais homens vão incondicionalmente ao céu ou ao inferno, para sempre, repassando-nos a ideia de uma arbitrariedade que, quando questionada, esquiva-se para o “inefável”, o “inescrutável”, o “inalcançável”.

No arminianismo, temos uma linha de destino, que é a que Deus previu e a partir da qual ele decidiu um monte de coisas, inclusive a salvação de quem ele sabia que iria crer no Evangelho. Ok. A grande questão é que, neste sistema, se tudo é exclusivamente em função da absoluta presciência simples de Deus, então ele faz as coisas porque previu e, portanto, o “futuro causa o passado”, o que se apresenta também como um problema obscuro e incontornável.

Na proposta molinista, que leva o nome do padre jesuíta do século XVI, Luís de Molina, há uma tentativa (filosófica e teológica) de concordância dos aspectos aparentemente inconciliáveis do livre-arbítrio e da predestinação divina. As bases formais estruturais estão lançadas em um livro de 1588, intitulado “Liberi arbitrii cum gratiae donis, divina praescientia, providentia, praedestinatione et reprobatione concordia”  ou como é mais comumente conhecido, “Concórdia”. Neste livro, Luis de Molina nos mostra a sua ideia do conhecimento de Deus a partir de uma divisão lógica. É a dinâmica molinista da onisciência de Deus, seu sumo poder e a liberdade humana, que se constitui um avanço formidável no entendimento da “harmonia” (“concórdia”) entre a ação livre do homem em consonância com a soberania divina.

É, no meu ponto de vista, uma percepção sofisticada porque, além de preservar a liberdade humana, base de sua racionalidade, entende que Deus como conhecedor de todas as possibilidade factíveis (denominadas contrafactuais), atualiza ou estabelece aquelas em que a liberdade humana coaduna-se da melhor forma possível ao ponto em que a vontade de Deus se cumpra e o maior presente dado ao homem não seja violado, ou seja, seu livre-arbítrio.

08) Temos acompanhado diariamente a adesão de cristãos por interpretações que não se coadunam com as doutrinas bíblicas. Entre essas interpretações, temos duas que estão em ascensão: calvinismo e cessacionismo. Boa parte dessa adesão se dá por cristãos que não tem acesso aos conhecimentos básicos de hermenêutica e de exegese e que são influenciados pelas redes sociais e por teólogos que tendo a “aparência de erudição” acabam convencendo esse tipo de público. Como o senhor enxerga tudo isso? Calvinismo e cessacionismo são interpretações nocivas para o cristianismo? Qual o impacto da crença nessas duas interpretações para uma congregação, por exemplo?

R – Somos  um povo passional e é normal que defendamos as posições que nos são atraentes de maneira apaixonada. Isto é de certa forma comum nos povos latinos. Contudo, aqui, não quero que minhas posições sejam interpretadas pelo viés da pessoalidade. Nada tenho contra calvinistas e tenho bons amigos que o são. Destarte, penso que o calvinismo é um sistema que, por destoar muito do que diz a Bíblia, pode sim ser nocivo, se as pessoas que o defendem não compreenderem que o que se chama “calvinismo” é UMA forma de interpretação de vários aspectos da teologia bíblica, a partir principalmente da ótica do reformador genebrino João Calvino, e não o evangelho em si.

     A dinâmica da teologia calvinista, que é baseada em uma aspecto federal, ou seja, de aliança, é complicado, pois para que funcione no período da Igreja, algo teria de substituir o selo da aliança veterotestamentária, que é a circuncisão, e os calvinistas, encontram no batismo este selo. Como um selo da nova aliança, o batismo é visto como “sacramento” e, portanto, decisivo no processo salvífico. Não estou dizendo que os calvinistas defendem que o batismo salva, mas é exatamente por isso que os calvinistas batizam crianças, pois é um modo de fazer o infante ingressar na promessa do Novo Pacto, a partir de Cristo.

     A mecânica da salvação calvinista também é complicada, pois, como já disse, Deus acaba por se tornar o autor do mal e, portanto, pior do que o Diabo, uma vez que é ele que – segundo os calvinistas -, guia a as ações dos homens, boas ou más, afim de que as mesmas adequem-se a um “decreto inescrutável” de Deus; onde o mesmo ordena as ações dos homens, boas ou más, e é responsável apenas pelas boas, enquanto estes são responsáveis pelas más. Isto é inaceitável, não apenas porque é realmente um malabarismo muito grande para se evidenciar a soberania de um Deus que está no controle do universo, mas principalmente porque não é isso que a Escritura sugere ou explicita. “A alma que pecar, essa morrerá”, diz-nos o profeta Ezequiel (18:20-24), em um contexto onde os sacerdotes e sábios de Israel, no exílio babilônico, deveriam aprender que o homem é responsável por seus atos perante Deus, como aquela geração, que estava sendo castigada por seus próprios pecados, os quais superavam os de seus antepassados ou, no máximo, perpetuavam-se naqueles.

     O cessacionismo é um engodo, um engano, algo de muito, muito nocivo para a Igreja como um todo. Os dons espirituais são um modo de a multiforme sabedoria de Deus revelar-se ante o mundo, através da Igreja. São sinais que nos remetem a um Reino espiritual, que se mostra real, ainda que desconhecido da maioria dos homens. É a ação do Espírito Santo na Igreja que a mantém viva e atuante em um mundo que clama pelas trevas do caos e do abandono de Deus. Retirar da Igreja os dons, atrelando-os exclusivamente ao passado, é tornar a Igreja manca e suscetível a ações espirituais malignas, além da secularização e acomodação aos valores culturais que vemos hoje, na sociedade, muitos dos quais são francamente antibíblicos. Não é de admirar que seja no seio de muitas igrejas cessacionistas, onde vemos sinais de apostasia espiritual e prática, há séculos. Estas igrejas mantêm-se em pé por causa de tradição, mas espiritualmente estão mortas, com práticas abomináveis à luz da Escritura. É delas que vêm a liberalização do homossexualismo, a aceitação de clérigos gays, o aumento do feminismo e inclusive a defesa do aborto, etc. Não é admirar que o evangelho tenha praticamente morrido na Europa, no contexto das igrejas históricas, muitas delas cessacionistas.

09) Agora, saindo um pouco do contexto teológico, queríamos saber qual a visão que o senhor tem acerca do cenário político do Brasil?

R – O pior. O Brasil é um país, cuja situação política é sui generis: acostumamo-nos com a corrupção, ao mesmo tempo em que expomos, denunciamos e nos horrorizamos com a mesma. Como assim? Como podemos ser tão complacentes com homens e mulheres corruptos, com políticos que, respondendo processos ou condenados, têm contra si milhares de evidências de suas transações sujas, seu legado maldito, cujo rombo nos cofres públicos é causador direto de cortes de serviços públicos essenciais, que por não existirem, ceifam as vidas de milhares de Brasileiros anualmente? Como podemos levar a sério a classe política no Brasil, para o que quer que seja? Mesmo assim, levamos. E seguimos, como se não nos acontecesse nada.

10) Como o senhor vê a recente legalização do aborto em alguns países, e a aprovação de casamento entre pessoas do mesmo sexo dentro das igrejas?

R – O resultado natural de décadas de influência anticristã no mundo. O aborto é um caso de classificação seletiva: por “vida”, entende-se tudo o que possui processos biológicos autônomos. Assim, ovos de tartaruga marinha contêm vida e mulheres em gestação aos 2, 3, 4 meses também. A questão é a mudança de percepção do status da vida. Em relação aos ovos de tartaruga, que contêm uma tartaruga marinha em potencial, as quais estão ameaçadas de extinção, um ativista esquerdista, por exemplo, defender com todas as forças a preservação daqueles ovos, enquanto poderá fazer piquetes, vigílias e protestos diversos pela liberação do aborto. O status desta vida, a humana, é inferior ao daquela, a reptiliana. Não é à toa que, em tempos de ecorreligião, haja pessoas “se casando com a terra” e, para posturas menos radicais, vejamos governos promovendo a proteção de “santuários” naturais, onde ninguém pode pescar um peixe, enquanto seres humanos morrem à espera de tratamento em filas de hospitais que caem aos pedaços. 

O caso dos homossexuais é o mesmo. A lógica que defende esse movimento, o LGBT, é a mesma que o vê como um veículo de desconstrução. O que se tenta desconstruir? Os paradigmas que construíram a civilização ocidental. E tais paradigmas passam pela cosmovisão judaico-cristã. Esta é baseada na confirmação dos preceitos bíblicos, os quais mantêm um código de liberdade civil institucional intrínseca à própria mensagem do evangelho. Todos  os países genuinamente cristãos defendem a liberdade civil, com os direitos essenciais preconizados na Bíblia, assegurados nas constituições dos mesmos, que normalmente são repúblicas federativas. Tais repúblicas são o resultado direto da ideia de estados nacionais, soberanos, autônomos, que podem (e devem) coexistir uns com os outros, através de alianças comerciais e culturais, intercâmbios, promovendo a liberdade de locomoção e, internamente, garantindo a seus respectivos habitantes os direitos que lhe são naturais e inalienáveis, como o direito à liberdade de expressão, de pensamento, de religião, direito à propriedade privada, etc. 

O que pensa a elite globalista anticristã e extremamente rica, com uma agenda própria e que tem sua própria ideia de civilização? Pensa o que aparece nas ações de homens e mulheres de influência, no cenário geopolítico, que são contra a propriedade privada e creem piamente que o mundo “só” pode alcançar um status melhor quando for governado por eles próprios. Nada, que não seja esse cenário, é satisfatório e, portanto, vale tudo. Vale destruir os paradigmas civilizacionais que nos criaram e, em cima dos escombros, construir outros. Isso leva tempo e é exatamente aí que entram os grupos que chamo de “cavalos-de-batalha” sociais, que apregoam conceitos estranhos de comunidade, liberdade, igualdade e da própria sociedade: uma comunidade em que as pessoas são niveladas por baixo; uma liberdade que consiste em não se ter liberdade alguma; uma igualdade que é mais igualdade para os que estão nas massas e uma diferenciação de modo de vida para os que estão na elite dominante e, enfim, uma sociedade rigidamente hierarquizada, controlada e dirigida como uma grande manada em direção ao curral.

11) Há anos estamos vendo a ascensão de movimentos de esquerda, dentro das universidades, como por exemplo Marxismo, Feminismo, etc. Nesse contexto, estão inseridos jovens cristãos que são pressionados a abandonarem sua fé em Deus e aderirem a tais ideologias. Na internet, tem crescido o número de jovens de cada vez mais são seduzidos por tais movimentos e se autoproclamam: “cristãos de esquerda’”. Diga-nos, é possível ser cristão e ainda assim ser adepto desse tipo de ideologia? Se não, porquê?

R – Pra mim, não é possível. Porque o marxismo é, desde sua origem, anticristão. Aliar marxismo ao cristianismo é o mesmo que querer que judeus sejam amigos dos nazistas. Marxistas se comprometeram com uma visão de mundo em que o que vale, na verdade, é transformar o mundo, custe o que custar, afim de se chegar àquele ideal que foi vaticinado por Marx e Engels, no século XIX. Já está dado no Manifesto Comunista, que um dos meios para que este fim, a utopia comunista, fosse alcançada, era que na luta de classes, o proletariado destruísse todos os valores de sua classe inimiga, a “burguesia”, que por sua vez era a protetora do cristianismo. 

Assim, o cristianismo, como qualquer religião, era o “ópio” do povo. O esquerdismo mundial sofreu inúmeras variações em várias áreas do saber, mas o ideal do comum permaneceu, levando agentes políticos e militares a produzirem as maiores atrocidades que o mundo já vira, e tudo para que se concretizasse aquele ideal imagético do século XIX. Na verdade, as sociedades totalitárias esquerdistas, como a russa e a chinesa, aderiram a um sistema em que o poder é um fim em si mesmo e que deve se perpetuar a qualquer custo. O resultado é a supressão das liberdades, o controle social rígido, com fortíssimas doses de engenharia social comportamental, o ateísmo e a propaganda megalômana de líderes que vendem um peixe podre à civilização. Agora, me pergunto: como pode um cristão, sabedor de toda essa desgraça em que se convertem as sociedades esquerdistas, radicais ou moderadas, ainda assim defender o esquerdismo?

12) Não poderíamos encerrar essa entrevista sem deixar de falar sobre suas contribuições tanto no meio acadêmico, quanto no eclesiástico. Como diretor e professor do Instituto Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades, nos fale um pouco sobre o trabalho que essa instituição tem feito ao longo dos anos. O que ela tem a oferecer, quais projetos estão em desenvolvimento e quais avanços a instituição tem em andamento para o futuro?

R- O IALTH é um instituto que veio para deixar uma marca no cenário evangélico atual. Tem como missão, aliar o viés de formar obreiros para a Seara do Senhor Deus ao viés de instrumentalizá-lo academicamente, com o leque de informações necessárias para que o(a) aluno(a) tenha condições de dialogar com o nosso tempo. Isto em seus cursos-chaves, que são: Teologia, Missiologia e Capelania. O IALTH, hoje, Deus seja louvado, é o instituto de formação teológica que mais cresce na região do Grande Recife. Não tenho a menor dúvida de que este crescimento e fruto da bênção de Deus, pois há muito que o Nordeste do Brasil precisava de um centro de formação que teológica, interdenominacional e interconfessional, com um sólido propósito de fazer com que o(a) obreiro(a) aluno(a) seja uma bênção para seus líderes, sua igreja, sua comunidade. Além de munir o aluno de qualquer um desses cursos, que queira instrumentalizar-se no âmbito ministerial ou  apenas “crescer no conhecimento”, fazendo todavia com o objetivo de, se forem chamados pelo Senhor, poderem afirmar que foram capacitadas pelo IALTH.

Atenciosamente, Esquina da Teologia Pentecostal

8 de abril de 2018

Entrevista Exclusiva com Pastor Renato Cunha



Por Everton Edvaldo.

O blog Esquina da Teologia Pentecostal entrevista hoje o Pastor Renato Cunha. Ele que é autor do livro "Sob os céus da Escócia" (CPAD), articulista, professor  e diretor da Editora Carisma. 

1) Pastor Renato Cunha, primeiramente gostaríamos de dizer que é uma honra tê- lo aqui conosco, e que admiramos bastante os trabalhos que o senhor têm desenvolvido e feito nesses últimos anos, principalmente no que diz respeito à contribuição literária e teológica para os continuístas, carismáticos e pentecostais. Dito isto, gostaríamos de saber, quando e o que motivou o senhor a dedicar-se e investir na produção/tradução de livros na área da Paracletologia e Soteriologia?

Pastor Renato Cunha: A honra é toda minha, Everton. Minha gratidão a Deus pelo reconhecimento de muitos irmãos ao meu trabalho em honra ao Espírito do Senhor. Bem, entendo que recebi um chamado. Havia uma grande lacuna no cenário teológico brasileiro que desfavorecia alguns setores importantes do evangelicalismo, especialmente o pentecostal. E muitos se aproveitaram disso. Eu entendi que era hora de reagir no sentido de demonstrar que os carismáticos e pentecostais possuem um legado doutrinário especialmente rico e alicerçado nas Sagradas Escrituras. Os cristãos brasileiros precisavam tomar conhecimento disto. 

2) Graças a Editora Carisma, continuístas, carismáticos e pentecostais brasileiros estão acessando em língua portuguesa, muitos livros, autores e posicionamentos que por muito tempo ficaram em oculto. Sem dúvida, é um novo tempo para todos nós e acredito que pelo menos a barreira linguística nós já estamos rompendo. Além deste fato que até então era um desafio, quais outros desafios estão presentes na tradução de um livro para a nossa língua? 

Pastor Renato Cunha: Primeiro, toda glória é de Deus que tem levantado a Carisma para cumprir um propósito. Sem ele não faríamos nada, absolutamente nada. Não tínhamos dinheiro, nem pessoal treinado, nem estrutura física. Mas o Senhor fez tudo para provar que sua mão poderosa tem nos conduzido pelo caminho. Até aqui ele tem nos ajudado. Mas um dos principais desafios é a escassez de tradutores especializados. A teologia pentecostal é riquíssima em expressões teológicas muito próprias do movimento. Não basta saber inglês, tem que conhecer o background da teologia pentecostal. Por exemplo, o termo “Spirit Baptism” não se traduz simplesmente como “batismo espiritual”, mas “batismo no Espírito”. É um neologismo próprio do movimento que se apresenta muito mais que um mero verbete. É muitas vezes o âmago do raciocínio que pode ser perdido se o tradutor desconhecer essas questões. 

3) Desde que foi fundada, a Editora Carisma, tem trabalhado intensamente na tradução de livros que sejam de boa qualidade, relevantes e de linguagem acessível. Além disso, que mais podemos esperar da Editora Carisma? Existem outros projetos? Vocês pretendem investir também em autores nacionais?

Pastor Renato Cunha: Muitas surpresas. Iremos atuar em outras áreas além da pneumatologia. Negociamos grandes títulos nas áreas da soteriologia, escatologia, filosofia, etc. O leitor da Carisma pode esperar a qualificação do debate teológico no país. Por exemplo, iremos publicar em parceria com a Associação Brasileira de Filosofia da Religião a magnum opus do filósofo calvinista William Alston, sistematizador da epistemologia reformada. Mas por que este livro do Alston, lançado em 1991, é importante para movimentos como o Pentecostalsimo? Porque neste livro Alston trata sobre as percepções humanas da realidade divina a partir de experiências sensoriais na experiência religiosa. É um tiro certeiro nas teses que refutam o pentecostalismo em razão de sua ênfase nas experiências religiosas. Iremos publicar obras de Robert Menzies, Roger Stronstad, Harold Hunter, Donald Dayton. Essa gente é peso-pesado no cenário pentecostal.  

4) Na sua obra "Sob os céus da Escócia", o senhor nos mostra detalhadamente, através de um vasto material histórico, como alguns reformados eram continuístas e até como existiram manifestações carismáticas entre muitos destes. Hoje, muitas pessoas associam a reforma ao cessacionismo e o senhor é uma das pessoas aptas para responder esta pergunta: porque no Brasil essa ideia tem se consolidado tanto visto que nos exterior (por exemplo nos Estados Unidos), dezenas de teólogos reformados são continuístas? Seria porque a maioria dos teólogos reformados são cessacionistas ou existe outro motivo? 

Pastor Renato Cunha: Esta associação se dá no Brasil por absoluta ignorância histórica. Até mesmo calvinistas, por exemplo, desconhecem que João Calvino recebeu revelação especial extrabíblica. Como o próprio Calvino relata, ele mesmo não sabia explicar o que acontecera, apenas mencionar que ouviu um som inconfundível de que algo muito importante havia acontecido naquela noite. E tudo foi dito por ele na presença de inúmeros ministros que o visitavam em sua casa em Genebra por ocasião de uma enfermidade que o acometia. Estes relatos foram registrados por Beza e por ele mesmo publicados após a morte de Calvino. Fazia parte de uma biografia anexada às Institutas. Mas por alguma razão sombria, este documento foi extirpado das Institutas. Este livro foi inclusive publicado em inglês pela Calvin Translation Society em 1844, a partir de uma tradução da obra original em latim. Deus está trazendo de volta à lume estas coisas. Isso pode ser notado a partir da publicação de livros como o meu. As pessoas estão sendo esclarecidas pelo Espírito do Senhor. 

5) Já que falamos em cessacionismo, bem sabemos que cessacionistas pressupõem que se os dons de revelação vigoram ainda nos dias de hoje, um dos princípios da reforma Protestante, (o Sola Scriptura) é ferido severamente. Isto é verdade? É possível ser reformado e ainda assim acreditar em dons de revelação? 

Pastor Renato Cunha: Muitos reformados já refutaram essa hediondez. Embora atraente de início, a teoria de que o Sola Scriptura é um princípio que afeta qualquer noção de coexistência com os dons de revelação, é esdrúxula, sem qualquer amparo bíblico. D.A. Carson, Vern Poythress, John Frame, Wayne Grudem, Sam Storms, já escreveram diversos livros renegando a interpretação cessacionista de textos como Hebreus 1, 1 Corintios 13, et al.. Puritanos importantes como George Gillespie e Samuel Rutherford, a meu ver os dois mais importantes delegados na Assembleia de Westminister, escreveram livros e artigos defendendo a possibilidade de revelação especial extrabíblica após o encerramento do Cânon. Mas muitos desconhecem isso. E quando digo muitos, refiro-me à quase totalidade de irmãos calvinistas neste país. Além do mais, a Carisma publicou um livro chamado “Sola Scriptura e os Dons de Revelação” de Don Codling. É a dissertação dele no Westminister Theological Seminary. Um trabalho que calou vozes importantes daquele que ficou conhecido como o maior reduto do academicismo reformado norte-americano. Codling é presbiteriano canadense, uma das mentes mais brilhantes que já conheci. Precisa ser lido, conhecido. 

6) É impossível estudar Paracletologia sem enxergar a questão da atuação do Espírito Santo através dos crentes, por exemplo por meios de dons espirituais. Acontece que muitos hoje, tem abusado dos dons espirituais, usando-os de forma irreverente, desequilibrada e sem moderação. Quais recomendações o senhor nos daria para que possamos enfrentar este problema?

Pastor Renato Cunha: É fazer como Paulo fez, porque a mesma autoridade nós temos hoje, ostentamos as mesmas credenciais, seremos cobrados pelas mesmas coisas e princípios. Para isso Deus escolheu uns para pastores, outros para apóstolos, outros para pastores-mestres. Os que ensinam a igreja devem aprender o que a Bíblia diz a respeito dos dons espirituais (todos eles) e ensinar ao povo, sua abrangência, extensão, uso, propósitos. Simples assim. Ora, Paulo não proibiu as manifestações dos dons na igreja de Corinto, que era tão problemática quanto qualquer outra em nossos dias. E olha que os crentes em Corinto precisavam ser ensinados até mesmo sobre as verdades mais básicas da Ceia. Tinha gente abusando em todas as áreas, incluindo na área sexual a ponto de alguém relacionar-se sexualmente com a mulher de seu próprio pai. Mas Paulo fez o que poucos líderes de nosso tempo estão dispostos a fazer. Dedicou seu tempo a ensinar e exercer autoridade entre aqueles que estavam sob sua liderança. Mas isso envolve serviço abnegado, intimidade com o Espírito, paciência com o povo, estudo exaustivo, etc. Entretanto, alguns homens de hoje, que deveriam estar ensinando diligentemente suas igrejas locais, que deveriam jejuar e orar constantemente, que deveriam buscar ardentemente os dons do Espírito, estão mais preocupados com a audiência nas redes sociais. Eu não imagino Paulo perdendo tempo com a maioria das coisas com as quais desperdiçamos tempo hoje. O tempo é um dom gracioso de Deus, especialmente diante da afirmação de que devemos remi-lo para o melhor serviço ao Senhor e sua obra.  

7) Alguns cristãos ainda não estão familiarizados com o termo "carismático". Então, gostaríamos saber do senhor, em rápidas palavras, existe diferença de crença entre carismáticos e pentecostais? Ou ambos são a mesma coisa?

Pastor Renato Cunha: Basicamente, um pentecostal e um carismático creem na contemporaneidade de todos os dons do Espírito. As distinções ocorrem mais significativamente em doutrinas como o batismo no Espírito, evidência inicial desse batismo, etc. Por exemplo, todo carismático crê na contemporaneidade do dom de línguas. Mas nem todo ele crê que este dom é a evidência do batismo no Espírito. Então, grosso modo, todo pentecostal é carismático, mas nem todo carismático é um pentecostal.

8) Infelizmente, muitos jovens pentecostais ao perceberem uma falta de equilíbrio nas manifestações espirituais, estão aderindo ao cessacionismo com o uma alternativa que solucione este problema. Ou seja, estão trocando um buraco por um abismo, e nem de longe isso deveria acontecer. Mas neste caso, o senhor acredita que ainda é possível reverter o quadro? Digo, resgatando o pentecostalismo sadio? Ou teria outra alternativa? 

Pastor Renato Cunha: As defecções que ocorrem no Pentecostalismo em direção ao cessacionismo são naturais e até esperadas. Elas são benção se entendermos que ensinos como este são purificadores em certo sentido. Veja o que Paulo diz em 1Coríntios 11.19. Ou leia o que o Senhor disse sobre a razão de existir dos falsos profetas no antigo Israel (Dt 13.3). A descrença é companheira contumaz no caminho do povo santo. Ela não se revelou apenas às portas de Canaã.

9) Alguns Pentecostais defendem que a evidência inicial do Batismo com o Espírito Santo é o falar em línguas. Particularmente, o senhor defende esta posição, ou alguma outra? 

Pastor Renato Cunha: Eu defendo que é um dom paradigmático, mas não normativo como sinalizador exclusivo do batismo no Espírito. Eu creio que o batismo pode se revelar até mesmo na potencialização de algum dom já recebido. Precisamos entender que os dons têm um propósito, isto é, o de edificar o povo de Deus. Então, a meu ver, o dom de línguas está vinculado a outro dom, o de interpretação, com um propósito: edificar, seja o falante, seja a comunidade de remidos reunida em assembleia. Paulo recomenda a que o falante de línguas ore para que não apenas fale em línguas, mas especialmente para que interprete. O dom de interpretação de línguas, especialmente no culto, serve para validar se tal ou qual pessoa se apresenta falando em línguas, realmente está falando pelo Espírito do Senhor. E com isso, a igreja atente para o que está sendo dito. Mas hoje, qual o teste para confirmar que alguém realmente fala em línguas? Quem hoje pode atestar que a tal ou qual declaração do falante é de fato verdadeira? Logo, muitos obreiros estão sendo ordenados ao ministério sagrado endossados por um testemunho exclusivo daquele que diz falar em línguas. E nem sempre os que dizem falar em línguas, realmente falam em línguas a partir de um dom genuíno do Senhor. No NT os apóstolos certificavam que o dom de línguas era legítimo. Eles expressavam isso claramente. Mas e hoje? Quem está atestando isso? Precisamos de gente santa, guiada pelo Espírito do Senhor, com dom de discernir espíritos, a fim de governar a igreja.

10) Quanto aos dons ministeriais, atualmente, alguns cristãos são chamados de "profetas do Senhor". Então, de um lado, os críticos dizem que não existem mais profetas, e que é errado chamar alguém assim. O que o senhor pensa sobre isso, tendo em vista que no Novo Testamento encontramos o termo "profeta" também sendo atribuído a cristãos? 

Pastor Renato Cunha: As pessoas focam demasiadamente no mensageiro, não na mensagem. Há muito desentendimento porque não se tem dado atenção ao que realmente importa. A busca das pessoas também está centrada em ouvir respostas aos seus anseios, não necessariamente ao que o Senhor deseja dizer ou fazer. Quem, dentre nós hoje, tem a mesma disposição de Habacuque? (Hb 2.1). É preciso entender que rotular alguém como profeta do Senhor não há mal algum. O mal está quando prestigiamos mais o mensageiro em detrimento do Senhor da mensagem. É isto que aprendo do texto em que a glória do Senhor fazia resplandecer o rosto de Moisés. Eu penso que era para que as pessoas não idolatrassem Moisés, mas que temessem ao Senhor, que atentassem para sua glória, não que ela desvanecia revelando a dissipação da glória celeste. Por isso Moisés encobria o rosto com um véu para que os israelitas quando vissem seu rosto, vissem a glória resplandecente. Moisés sabia que a percepção visual da glória de Deus manteria animados os israelitas; em razão disto ele cobria o rosto com o véu, a fim de que o povo não visse a glória se desvanecer (Gn 34.33, 35). É a glória do Senhor, não Moisés (nem qualquer outro agente humano), que renova o espírito do povo. 

20 de julho de 2017

Entrevista exclusiva com o pastor Carlos Augusto Vailatti



Por Everton Edvaldo

A entrevista de hoje é com o Biblista, Hebraísta e Teólogo: Carlos Augusto Vailatti. Vailatti é Doutor em Estudos Judaicos, com concentração em Estudos da Bíblia Hebraica, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas- Departamento de Letras Orientais- da Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Teologia, com especialização em Teologia Bíblica, pelo Seminário Teológico Servo de Cristo (STSC). Bacharel em Teologia pela Faculdade Betel/Instituto Betel de Ensino Superior (IBES) e também pela Escola Superior (EST), Rio Grande do Sul. Atua principalmente nos seguintes temas: exegese do AT e do NT, Teologia do AT e do NT, hermenêutica e tradução de textos bíblicos.

01) Carlos Augusto Vailatti, o senhor é bastante conhecido por seus debates no programa Vejam Só, palestras, pregações, livros e posicionamentos. Acontece que há sempre um lado que desconhecemos. Já que muitas pessoas não têm proximidade com o senhor, revele-nos como é a rotina do Vailatti no dia a dia, em casa, com a família e na congregação. 

CAV: Como sou professor de diversas disciplinas teológicas em alguns seminários de São Paulo e, além disso, dou palestras em vários estados do Brasil sobre distintos assuntos bíblicos e teológicos, então minha rotina ultimamente tem sido preparar aulas, palestras, estudos e pregações. Já em termos mais pessoais, diria que sou bastante caseiro. Gosto de ficar em casa na companhia de minha esposa (Noeli), minha mãe (Antonia) e meu cachorrinho (Kalebe), um spitz alemão de quase dois anos, com quem costumo passear no parque umas duas ou três vezes por semana. Não tenho filhos. Ademais, gosto muito de ler (especialmente livros de teologia) e assistir a bons filmes de ação e ficção. Quanto à vida ministerial, pastoreio uma igreja independente, chamada Igreja Evangélica Jaboque, situada na zona leste de São Paulo, uma comunidade muito querida e abençoada por Deus.

02) Hoje não resta dúvidas de que o senhor é um arminiano assumido. Além disso, uma pessoa que inspira muitas outras. Por ser referência no assunto, acredito que muitas pessoas queiram saber como surgiu essa paixão pelo Arminianismo. Quando e como foi que “a ficha caiu” e o senhor conscientemente entendeu que era um arminiano?  

CAV: Sim, sou um arminiano convicto por livre e espontânea escolha, sem que nada e ninguém me tenha determinado a sê-lo (risos)! Quanto a ser uma referência no assunto, bem, isso é bondade sua. Sou apenas uma pessoa entusiasmada pelo tema. Creio que essa paixão pelo Arminianismo surgiu há uns oito ou nove anos. Na ocasião, durante a preparação de uma série de aulas sobre Soteriologia, acabei lendo, pela primeira vez, as Institutas de Calvino e as Works de Armínio e, ao fazê-lo, me vi totalmente convencido de que o pensamento soteriológico de Armínio estava muito mais próximo das Escrituras do que o pensamento de Calvino. Foi nesse momento que me percebi, de fato, arminiano.  

03) Traduzir a Análise de Romanos 9 escrita pela teólogo, professor e pastor Jacó Armínio deve ter sido uma experiência singular. Gostaríamos de saber, quais foram as primeiras impressões que o senhor teve durante a leitura do documento de Armínio?  

CAV: Ao ler Uma Análise de Romanos 9, de Armínio, algumas questões saltaram-me aos olhos. Em primeiro lugar, chamou-me a atenção a prolixidade (esta obra é, na verdade, uma “simples” carta que Armínio endereçou a um erudito zwingliano de sua época!), racionalidade (há silogismos em abundância no texto), erudição e piedade de Armínio. Em segundo lugar, é visível o caráter tanto bíblico quanto escolástico do seu pensamento. Por fim, são notórias a veia poética e a humildade de Armínio. No final de sua obra, Armínio redige um poema no qual se revela disposto a reconsiderar e a corrigir o seu pensamento, caso alguém mostre o erro de sua argumentação. O compromisso de Armínio não é com nenhuma “teologia de estimação”, mas sim com a verdade, doa a quem doer, incluindo ele mesmo. Esse traço de Armínio é admirável! 

04) Quando se fala na presciência de Deus, alguns arminianos costumam usar vários tipos de expressões para descrever o conhecimento que Deus possui acerca das coisas. Por exemplo, fala-se muito que na eternidade, Deus previu quem iria crer e quem não iria crer. De acordo com sua perspectiva, o verbo “prever” é adequado para esse tipo de explicação? Deus precisa ver o futuro para ter ciência das coisas? Os opositores dos arminianos afirmam que a consequência lógica desse tipo de explicação é que o Arminianismo leva ao teísmo aberto. No seu ponto de vista, dizer que simplesmente “Deus, num eterno agora, sabe de todas as ações humanas” não seria mais plausível que dizer que “Deus previu o futuro”? Ou ambas são plausíveis? Como o senhor enxerga essa questão?  

CAV: Sim, o verbo “prever” – como sinônimo de “pré-conhecer” – é adequado porque essa é a terminologia empregada pela Bíblia. O verbo grego proginosko, “conhecer de antemão” ou “pré-conhecer” ocorre, por exemplo, em Romanos 8:29 e, em 1 Pedro 1:2, o substantivo prognosis, “presciência”, também pode ser verificado. Quanto à segunda pergunta, a resposta é igualmente afirmativa. Como a onisciência é um dos atributos necessários de Deus, sem o qual Ele, evidentemente, não poderia governar o universo, logo, Deus precisa conhecer em Seu eterno presente tudo aquilo que, da perspectiva humana, é chamado de futuro, a fim de que possa reger o mundo e executar os Seus sábios desígnios. Aqui há uma questão importante. Embora a presciência divina seja cronologicamente anterior aos eventos futuros, contudo, os eventos futuros são logicamente anteriores à presciência divina. Aliás, tal presciência divina de eventos futuros não os causa, mas apenas os constata, visto que, nas palavras do próprio Armínio, “uma coisa não acontece por ter sido conhecida previamente ou predita, mas é conhecida previamente e predita porque ainda virá a acontecer” (As Obras de Armínio, Vol.2, p.67). Por fim, dizer que o Arminianismo leva ao Teísmo Aberto é uma afirmação deveras absurda. Tal crença nunca fez parte do arminianismo clássico-wesleyano, sendo estranha ao mesmo. Por outro lado, cabe lembrar que o pai do Teísmo Aberto, Clark Pinnock, era originalmente de tradição calvinista! Por aceitar o pressuposto calvinista de que a onisciência divina implica necessariamente determinismo, e, ao mesmo tempo, em reação a este mesmo pressuposto equivocado, Pinnock concebeu o conceito de Teísmo Aberto. 

05) É comum encontrar no arraial cristão brasileiro ensinamentos estranhos à Bíblia. Por exemplo, em muitas pregações, afirma-se que antes da sua corrupção, o diabo era um querubim ungido no céu e maestro do coro celestial de anjos. Como alguém que também atua na área de demonologia, poderia nos dizer se isso tem respaldo nas Escrituras? A Bíblia ensina que o diabo era um querubim ungido?  

CAV: Em nosso contexto tupiniquim, temos experimentado uma verdadeira demoniomania de uns anos pra cá. Tal ênfase demasiada dada aos demônios é perigosa e, quando feita acriticamente, pode produzir verdadeiros absurdos teológicos. No que se refere à crença popular de que “o diabo era um querubim ungido”, tal concepção parece ser derivada da interpretação alegórica de Orígenes (II-III Sécs. d.C.) de Ezequiel 28, apesar deste se referir a Satanás simplesmente como “anjo” e não como “querubim”. Entretanto, no contexto do Antigo Oriente Médio, querubins eram retratados como criaturas híbridas semelhantes a esfinges, tendo o corpo de um animal, asas e a cabeça de um ser humano. Parece-me que Ezequiel 28 tem a intenção de representar o rei de Tiro ironicamente como um “guardião” de seu povo, mas que, na verdade, em vez de protege-lo acabou contribuindo (solidariamente com o próprio povo) para a sua ruína. Já a ideia de que Satanás era “maestro do coro celestial de anjos” é retirada de Ezequiel 28:13. Contudo, penso que a referência feita neste trecho a alguns instrumentos musicais se refira, não a Satanás como uma espécie de André Rieu pré-queda (risos), mas aluda, isto sim, ao dia em que o “deus-rei” de Tiro subiu ao trono, ocasião esta celebrada com muita música e festa. Em suma, a ideia de que o diabo era um “querubim-maestro” parece ser resultado mais de uma tradição interpretativa folclórico-alegórica popular da Bíblia do que fruto de exegese séria.  
06) O senhor tem trabalhado intensamente na exposição do Arminianismo entre os cristãos aqui do Brasil. Como tem sido essa experiência? Sente que ainda existem muitas dúvidas com relação ao Arminianismo? Se sim, o que o senhor tem feito para dar conta desse desafio? 

CAV: Sim, tenho falado com frequência sobre o Arminianismo a diversos públicos no Brasil. Aliás, nas próximas semanas discorrerei sobre esse tema em duas palestras, uma no Rio e outra na Paraíba. Essa experiência tem sido muito gratificante e, ao mesmo tempo, bastante desafiadora. Tenho notado especialmente dois tipos de postura quanto ao assunto. Primeiramente, as pessoas têm exibido um desejo muito grande de saber mais sobre esse sistema teológico. E, em segundo lugar, percebe-se, paralelamente, um desconhecimento profundo acerca da questão, até mesmo por parte de pastores e líderes de igrejas que, em tese, são arminianas. De modo geral, tenho notado um interesse cada vez maior das pessoas em querer saber exatamente o que é a teologia arminiana. Eu acho isso maravilhoso.    

07) A continuidade dos dons espirituais é um tema que novamente tem sido alvo de interesse e estudo. Qual sua perspectiva com relação aos dons? Bem sabemos que todo Pentecostal é continuísta, mas nem todo continuísta é Pentecostal. Como o senhor se encaixa dentro do terreno pneumatológico? 

CAV: Com relação aos dons, sou um continuísta convicto. Vejo o Cessacionismo como uma crença estranha e perigosa, para a qual não há o mínimo fundamento bíblico. Na verdade, o cessacionismo nada mais é do que uma crença baseada na experiência, ou seja, na experiência da ausência de experiências sobrenaturais por parte de seus proponentes e defensores. Entretanto, o cessacionismo não subsiste diante das evidências escriturísticas e históricas, que atestam amplamente a continuidade dos dons e das manifestações sobrenaturais ao longo da história da igreja. Comparo os cessacionistas aos peixes, que, por viverem sempre cercados pelas águas, não acreditam na existência de vida fora e acima de seu habitat natural aquoso... até serem pescados. Quando isso ocorre, eles descobrem que há vida além da superfície dos rios e dos mares. Em termos pneumatológicos, me defino como “carismático”, isto é, creio na atualidade de todos os charismata (dons), mas, diferentemente do pentecostalismo clássico, não acredito que o batismo com o Espírito Santo (ou “enchimento com o Espírito Santo”, como prefiro denomina-lo) deva ser acompanhado necessariamente pela evidência glossolálica. 

08) Quando se trata de tradução da Bíblia para a língua nativa, já podemos - graças a Deus - contar com várias delas em língua Portuguesa. Entretanto, na hora de estudar as Sagradas Escrituras muitos cristãos que não têm uma formação acadêmica, desejam uma tradução que mais se aproxime do “original”, ou melhor, daquilo que se depreende terem sido os originais. Como estudante das línguas bíblicas, o senhor certamente tem algo a nos dizer sobre isso. Essa preocupação precisa ser real? Existe alguma tradução em língua portuguesa que mais se aproxime do original? Se sim, qual delas? E o senhor, quando vai pregar utiliza qual versão da Bíblia? 

CAV: Tenho respondido a essas perguntas com bastante frequência. Na verdade, estas questões referentes às traduções bíblicas estão entre as dúvidas mais recorrentes entre os cristãos em geral. Quando falamos sobre traduções bíblicas, devemos esclarecer primeiramente que existem dois métodos principais de tradução da Bíblia: o método de equivalência formal/literal e o método de equivalência conceitual/dinâmica. (1) O método de equivalência formal busca seguir, na medida do possível, a forma da língua em que se encontra a mensagem original. Poderíamos enquadrar nesta classificação as traduções brasileiras da Bíblia conhecidas como ARC (Almeida, Revista e Corrigida) e ARA (Almeida, Revista e Atualizada), as quais buscam ser mais literais e seguir de perto a forma dos textos originais. (2) O método de equivalência conceitual, por sua vez, busca comunicar o significado exato da mensagem original, expressando-o de forma compatível com a língua receptora. Para esse método, traduzir o conceito por trás das palavras é mais importante do que seguir um literalismo rígido. Isto não quer dizer, entretanto, que não existam elementos formais e conceituais sobrepostos em ambas as metodologias. Quer dizer apenas que cada um desses métodos privilegia mais um pressuposto tradutivo do que o outro no seu processo de elaboração de uma tradução bíblica. Entre as Bíblias que seguem este segundo método tradutivo está a NVI (Nova Versão Internacional). Creio que os exemplos a seguir ajudarão a visualizar melhor as diferenças entre os dois métodos. Tomemos como exemplo Gênesis 1:1. Utilizando o método de equivalência formal, esse versículo seria traduzido assim: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. Já utilizando o método de equivalência conceitual, poderíamos traduzir esse mesmo versículo desse modo: “No princípio, Deus criou o Universo”. Neste primeiro versículo da Bíblia, “os céus e a terra” funcionam como uma sinédoque – figura de linguagem que é caracterizada normalmente por tomar a parte pelo todo e vice-versa. Na verdade, essas duas traduções estão dizendo a mesma coisa, mas com palavras e pressupostos tradutivos distintos. Ambas as traduções estão dizendo que Deus criou todo o cosmos. Em geral, eu diria que é difícil dizer qual tradução mais se aproxima do original, visto que esta é uma questão bastante subjetiva. Dependerá da predileção do leitor por traduções mais formais ou mais conceituais da Bíblia. Particularmente, diria que a ARA (Almeida, Revista e Atualizada) e a NVI (Nova Versão Internacional) são duas ótimas opções de traduções da Bíblia para o português. Quando prego, utilizo frequentemente a ARA. 

09) Algumas pessoas costumam dizer que sentem a impressão de que os autores bíblicos quando relatavam alguma adversidade ou calamidade, entendiam que elas procediam de Deus. Segundo elas, isso é perceptível principalmente no Antigo Testamento. Essa impressão durante a leitura bíblica é aparente ou é real? Se for real, porque os autores judeus escreveram dessa forma? Deus tem participação direta nas calamidades que acometem a humanidade? 

CAV: Antes de qualquer coisa, devemos conceituar o que você chama de “adversidade” ou “calamidade”. Em filosofia, costuma-se classificar os males existentes no mundo (os quais certamente se traduzem em adversidades e calamidades) em dois tipos: males morais (aqueles resultantes das escolhas intencionais humanas) e males naturais (doenças, acidentes, fenômenos da natureza etc). Embora entenda, por um lado, que Deus possa ter participação direta em vários fenômenos da natureza destrutivos (tais como, terremotos, maremotos, tufões etc) como forma de exercer o seu justo juízo divino contra o pecado, compreendo, por outro lado, no que tange aos males morais, que Deus apenas os permite. Com “permissão” quero me referir ao entendimento de que Deus permite a existência do pecado no sentido de que Ele permite que ele se realize, mas não o vê com aprovação e nem tampouco o deseja, mas apenas consente com o seu livre curso a fim de que os seres humanos possam exercer a sua liberdade divinamente concedida (quer para o bem, quer para o mal). Creio que Deus permite a existência do pecado por duas razões principais: primeira, (já previamente mencionada) para que a liberdade da vontade humana seja preservada. Caso contrário, os seres humanos não poderiam ser responsáveis por seus atos. Em segundo lugar, creio que Deus só permite o mal porque, de algum modo, ainda que desconhecido por nós, Ele pode produzir algum tipo de bem a partir dele.

Quanto à maneira dos judeus descreverem a origem dos males no Antigo Testamento, deve-se salientar que, de acordo com o pensamento hebraico, o que quer que Deus permita, Ele é visto como cometendo-o. Contudo, tal ação divina deve ser entendida, muitas vezes, como uma forma de exprimir a divina permissão. Para poder explicar melhor essa questão temos que levar em consideração a chamada “revelação progressiva” divina, que é definida por Zuck (A Interpretação Bíblica, p.85) nesses termos: “[a] uma informação que pode ter sido parcial [anteriormente] foi acrescentada [outra informação] posteriormente, de sorte que a revelação ficou mais completa”. Tendo essa definição em mente, gostaria de responder à sua questão valendo-me de três textos bíblicos como exemplos do que quero dizer. Em um estágio anterior da revelação bíblica, 2 Samuel 24:1 diz que o “Senhor” incitou Davi a realizar um censo e, ao mesmo tempo, o puniu por isso. Entretanto, em um estágio posterior da revelação, mais precisamente em 1 Crônicas 21:1, somos informados de que, na verdade, foi “Satanás” quem fez isso. Ora, como podemos harmonizar essa aparente contradição? Um argumento baseado na analogia fidei nos ajuda a responder a questão. O livro de Jó, nos capítulos 1 e 2, nos diz que todos os males causados na vida e família de Jó foram realizados por Satanás, mas sob a permissão divina. Entretanto, Jó (e seus parentes e amigos) parece não ter a menor ideia da existência de um ser chamado Satanás, de modo que, num certo sentido, ele atribui equivocadamente a origem de todos os seus males a Deus, e não ao diabo. Entretanto, Jó age assim porque, diferentemente de nós, ele não leu o livro que leva o seu próprio nome! Se o tivesse feito, ele saberia que o verdadeiro responsável por todos os males que lhe sobrevieram foi Satanás. Creio que esse mesmo conceito esteja por trás dos primeiros dois textos citados. Portanto, a solução mais adequada para a dificuldade bíblica acima mencionada seria: Satanás incitou Davi a realizar o censo, mas o fez sob a permissão de Deus. Contudo, essa interpretação é construída tendo como base o texto auxiliar de Jó, a partir do qual infere-se e projeta-se a mesma interpretação sobre os textos de 2 Samuel 24:1 e 1 Crônicas 21:1. Em linhas gerais, e respondendo à sua pergunta mais especificamente, sim, Deus tem participação nas calamidades que acometem a humanidade, quer permitindo-as, quer agindo ativamente na sua execução a fim de exercer os Seus justos juízos. 

10) Assim como Armínio, acredito que a fé salvífica seja um dom de Deus, não no sentido de que ela seja dada de forma irresistível e compulsiva, porém de maneira amorosa e que capacita o homem a crer em Jesus e consequentemente ser salvo. A Bíblia apresenta a fé como sendo um instrumento pelo qual Deus salva o homem e que ela vem através da pregação do evangelho. Diante dessa realidade, como fica a questão dos não-evangelizados? Como poderão crer se não ouviram ainda a palavra da salvação? Como o senhor entende essa questão da fé como um dom e como um elemento essencial para a salvação? 

CAV: Concordo com você quanto ao fato de a fé ser um dom de Deus, mas não no sentido calvinista, como um dom dado apenas a alguns indivíduos de forma incondicional, ou melhor dizendo, de forma arbitrária e injusta. No que diz respeito aos povos não-evangelizados, creio que Deus seria absolutamente injusto se utilizasse como critério para a salvação deles a fé em Cristo (assim como seria injusto usar a fé em Cristo como critério de salvação para os bebês e os portadores de debilidades mentais). Deus poderia julgar e condenar de forma justa aqueles que não creram em Cristo, quando, na verdade, eles nunca ouviram falar de Cristo? Penso que não. Neste caso, creio que Romanos 1 e 2 talvez nos ajude a lançar maior luz sobre a questão. Segundo estes dois capítulos da Bíblia, Deus julgará as pessoas de acordo com a informação autorrevelada dEle que elas tiverem. Neste caso, tais informações são oriundas de duas fontes: a natureza (Romanos 1) e a consciência (Romanos 2), sendo o conjunto de ambas conhecido como “revelação geral”. Desse modo, entendo que mesmo nos lugares onde a mensagem do Evangelho é desconhecida, a salvação seja possível a qualquer um que responda em fé a autorrevelação geral de Deus, na natureza e na consciência. Em outras palavras, a fé em Cristo é o critério para a salvação daqueles que ouviram falar de Cristo e que podem responder à mensagem ouvida. A fé em Cristo não pode ser o critério para a salvação daqueles que nunca ouviram falar de Cristo e/ou não podem responder à mensagem do evangelho (p.ex., personagens veterotestamentários, povos não-evangelizados, criancinhas e portadores de deficiências mentais). Entretanto, todos aqueles que vierem a ser salvos só o serão em razão da morte expiatória de Cristo, ainda que não tenham um conhecimento consciente desse fato. Talvez um exemplo mais claro se faça necessário aqui. A salvação no Antigo Testamento se dava da mesma forma como no Novo Testamento, ou seja, pela graça, mediante a fé. Contudo, o conteúdo dessa fé era distinto em ambos os casos. No AT, a salvação se dava pela fé em Yahweh (e não em Jesus, pois este ainda nem existia enquanto personagem histórica, i.e., como Jesus de Nazaré). Já no NT, a salvação se dá pela fé em Cristo. Em resumo, eu diria que uma fé-resposta, proporcionada pela graça divina, é imprescindível para a salvação daqueles que podem responder em fé, mas não é necessária para aqueles que não podem responder desta forma (p.ex., bebês e portadores de deficiências mentais). Uma outra resposta possível (ainda que hipotética) seria dizer que os não-evangelizados jamais creriam no evangelho ainda que o ouvissem. Neste caso, Deus teria organizado o mundo de tal maneira que aqueles que Ele sabia de antemão que creriam no evangelho, caso o tivessem ouvido, nasceriam num tempo e lugar da história nos quais tal fé-resposta lhes seria possibilitada. Por outro lado, Deus também pode ter organizado providencialmente o mundo de tal modo que aqueles que Ele conhecia previamente que nunca creriam no evangelho, mesmo se o tivessem ouvido, nasceriam em um tempo e lugar da história nos quais tal fé-resposta não lhes fosse possível (não por causa de algum decreto divino oculto que os impedisse de serem salvos e nem tampouco porque Deus não intencionou alcança-los com a mensagem graciosa do evangelho, mas simplesmente porque Deus já sabia que eles rejeitariam livremente a Sua salvação). Em resumo, é isso.  

Atenciosamente, Esquina da Teologia Pentecostal.