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29 de julho de 2019

A Manifestação da Graça de Deus aos homens




“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens .” (Tito 2.11)

Por Everton Edvaldo

Ao criar o ser humano, Deus dotou-lhe com inteligência, visão, ousadia, coragem e força. O homem tinha liberdade para pecar e liberdade para não pecar. Deus o criou como uma criatura livre, no sentido de que Adão pudesse tomar uma atitude contrária à vontade de Deus.

Dessa forma ele não seria uma criatura "robotizada" nem como uma marionete. Essa liberdade é a que conhecemos hoje por livre-arbítrio, ou seja, vontade livre.

O homem seria responsável por seus atos e escolhas, quer sejam boas, quer más. Não havia coerção divina. A obediência deveria ser voluntária e espontânea.

Infelizmente o homem escolheu desobedecer a Deus trazendo sobre si drásticas conseqüências. O pecado atingiu a criação, sujeitando-a e escravizando-a.

O pecado se tornou “senhor” sobre o homem. Tanto o seu caráter quanto seu comportamento foi manchado e maculado pela transgressão. Por conta disso, o homem perdeu naturalmente a liberdade para não pecar. A única liberdade que lhe restou foi para pecar. Seu arbítrio se tornou escravo.

Seus desejos e vontades ficaram corrompidos e como se não se bastasse essas conseqüências foram transmitidas para sua posteridade. Dessa forma, o pecado passou a toda raça humana impossibilitando o homem de livremente fazer o bem.

O pecado ainda separou o homem de Deus e o desviou do caminho reto. É por isso que o homem sem Deus sempre irá errar o alvo, pois está cego à parte de Deus não tem discernimento daquilo que é bom.

Deus em sua infinita bondade e misericórdia, sabendo de antemão a condição humana, providenciou os meios necessários para salvar o homem, resgatá-lo do pecado e dar-lhe vida eterna.

Isto significa dizer que sem Deus o homem por si só não pode fazer aquilo que é bom, muito menos alcançar a salvação. É aí que a graça de Deus entra. A graça “é o favor imerecido de um superior ao subalterno” (PFEIFFER, 2006, p. 876). A graça é a mais pura manifestação de amor. Não é uma força coercitiva, mas um afeto persuasivo, amoroso poderoso.

Aqui cabe perfeitamente a frase dita por Jesus: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3.16).

Graça e amor andam juntos. Não é merecido, porém ele nos amou livremente. Esse amor pelo mundo o fez entregar o seu próprio filho. Em Jesus a graça se manifestou salvadora a todos os homens. Ela se manifestou perfeitamente aos caídos, perdidos e doentes espiritualmente. Com qual objetivo? De libertar e salvar o homem!

A graça também liberta o arbítrio escravo! Não significa que o homem tenha aquela liberdade plena que existia no Éden, mas ela atua dando condições ao homem para crer!  Com a graça de Deus todos podem crer! Sem a graça, ninguém pode crer. Quando não é resistida, ela entra no homem e o transforma numa nova criatura.

A morte espiritual dá lugar à vida eterna, os olhos que estavam fechados agora se abrem. O vazio da alma agora é preenchido. Maravilhosa graça! Ela vem antes, ilumina, renova o entendimento do homem e lhe dá condições para não só crer como também perseverar como salvo. Do começo ao fim ela está presente!

A graça dá força ao cansado, sustento à fé, perdão dos pecados. Ela vem de Deus pois foi ele quem a enviou. A sua manifestação tem como alvo o homem pecador. Ela superabunda o pecado sem ser afetada por ele.

Visto que todos nós estávamos debaixo do pecado, a graça, em si mesma, e como fonte da compaixão divina é universal. Porque todos necessitam da graça? Ora, porque todos pecaram!


20 de julho de 2017

Entrevista exclusiva com o pastor Carlos Augusto Vailatti



Por Everton Edvaldo

A entrevista de hoje é com o Biblista, Hebraísta e Teólogo: Carlos Augusto Vailatti. Vailatti é Doutor em Estudos Judaicos, com concentração em Estudos da Bíblia Hebraica, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas- Departamento de Letras Orientais- da Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Teologia, com especialização em Teologia Bíblica, pelo Seminário Teológico Servo de Cristo (STSC). Bacharel em Teologia pela Faculdade Betel/Instituto Betel de Ensino Superior (IBES) e também pela Escola Superior (EST), Rio Grande do Sul. Atua principalmente nos seguintes temas: exegese do AT e do NT, Teologia do AT e do NT, hermenêutica e tradução de textos bíblicos.

01) Carlos Augusto Vailatti, o senhor é bastante conhecido por seus debates no programa Vejam Só, palestras, pregações, livros e posicionamentos. Acontece que há sempre um lado que desconhecemos. Já que muitas pessoas não têm proximidade com o senhor, revele-nos como é a rotina do Vailatti no dia a dia, em casa, com a família e na congregação. 

CAV: Como sou professor de diversas disciplinas teológicas em alguns seminários de São Paulo e, além disso, dou palestras em vários estados do Brasil sobre distintos assuntos bíblicos e teológicos, então minha rotina ultimamente tem sido preparar aulas, palestras, estudos e pregações. Já em termos mais pessoais, diria que sou bastante caseiro. Gosto de ficar em casa na companhia de minha esposa (Noeli), minha mãe (Antonia) e meu cachorrinho (Kalebe), um spitz alemão de quase dois anos, com quem costumo passear no parque umas duas ou três vezes por semana. Não tenho filhos. Ademais, gosto muito de ler (especialmente livros de teologia) e assistir a bons filmes de ação e ficção. Quanto à vida ministerial, pastoreio uma igreja independente, chamada Igreja Evangélica Jaboque, situada na zona leste de São Paulo, uma comunidade muito querida e abençoada por Deus.

02) Hoje não resta dúvidas de que o senhor é um arminiano assumido. Além disso, uma pessoa que inspira muitas outras. Por ser referência no assunto, acredito que muitas pessoas queiram saber como surgiu essa paixão pelo Arminianismo. Quando e como foi que “a ficha caiu” e o senhor conscientemente entendeu que era um arminiano?  

CAV: Sim, sou um arminiano convicto por livre e espontânea escolha, sem que nada e ninguém me tenha determinado a sê-lo (risos)! Quanto a ser uma referência no assunto, bem, isso é bondade sua. Sou apenas uma pessoa entusiasmada pelo tema. Creio que essa paixão pelo Arminianismo surgiu há uns oito ou nove anos. Na ocasião, durante a preparação de uma série de aulas sobre Soteriologia, acabei lendo, pela primeira vez, as Institutas de Calvino e as Works de Armínio e, ao fazê-lo, me vi totalmente convencido de que o pensamento soteriológico de Armínio estava muito mais próximo das Escrituras do que o pensamento de Calvino. Foi nesse momento que me percebi, de fato, arminiano.  

03) Traduzir a Análise de Romanos 9 escrita pela teólogo, professor e pastor Jacó Armínio deve ter sido uma experiência singular. Gostaríamos de saber, quais foram as primeiras impressões que o senhor teve durante a leitura do documento de Armínio?  

CAV: Ao ler Uma Análise de Romanos 9, de Armínio, algumas questões saltaram-me aos olhos. Em primeiro lugar, chamou-me a atenção a prolixidade (esta obra é, na verdade, uma “simples” carta que Armínio endereçou a um erudito zwingliano de sua época!), racionalidade (há silogismos em abundância no texto), erudição e piedade de Armínio. Em segundo lugar, é visível o caráter tanto bíblico quanto escolástico do seu pensamento. Por fim, são notórias a veia poética e a humildade de Armínio. No final de sua obra, Armínio redige um poema no qual se revela disposto a reconsiderar e a corrigir o seu pensamento, caso alguém mostre o erro de sua argumentação. O compromisso de Armínio não é com nenhuma “teologia de estimação”, mas sim com a verdade, doa a quem doer, incluindo ele mesmo. Esse traço de Armínio é admirável! 

04) Quando se fala na presciência de Deus, alguns arminianos costumam usar vários tipos de expressões para descrever o conhecimento que Deus possui acerca das coisas. Por exemplo, fala-se muito que na eternidade, Deus previu quem iria crer e quem não iria crer. De acordo com sua perspectiva, o verbo “prever” é adequado para esse tipo de explicação? Deus precisa ver o futuro para ter ciência das coisas? Os opositores dos arminianos afirmam que a consequência lógica desse tipo de explicação é que o Arminianismo leva ao teísmo aberto. No seu ponto de vista, dizer que simplesmente “Deus, num eterno agora, sabe de todas as ações humanas” não seria mais plausível que dizer que “Deus previu o futuro”? Ou ambas são plausíveis? Como o senhor enxerga essa questão?  

CAV: Sim, o verbo “prever” – como sinônimo de “pré-conhecer” – é adequado porque essa é a terminologia empregada pela Bíblia. O verbo grego proginosko, “conhecer de antemão” ou “pré-conhecer” ocorre, por exemplo, em Romanos 8:29 e, em 1 Pedro 1:2, o substantivo prognosis, “presciência”, também pode ser verificado. Quanto à segunda pergunta, a resposta é igualmente afirmativa. Como a onisciência é um dos atributos necessários de Deus, sem o qual Ele, evidentemente, não poderia governar o universo, logo, Deus precisa conhecer em Seu eterno presente tudo aquilo que, da perspectiva humana, é chamado de futuro, a fim de que possa reger o mundo e executar os Seus sábios desígnios. Aqui há uma questão importante. Embora a presciência divina seja cronologicamente anterior aos eventos futuros, contudo, os eventos futuros são logicamente anteriores à presciência divina. Aliás, tal presciência divina de eventos futuros não os causa, mas apenas os constata, visto que, nas palavras do próprio Armínio, “uma coisa não acontece por ter sido conhecida previamente ou predita, mas é conhecida previamente e predita porque ainda virá a acontecer” (As Obras de Armínio, Vol.2, p.67). Por fim, dizer que o Arminianismo leva ao Teísmo Aberto é uma afirmação deveras absurda. Tal crença nunca fez parte do arminianismo clássico-wesleyano, sendo estranha ao mesmo. Por outro lado, cabe lembrar que o pai do Teísmo Aberto, Clark Pinnock, era originalmente de tradição calvinista! Por aceitar o pressuposto calvinista de que a onisciência divina implica necessariamente determinismo, e, ao mesmo tempo, em reação a este mesmo pressuposto equivocado, Pinnock concebeu o conceito de Teísmo Aberto. 

05) É comum encontrar no arraial cristão brasileiro ensinamentos estranhos à Bíblia. Por exemplo, em muitas pregações, afirma-se que antes da sua corrupção, o diabo era um querubim ungido no céu e maestro do coro celestial de anjos. Como alguém que também atua na área de demonologia, poderia nos dizer se isso tem respaldo nas Escrituras? A Bíblia ensina que o diabo era um querubim ungido?  

CAV: Em nosso contexto tupiniquim, temos experimentado uma verdadeira demoniomania de uns anos pra cá. Tal ênfase demasiada dada aos demônios é perigosa e, quando feita acriticamente, pode produzir verdadeiros absurdos teológicos. No que se refere à crença popular de que “o diabo era um querubim ungido”, tal concepção parece ser derivada da interpretação alegórica de Orígenes (II-III Sécs. d.C.) de Ezequiel 28, apesar deste se referir a Satanás simplesmente como “anjo” e não como “querubim”. Entretanto, no contexto do Antigo Oriente Médio, querubins eram retratados como criaturas híbridas semelhantes a esfinges, tendo o corpo de um animal, asas e a cabeça de um ser humano. Parece-me que Ezequiel 28 tem a intenção de representar o rei de Tiro ironicamente como um “guardião” de seu povo, mas que, na verdade, em vez de protege-lo acabou contribuindo (solidariamente com o próprio povo) para a sua ruína. Já a ideia de que Satanás era “maestro do coro celestial de anjos” é retirada de Ezequiel 28:13. Contudo, penso que a referência feita neste trecho a alguns instrumentos musicais se refira, não a Satanás como uma espécie de André Rieu pré-queda (risos), mas aluda, isto sim, ao dia em que o “deus-rei” de Tiro subiu ao trono, ocasião esta celebrada com muita música e festa. Em suma, a ideia de que o diabo era um “querubim-maestro” parece ser resultado mais de uma tradição interpretativa folclórico-alegórica popular da Bíblia do que fruto de exegese séria.  
06) O senhor tem trabalhado intensamente na exposição do Arminianismo entre os cristãos aqui do Brasil. Como tem sido essa experiência? Sente que ainda existem muitas dúvidas com relação ao Arminianismo? Se sim, o que o senhor tem feito para dar conta desse desafio? 

CAV: Sim, tenho falado com frequência sobre o Arminianismo a diversos públicos no Brasil. Aliás, nas próximas semanas discorrerei sobre esse tema em duas palestras, uma no Rio e outra na Paraíba. Essa experiência tem sido muito gratificante e, ao mesmo tempo, bastante desafiadora. Tenho notado especialmente dois tipos de postura quanto ao assunto. Primeiramente, as pessoas têm exibido um desejo muito grande de saber mais sobre esse sistema teológico. E, em segundo lugar, percebe-se, paralelamente, um desconhecimento profundo acerca da questão, até mesmo por parte de pastores e líderes de igrejas que, em tese, são arminianas. De modo geral, tenho notado um interesse cada vez maior das pessoas em querer saber exatamente o que é a teologia arminiana. Eu acho isso maravilhoso.    

07) A continuidade dos dons espirituais é um tema que novamente tem sido alvo de interesse e estudo. Qual sua perspectiva com relação aos dons? Bem sabemos que todo Pentecostal é continuísta, mas nem todo continuísta é Pentecostal. Como o senhor se encaixa dentro do terreno pneumatológico? 

CAV: Com relação aos dons, sou um continuísta convicto. Vejo o Cessacionismo como uma crença estranha e perigosa, para a qual não há o mínimo fundamento bíblico. Na verdade, o cessacionismo nada mais é do que uma crença baseada na experiência, ou seja, na experiência da ausência de experiências sobrenaturais por parte de seus proponentes e defensores. Entretanto, o cessacionismo não subsiste diante das evidências escriturísticas e históricas, que atestam amplamente a continuidade dos dons e das manifestações sobrenaturais ao longo da história da igreja. Comparo os cessacionistas aos peixes, que, por viverem sempre cercados pelas águas, não acreditam na existência de vida fora e acima de seu habitat natural aquoso... até serem pescados. Quando isso ocorre, eles descobrem que há vida além da superfície dos rios e dos mares. Em termos pneumatológicos, me defino como “carismático”, isto é, creio na atualidade de todos os charismata (dons), mas, diferentemente do pentecostalismo clássico, não acredito que o batismo com o Espírito Santo (ou “enchimento com o Espírito Santo”, como prefiro denomina-lo) deva ser acompanhado necessariamente pela evidência glossolálica. 

08) Quando se trata de tradução da Bíblia para a língua nativa, já podemos - graças a Deus - contar com várias delas em língua Portuguesa. Entretanto, na hora de estudar as Sagradas Escrituras muitos cristãos que não têm uma formação acadêmica, desejam uma tradução que mais se aproxime do “original”, ou melhor, daquilo que se depreende terem sido os originais. Como estudante das línguas bíblicas, o senhor certamente tem algo a nos dizer sobre isso. Essa preocupação precisa ser real? Existe alguma tradução em língua portuguesa que mais se aproxime do original? Se sim, qual delas? E o senhor, quando vai pregar utiliza qual versão da Bíblia? 

CAV: Tenho respondido a essas perguntas com bastante frequência. Na verdade, estas questões referentes às traduções bíblicas estão entre as dúvidas mais recorrentes entre os cristãos em geral. Quando falamos sobre traduções bíblicas, devemos esclarecer primeiramente que existem dois métodos principais de tradução da Bíblia: o método de equivalência formal/literal e o método de equivalência conceitual/dinâmica. (1) O método de equivalência formal busca seguir, na medida do possível, a forma da língua em que se encontra a mensagem original. Poderíamos enquadrar nesta classificação as traduções brasileiras da Bíblia conhecidas como ARC (Almeida, Revista e Corrigida) e ARA (Almeida, Revista e Atualizada), as quais buscam ser mais literais e seguir de perto a forma dos textos originais. (2) O método de equivalência conceitual, por sua vez, busca comunicar o significado exato da mensagem original, expressando-o de forma compatível com a língua receptora. Para esse método, traduzir o conceito por trás das palavras é mais importante do que seguir um literalismo rígido. Isto não quer dizer, entretanto, que não existam elementos formais e conceituais sobrepostos em ambas as metodologias. Quer dizer apenas que cada um desses métodos privilegia mais um pressuposto tradutivo do que o outro no seu processo de elaboração de uma tradução bíblica. Entre as Bíblias que seguem este segundo método tradutivo está a NVI (Nova Versão Internacional). Creio que os exemplos a seguir ajudarão a visualizar melhor as diferenças entre os dois métodos. Tomemos como exemplo Gênesis 1:1. Utilizando o método de equivalência formal, esse versículo seria traduzido assim: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. Já utilizando o método de equivalência conceitual, poderíamos traduzir esse mesmo versículo desse modo: “No princípio, Deus criou o Universo”. Neste primeiro versículo da Bíblia, “os céus e a terra” funcionam como uma sinédoque – figura de linguagem que é caracterizada normalmente por tomar a parte pelo todo e vice-versa. Na verdade, essas duas traduções estão dizendo a mesma coisa, mas com palavras e pressupostos tradutivos distintos. Ambas as traduções estão dizendo que Deus criou todo o cosmos. Em geral, eu diria que é difícil dizer qual tradução mais se aproxima do original, visto que esta é uma questão bastante subjetiva. Dependerá da predileção do leitor por traduções mais formais ou mais conceituais da Bíblia. Particularmente, diria que a ARA (Almeida, Revista e Atualizada) e a NVI (Nova Versão Internacional) são duas ótimas opções de traduções da Bíblia para o português. Quando prego, utilizo frequentemente a ARA. 

09) Algumas pessoas costumam dizer que sentem a impressão de que os autores bíblicos quando relatavam alguma adversidade ou calamidade, entendiam que elas procediam de Deus. Segundo elas, isso é perceptível principalmente no Antigo Testamento. Essa impressão durante a leitura bíblica é aparente ou é real? Se for real, porque os autores judeus escreveram dessa forma? Deus tem participação direta nas calamidades que acometem a humanidade? 

CAV: Antes de qualquer coisa, devemos conceituar o que você chama de “adversidade” ou “calamidade”. Em filosofia, costuma-se classificar os males existentes no mundo (os quais certamente se traduzem em adversidades e calamidades) em dois tipos: males morais (aqueles resultantes das escolhas intencionais humanas) e males naturais (doenças, acidentes, fenômenos da natureza etc). Embora entenda, por um lado, que Deus possa ter participação direta em vários fenômenos da natureza destrutivos (tais como, terremotos, maremotos, tufões etc) como forma de exercer o seu justo juízo divino contra o pecado, compreendo, por outro lado, no que tange aos males morais, que Deus apenas os permite. Com “permissão” quero me referir ao entendimento de que Deus permite a existência do pecado no sentido de que Ele permite que ele se realize, mas não o vê com aprovação e nem tampouco o deseja, mas apenas consente com o seu livre curso a fim de que os seres humanos possam exercer a sua liberdade divinamente concedida (quer para o bem, quer para o mal). Creio que Deus permite a existência do pecado por duas razões principais: primeira, (já previamente mencionada) para que a liberdade da vontade humana seja preservada. Caso contrário, os seres humanos não poderiam ser responsáveis por seus atos. Em segundo lugar, creio que Deus só permite o mal porque, de algum modo, ainda que desconhecido por nós, Ele pode produzir algum tipo de bem a partir dele.

Quanto à maneira dos judeus descreverem a origem dos males no Antigo Testamento, deve-se salientar que, de acordo com o pensamento hebraico, o que quer que Deus permita, Ele é visto como cometendo-o. Contudo, tal ação divina deve ser entendida, muitas vezes, como uma forma de exprimir a divina permissão. Para poder explicar melhor essa questão temos que levar em consideração a chamada “revelação progressiva” divina, que é definida por Zuck (A Interpretação Bíblica, p.85) nesses termos: “[a] uma informação que pode ter sido parcial [anteriormente] foi acrescentada [outra informação] posteriormente, de sorte que a revelação ficou mais completa”. Tendo essa definição em mente, gostaria de responder à sua questão valendo-me de três textos bíblicos como exemplos do que quero dizer. Em um estágio anterior da revelação bíblica, 2 Samuel 24:1 diz que o “Senhor” incitou Davi a realizar um censo e, ao mesmo tempo, o puniu por isso. Entretanto, em um estágio posterior da revelação, mais precisamente em 1 Crônicas 21:1, somos informados de que, na verdade, foi “Satanás” quem fez isso. Ora, como podemos harmonizar essa aparente contradição? Um argumento baseado na analogia fidei nos ajuda a responder a questão. O livro de Jó, nos capítulos 1 e 2, nos diz que todos os males causados na vida e família de Jó foram realizados por Satanás, mas sob a permissão divina. Entretanto, Jó (e seus parentes e amigos) parece não ter a menor ideia da existência de um ser chamado Satanás, de modo que, num certo sentido, ele atribui equivocadamente a origem de todos os seus males a Deus, e não ao diabo. Entretanto, Jó age assim porque, diferentemente de nós, ele não leu o livro que leva o seu próprio nome! Se o tivesse feito, ele saberia que o verdadeiro responsável por todos os males que lhe sobrevieram foi Satanás. Creio que esse mesmo conceito esteja por trás dos primeiros dois textos citados. Portanto, a solução mais adequada para a dificuldade bíblica acima mencionada seria: Satanás incitou Davi a realizar o censo, mas o fez sob a permissão de Deus. Contudo, essa interpretação é construída tendo como base o texto auxiliar de Jó, a partir do qual infere-se e projeta-se a mesma interpretação sobre os textos de 2 Samuel 24:1 e 1 Crônicas 21:1. Em linhas gerais, e respondendo à sua pergunta mais especificamente, sim, Deus tem participação nas calamidades que acometem a humanidade, quer permitindo-as, quer agindo ativamente na sua execução a fim de exercer os Seus justos juízos. 

10) Assim como Armínio, acredito que a fé salvífica seja um dom de Deus, não no sentido de que ela seja dada de forma irresistível e compulsiva, porém de maneira amorosa e que capacita o homem a crer em Jesus e consequentemente ser salvo. A Bíblia apresenta a fé como sendo um instrumento pelo qual Deus salva o homem e que ela vem através da pregação do evangelho. Diante dessa realidade, como fica a questão dos não-evangelizados? Como poderão crer se não ouviram ainda a palavra da salvação? Como o senhor entende essa questão da fé como um dom e como um elemento essencial para a salvação? 

CAV: Concordo com você quanto ao fato de a fé ser um dom de Deus, mas não no sentido calvinista, como um dom dado apenas a alguns indivíduos de forma incondicional, ou melhor dizendo, de forma arbitrária e injusta. No que diz respeito aos povos não-evangelizados, creio que Deus seria absolutamente injusto se utilizasse como critério para a salvação deles a fé em Cristo (assim como seria injusto usar a fé em Cristo como critério de salvação para os bebês e os portadores de debilidades mentais). Deus poderia julgar e condenar de forma justa aqueles que não creram em Cristo, quando, na verdade, eles nunca ouviram falar de Cristo? Penso que não. Neste caso, creio que Romanos 1 e 2 talvez nos ajude a lançar maior luz sobre a questão. Segundo estes dois capítulos da Bíblia, Deus julgará as pessoas de acordo com a informação autorrevelada dEle que elas tiverem. Neste caso, tais informações são oriundas de duas fontes: a natureza (Romanos 1) e a consciência (Romanos 2), sendo o conjunto de ambas conhecido como “revelação geral”. Desse modo, entendo que mesmo nos lugares onde a mensagem do Evangelho é desconhecida, a salvação seja possível a qualquer um que responda em fé a autorrevelação geral de Deus, na natureza e na consciência. Em outras palavras, a fé em Cristo é o critério para a salvação daqueles que ouviram falar de Cristo e que podem responder à mensagem ouvida. A fé em Cristo não pode ser o critério para a salvação daqueles que nunca ouviram falar de Cristo e/ou não podem responder à mensagem do evangelho (p.ex., personagens veterotestamentários, povos não-evangelizados, criancinhas e portadores de deficiências mentais). Entretanto, todos aqueles que vierem a ser salvos só o serão em razão da morte expiatória de Cristo, ainda que não tenham um conhecimento consciente desse fato. Talvez um exemplo mais claro se faça necessário aqui. A salvação no Antigo Testamento se dava da mesma forma como no Novo Testamento, ou seja, pela graça, mediante a fé. Contudo, o conteúdo dessa fé era distinto em ambos os casos. No AT, a salvação se dava pela fé em Yahweh (e não em Jesus, pois este ainda nem existia enquanto personagem histórica, i.e., como Jesus de Nazaré). Já no NT, a salvação se dá pela fé em Cristo. Em resumo, eu diria que uma fé-resposta, proporcionada pela graça divina, é imprescindível para a salvação daqueles que podem responder em fé, mas não é necessária para aqueles que não podem responder desta forma (p.ex., bebês e portadores de deficiências mentais). Uma outra resposta possível (ainda que hipotética) seria dizer que os não-evangelizados jamais creriam no evangelho ainda que o ouvissem. Neste caso, Deus teria organizado o mundo de tal maneira que aqueles que Ele sabia de antemão que creriam no evangelho, caso o tivessem ouvido, nasceriam num tempo e lugar da história nos quais tal fé-resposta lhes seria possibilitada. Por outro lado, Deus também pode ter organizado providencialmente o mundo de tal modo que aqueles que Ele conhecia previamente que nunca creriam no evangelho, mesmo se o tivessem ouvido, nasceriam em um tempo e lugar da história nos quais tal fé-resposta não lhes fosse possível (não por causa de algum decreto divino oculto que os impedisse de serem salvos e nem tampouco porque Deus não intencionou alcança-los com a mensagem graciosa do evangelho, mas simplesmente porque Deus já sabia que eles rejeitariam livremente a Sua salvação). Em resumo, é isso.  

Atenciosamente, Esquina da Teologia Pentecostal.

15 de julho de 2017

Entrevista exclusiva com Thiago Titillo



Por Everton Edvaldo.

O nosso blog teve a oportunidade de entrevistar o pastor, escritor e teólogo Thiago Velozo Titillo. Titillo é pastor batista, especialista em Teologia Bíblia e Sistemática-Pastoral pela Faculdade Batista do Rio de Janeiro, graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Betel e licenciado em Letras pela Universidade Estácio de Sá. Concluiu o curso de grego (livre) pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. Leciona na rede estadual de ensino (SEEDUC-RJ), no Seminário Teológico Betel e no Seminário Teológico Peniel. Casado com Danielly e pai de Yasmim, é pastor auxiliar da Igreja Batista Memorial do Catumbi. Autor de três livros, Titillo não hesitou em responder nossas perguntas.

01) Thiago Titillo, sabemos que hoje, muitos cristãos estão despertando o interesse pela leitura da Bíblia, de livros que falam sobre Deus e Jesus. Isso é uma ótima notícia! E como investigadores que são, os leitores gostam de conhecer bem a trajetória daqueles que hoje são referências no Estudo das Sagradas Escrituras. Como referência e uma grande  influencia teológica na cristandade brasileira, revele-nos quando e como surgiu sua paixão pela leitura da Bíblia e livros de teologia?

R=  Por volta dos 16-17 anos, comecei a sentir um vazio e uma falta de sentido em minha vida. Naturalmente, a vida só faz sentido quando estamos cumprindo o propósito para o qual fomos criados, a saber, adorar e servir a Deus. Embora eu já tivesse consciência dos meus pecados e – de alguma forma – cresse em Cristo, faltava-me uma relação íntima e pessoal com Ele. A leitura bíblica nasceu daí: de uma vontade de conhecer mais a Deus e se relacionar com Ele de perto. Nessa época, o pastor da minha Igreja que eu congregava – Carlos Eufrázio da Cruz – colocou-me para cuidar da Biblioteca da Igreja Batista Central do Rio de Janeiro. Até hoje não sei se foi por acaso, ou se ele percebia em mim um espírito inquiridor que poderia se desenvolver a serviço do Reino a partir da leitura teológica (pretendo pergunta-lo ainda!). Sei que foi nessa ocasião que comecei a ler os livros de Teologia na Biblioteca da Igreja. O primeiro foi o clássico Esboço de Teologia Sistemática, de Alva Bee Langston. E não parou mais...

02) Com três livros escritos e uma ótima bagagem acadêmica, você tem se destacado, sobretudo, pela produção de conteúdo e material que giram em torno do Arminianismo. Além disso, quais outras áreas da teologia que te chamam atenção e que você particularmente ama estudar e escrever?

R= Amo estudar patrística (meu primeiro livro, inclusive, foi nessa área) e a teologia da Reforma. Outra área de interesse é a escatologia. Meu artigo final da Pós-Graduação, inclusive, juntou duas de minhas paixões: patrística e escatologia. Trabalhei as expectativas escatológicas em Policarpo e Papias. A pedido do meu orientador, o Dr. Valtair Miranda – uma das maiores autoridades em escatologia judaico-cristã – meu artigo foi publicado na Revista Pós-Escrito, publicação eletrônica da Faculdade Batista do Rio de Janeiro. Inclusive, após a publicação de Jamais Perecerão, deve pintar uma obra introdutória sobre Apocalipse, no ano que vem...

03) Por muito tempo, os cristãos brasileiros desconheciam a teologia arminiana, em geral. Aconteceu que, com redescobrimento, ou melhor, a ênfase por conhecer,  traduzir livros e materiais sobre o arminianismo no Brasil, houve uma aproximação entre os irmãos de variadas tradições evangélicas. Por exemplo, o arminianismo favoreceu a frequência do diálogo entre metodistas, assembleanos e outros irmãos de outras denominações. Como Batista que é, você tem sentido esse impacto? Se sim, como tem sido essa experiência e na sua opinião, qual fator principal da teologia arminiana tem favorecido este diálogo que viabiliza tanto a comunhão, a unidade e a tolerância?

R= Minha denominação em particular, é arminiana. Os batistas brasileiros são arminianos de maneira geral, mas rejeitam o rótulo. Dizem: “Não somos calvinistas nem arminianos, somos bíblicos”. Esse padrão repete o modelo dos arminianos batistas norte-americanos, como por exemplo, Henry Clarence Thiessen (no passado) e Norman Geisler (presentemente). Alguns batistas, como Roger Olson, não têm problemas em assumir sua herança soteriológica. Eu também não tenho. Se os batistas calvinistas não têm, por que eu deveria ter? Os batistas dos EUA, em especial na Convenção do Sul, estão divididos entre calvinistas e não-calvinistas (arminianos). Aqui a realidade é outra. Há alguns batistas calvinistas de renome, mas são poucos comparados ao número de pastores batistas arminianos dentro da denominação. Contudo, tenho sido convidado muito mais frequentemente para ministrar em Assembleias de Deus sobre o assunto do que no meio batista. Talvez pela postura de querer “ser bíblico” e não seguir “doutrinas de homens”. Um purismo desnecessário. E tem sido uma alegria muito grande comungar com servos de Deus de outros arraiais denominacionais. O próprio espírito de tolerância arminiano promove essa troca. Com algumas desonrosas exceções (em especial nas redes sociais), aqueles que se permitem influenciar pela soteriologia de Armínio, são também influenciados pelo seu espírito pacifista.

04) Seu recente livro escrito:  "Jamais Perecerão", aborda um dos assuntos mais polêmicos do cristianismo ao longo dos séculos. Que tal contar-nos um pouco sobre elaboração desse trabalho? Como surgiu a ideia de lançar um livro sobre esse tema? Levando em consideração que o ponto de vista que você defende no livro, não é encarado com bons olhos pela maioria dos cristãos no Brasil, qual a sua expectativa com relação à reação do público com seu livro e quais conselhos você dá para aqueles que creem diferente de você e que vão lê-lo?

R= Essa obra surgiu de um questionamento em sala de aula a respeito do pensamento de Martinho Lutero sobre o assunto. Eu estava falando sobre a teologia de Martinho Lutero em uma aula de História do Cristianismo, e por fim, tornou-se uma aula de exegese de textos selecionados. Eu discordo de que o tema que eu abordo no livro seja visto com maus olhos pela maioria dos evangélicos brasileiros. Eu acrescentaria “arminianos” à “evangélicos”. Sim, a visão que eu defendo é minoritária entre os arminianos. Mas é a visão majoritária dos batistas, e também defendida pelas igrejas calvinistas. Creio que há um equilíbrio neste ponto. O meu conselho para os que irão ler a obra e não defendem o mesmo ponto de vista é: seja bereano. Leia de coração aberto e confira se as Escrituras são assim mesmo. E vai outro conselho, em especial, para quem critica antes de ler: leia primeiro.

05) Sobre debates na área da soteriologia, as redes sociais têm facilitado bastante esse tipo de prática. Algumas pessoas usam-na de forma sensata para expor, explicar e dialogar. Já outras, usam-na com o objetivo de se auto-promover, propagar contendas, etc. Como você se posiciona em relação a essa repercussão no ambiente virtual?

R= Eu busco evitar pessoas e páginas que promovem contendas ao invés de instrução sadia e em amor. Eu apenas evito aproximação.

06) Atualmente, muito se fala na doutrina do amor de Deus. Há quem escreva sobre a intensidade e a extensão desse amor, principalmente os arminianos. Você não poderia ficar de fora não é mesmo?  Na sua perspectiva, o que a Bíblia revela sobre "Amor de Deus e o Deus de amor"?

R= Entendo que o amor é um atributo de Deus tão importante quanto os outros, mas não menos ou mais importante. A Bíblia diz que Deus é amor, mas Deus também é Santo e justo. Um Deus verdadeiramente amoroso ama com amor salvífico todas as suas criaturas, mas pode condená-las por ser justo, caso não correspondam. Qualquer coisa menor do que isso lança sobre o amor de Deus terríveis sombras.

07) Sobre sua devoção ao Estudo da Bíblia, gostaríamos de saber um pouco do seu relacionamento com a Palavra de Deus. Sendo assim, nos conte qual livro da Bíblia você gosta mais de ler/estudar. Qual personagem dela (além de Jesus) te inspira na caminhada cristã e nos cite o nome de um teólogo que teve grande influencia na sua formação acadêmica.

R= Depois de Jesus Cristo, o personagem bíblico que mais admiro é Paulo. Ultimamente tenho lido/estudado mais o livro do Apocalipse, mas amo os Evangelhos e os Salmos. Amo a Bíblia inteira (rs). Em minha opinião, o maior teólogo da Igreja de todos os tempos foi Agostinho. Sua influência permeia todas as tradições cristãs.

08) Falando em teólogo, Jacó Armínio foi sem dúvida, um excelente exegeta das Escrituras. Além de respeitoso e eloquente, Armínio se destaca pelas várias virtudes que cultivou ao pés do SENHOR. Qual delas te chama mais atenção, quando você está lendo uma obra ou texto dele?

R= Certamente o espírito pacificador e o tom e irênico, mesmo diante da oposição.

09) Como dinâmico que é, acredito que ainda contribuirá muito para a teologia bíblica. Em relação ao 'futuro', você tem alguma coisa que queira realizar? Irá continuar escrevendo? Algo que possa nos revelar?

R= Tenho muitos objetivos. Pastoreei uma Congregação (2011-2012) e depois servi em alguns ministérios auxiliares. Pretendo retomar a experiência do pastorado titular de uma Igreja. Tenho orado para que Deus me direcione nesse sentido. Como escritor, estou rabiscando algo sobre o livro do Apocalipse. Acredito que sairá em 2018. Pretendo ainda dar continuidade à minha carreira acadêmica, iniciando o mestrado em Teologia. Buscando no Senhor a Sua vontade para minha vida.

10) Por fim, gostaríamos que desse uma palavra de encorajamento aos leitores que admiram seu trabalho e aos seguidores da Esquina da Teologia Pentecostal.

R= Galera, vamos buscar a cada dia conhecer mais a Bíblia e a Teologia. Mas que isso aumente a nossa piedade e nos aproxime mais de Deus. Que o conhecimento seja razão para uma vida santa e madura, aplicando no dia-a-dia aquilo que aprendemos na Palavra (Tiago 1.22-25). Do contrário, de nada valerá...

5 de janeiro de 2017

Romanos 9 ensina a Predestinação Calvinista?


Por Jack Cottrell

PERGUNTA: Eu tenho um amigo que argumenta que a história de Jacó e Esaú suporta a doutrina calvinista da predestinação. Porém, Gênesis 25. 27-34 diz que Esaú perdeu sua primogenitura por vendê-la para Jacó. Assim, parece claro que não foi por eleição de Deus, mas por opção de Esaú. Como é que este texto é mal interpretado por aqueles que ensinam este ponto de vista da predestinação?

RESPOSTA: O uso de Jacó e Esaú para apoiar a visão calvinista da eleição (ou predestinação) não se baseia no relato de Gênesis, mas em uma falsa interpretação de Romanos 9.10-14, que diz: "E esse não foi o único caso; também os filhos de Rebeca tiveram um mesmo pai, nosso pai Isaque. Todavia, antes que os gêmeos nascessem ou fizessem qualquer coisa boa ou má — a fim de que o propósito de Deus conforme a eleição permanecesse, não por obras, mas por aquele que chama — foi dito a ela: "O mais velho servirá ao mais novo". Como está escrito: "Amei Jacó, mas rejeitei Esaú". (NVI)

Calvinistas acham que o capítulo inteiro ensina a doutrina da eleição incondicional para salvação. Assim como Deus escolheu Abraão, ele escolheu o filho de Abraão, Isaque, ao invés de Ismael, para a salvação (9.7-9). Da mesma forma que Deus escolheu Jacó ao invés de Esaú para a salvação (9.10-14). Da mesma maneira que Deus escolheu ter misericórdia de Moisés, mas endurecer a Faraó (9.15-18).

Interpretado desta forma, o nono capítulo de Romanos torna-se um dos principais textos-prova do Calvinismo para a sua doutrina da predestinação incondicional. O problema, porém, é que esta é uma completa incompreensão e má interpretação de todo o capítulo, e de toda a seção de Romanos 9-11.

É um fato que, em Romanos 9, Paulo está afirmando eleição incondicional. Isto é, Deus realmente escolheu incondicionalmente Abraão e nenhum outro, como o pai fundador de Israel. Ele de fato escolheu incondicionalmente Isaque em vez de Ismael, e Jacó em vez de Esaú. Moisés e o Faraó são mais uma ilustração da soberania de Deus na escolha de quem quer.

O problema com a visão calvinista, porém, é este: Romanos 9 não está falando de eleição para a salvação, mas de eleição para serviço. A questão não é a salvação pessoal, mas papéis de serviços para realizar o plano de Deus, de trazer a redenção a este mundo pecaminoso. [O que o contexto quer dizer]  é que Deus tem o direito de escolher e usar quem ele deseja, a fim de realizar seus propósitos. Este destinou aplicar especificamente à nação de Israel.

Por que Paulo (sob a influência do Espírito) vê o ajuste para discutir esta questão neste momento na carta aos Romanos? Ele acaba de explicar, nos capítulos 1-8, essa maneira que a salvação de Deus é pela graça mediante a fé, e não pelas obras da lei (03:28), isto é, não pelo o quão bem alguém mantém o seu código de leis. Isto é verdadeiro tanto para judeus, quanto gentios. Em relação ao caminho da salvação, Deus não faz distinção entre judeus e gentios (ver especialmente os capítulos 2 e 3).

O conteúdo de Romanos até o capítulo 8 é um desafio direto à crença comum dos judeus dos dias de Paulo, que tinham um caminho interno especial para a salvação. Afinal, eles não eram os escolhidos de Deus? Se assim for, isso não significa que de alguma forma, todos os judeus circuncidados que detém alta a Lei de Moisés, será salvo (2: 17-29)?

Esta suposição, diz Paulo, é absolutamente falsa. O problema é que os judeus estavam confundindo eleição para serviço, com eleição para salvação. Eles criam que, porque Deus os tinha escolhido como os meios pelos quais "todas as famílias da terra seriam abençoadas" (Gn 12: 3), Ele simplesmente  também os escolheu, como judeus, para a salvação. Mas agora eles ouvem Paulo dizendo: "Não! Os judeus não têm um único caminho para o céu. No Dia do Juízo, eles serão tratados como todos os outros."  Então agora eles estão pensando:  "Isso não é justo! Deus nos conduziu,  dando-nos promessas que ele nunca quis cumprir, e agora vai voltar com a sua palavra! Onde está a justiça?"

Assim, em Romanos 9, Paulo está defendendo a justiça de Deus nas suas relações com os judeus. A Palavra de Deus não falhou (9.6 a). Quando Deus diz que serão salvos somente os judeus que confiam nas promessas de Deus, como seu pai Abraão fez, ele não vai voltar suas promessas originais feitas a Israel. Sua escolha da nação como um todo não era uma garantia de salvação de qualquer indivíduo judeu. Deus estava simplesmente escolhendo a nação, como tal, como sendo o meio para trazer o Salvador ao mundo (9: 5). E Deus certamente tem o direito soberano de utilizar qualquer indivíduo ou grupo que ele escolhe para tal finalidade, sem qualquer promessa de salvação pessoal está sendo anexada.

Este é o ponto da passagem crucial, 9: 14-18: "E então, que diremos? Acaso Deus é injusto? De maneira nenhuma! Pois ele diz a Moisés: "Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão". Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus. Pois a Escritura diz ao faraó: "Eu o levantei exatamente com este propósito: mostrar em você o meu poder, e para que o meu nome seja proclamado em toda a terra". Portanto, Deus tem misericórdia de quem ele quer, e endurece a quem ele quer." [NVI]

A linguagem de misericórdia e compaixão que é usado aqui nunca é limitado na Bíblia para salvação [pessoal]. Ela é frequentemente usada para se referir às bênçãos temporais e privilégios que Deus concede a indivíduos. (Por exemplo, Paulo diz que Deus tem mostrado a misericórdia dele, escolhendo-o para ser um apóstolo: 1Co 7:25; 2 Cor. 4: 1.). Aqui em Romanos 9, o principal exemplo de alguém escolhido por Deus para o serviço, sem também escolhê-lo para a salvação, não é outro, senão o Faraó (9:17). Deus tanto "teve misericórdia" sobre ele, escolhendo-o para um papel crucial no parto da nação de Israel, e também o  "endureceu", a fim de realizar a mesma finalidade.

Para a evidência exegética que apresentei acima, ver meu comentário sobre Romanos, publicado pelo College Press; e veja também o meu ensaio: "Faraó como um paradigma para Israel em Romanos 9:18," encontrado online em vários lugares incluindo: http: //evangelicalarminians.org/wp-content/uploads/2013/03/Cottrell.-Romans-9.18. pdf. Eu particularmente lhe exorto a ler o último.

Assim como muitos israelitas eram culpados de interpretarem mal o propósito de Deus para incondicionalmente chamar sua nação para ser seu povo especial, assim são os calvinistas culpados de má interpretação da Palavra de Deus aqui em Romanos 9. Não há absolutamente nenhum apoio neste capítulo, para a falsa doutrina da predestinação incondicional de salvação.

Fonte: http://jackcottrell.com/uncategorized/does-romans-9-teach-calvinist-predestination/.

Tradução: Everton Edvaldo.

Deus ama os pecadores?


Por William Lane Craig

"Parece-me bastante simples para provar que Deus, se Ele existe, deve ser Todo-amoroso. Deus, por definição, é o maior ser concebível. Se houvesse qualquer coisa que você poderia conceber maior que Deus, então, que seria Deus! Assim, muçulmanos e cristãos concordam que, necessariamente, Deus é o maior ser concebível. Agora, além de ser Todo-Poderoso e Onisciente, o maior ser concebível também deve ser moralmente perfeito. Isso significa que Deus deve ser Todo-amoroso. Pois é, obviamente, moralmente melhor para ser Todo-amoroso que não. Especificamente, é melhor amar os outros incondicionalmente, imparcial, e universalmente, em vez de meramente amar condicionalmente, parcialmente ou de forma seletiva. O que você acha de um pai que diz aos seus filhos: "Se você medir meus padrões e fazer o que eu digo, então (e só então) eu vou te amar"? As pessoas que tiveram os pais como esse, que não as amou incondicionalmente, conhecem as cicatrizes emocionais que eles carregam como resultado. Como o maior ser concebível, o ser mais perfeito, a fonte de toda a bondade e amor, o amor de Deus deve ser incondicional, imparcial e universal. Portanto, Deus, como um ser perfeito, deve ser todo-amoroso."

Agora, isso é exatamente o que a Bíblia afirma. A Bíblia diz:

'Deus é amor... Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas que Ele nos amou e enviou seu Filho para ser o sacrifício pelos nossos pecados (I João 4.8, 10).'

Ou ainda diz:

'Deus mostra Seu amor por nós em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós (Romanos 5.8).'

Jesus ensinou o amor incondicional de Deus para os pecadores. Vemos isso em suas parábolas sobre o filho pródigo e da ovelha perdida, na sua prática de comunhão de mesa com o imoral e impuro e, em suas palavras como as do Sermão da Montanha. Ele disse, por exemplo:

'Ouvistes que foi dito: "Amarás o teu próximo e odeie o seu inimigo." Mas eu vos digo, amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus ; pois Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e envia a sua chuva sobre os justos e sobre os injustos. Porque, se amais os que vos amam...O que mais você está fazendo do que outros? Não fazem os gentios fazer o mesmo? É, portanto, deve ser perfeito, como o vosso Pai celeste é perfeito. (Mateus 5.43-48)

O amor do Pai Celestial é imparcial, universal e incondicional."

Fonte: http://www.reasonablefaith.org/does-god-love-evil-doers. Tradução livre por Everton Edvaldo

2 de janeiro de 2017

Deus realmente odeia os réprobos?


Por Everton Edvaldo

Introdução: Não é de hoje que o entendimento acerca da extensão do amor de Deus tem sido um tema polêmico. Na ânsia de explicar à luz da Bíblia, aquilo que Deus sente em relação às suas criaturas, muitas pessoas tem sido levadas a uma má compressão no que diz respeito ao amor de Deus, afirmando que Deus realmente odeia aqueles que não irão para o céu. É comum encontrar na Internet, pessoas simpatizantes desse entendimento, em sua maioria , composta por calvinistas. Neste artigo, pretendo mostrar através das Escrituras, que esse entendimento não é autêntico quando levado ao extremo. Desenvolverei  alguns argumentos mostrando que Deus ama todas as pessoas do mundo, sem exceção. Também irei analisar alguns textos bíblicos utilizados pelos disseminadores do "ódio divino", e por fim, apresentarei a visão de alguns calvinistas que não negaram que Deus ama todas as pessoas do mundo. Boa leitura!

UM PANORAMA DO ASSUNTO NA PESPECTIVA POPULAR CRISTÃ

Antes de desenvolver o artigo, gostaria de apresentar como muitos enxergam essa questão do "amor e ódio de Deus pelas suas criaturas". Afinal, Deus também ama aqueles que não irão para o céu ou Ele só ama os Eleitos?

Atualmente, principalmente na Internet, podemos encontrar quatro tipos de respostas para essa pergunta:

- Deus não odeia ninguém. Deus ama a todos  (réprobos e Eleitos) salvivicamente.

- Deus ama a todos. Aos réprobos, Ele ama com um amor criacional e afetivo. Aos Eleitos, Ele ama salvivicamente.

-Deus odeia os réprobos condicionalmente e ama os Eleitos incondicionalmente.

- Deus ama e odeia os réprobos ao mesmo tempo. Quanto aos Eleitos, Deus não os odeia  e  porém os ama salvivicamente.

AMOR DE DEUS: UMA DOUTRINA CRUCIAL NAS ESCRITURAS SAGRADAS

É impossível usar a Bíblia para negar que Deus é amor, por natureza e essência. O amor de Deus é descrito nas Escrituras Sagradas como uma das coisas mais fantásticas que existem. 

A Bíblia revela Deus como sendo amoroso em todos os aspectos. Primeiramente consigo mesmo, com sua justiça, caráter, nome e pessoas da Trindade. Em segundo lugar, encontramos Deus amando tudo quanto criou, anjos, lugares e pessoas. Em terceiro lugar, Deus é amoroso no modo como relaciona-se com os seres criados à sua imagem e semelhança, e isso inclui tanto o derramamento de bênçãos espirituais e materiais como até mesmo na aplicação de "castigos" e disciplinas.

Para Champlin: 

"O amor, naturalmente é um atributo de Deus; mas permeia todas as coisas, de tal modo que é legítima a declaração que 'Deus é amor'. (CHAMPLIN, V.1. p. 140).

A questão é: "como um Deus amoroso consegue sentir ódio por algumas das suas criaturas?" Como ele pode em dado momento, abrir mão desse atributo interno e eterno para com algumas pessoas?

Primeiro vamos esclarecer que tipo de ódio seria esse que Deus sente, na pespectiva dos defensores do "ódio divino."

ÓDIO HUMANO X ÓDIO DIVINO

Em essência, o ódio nunca foi um termo adequado para descrever algo bom. Além da palavra trasmitir uma conotação forte, ela aponta para um  sentimento que desencadeia numa série de males tanto para quem o sente quanto para quem é alvo desse sentimento. Estamos falando do ódio como um sentimento humano e como sentimento humano, o ódio é maligno,  carnal e altamente nocivo.

Os defensores do ódio divino, ao desconsiderarem o termo na Bíblia como um antropopatismo, e ao acreditarem real e concretamente que Deus tem ódio, acabam fazendo uma distinção entre um ódio humano e um ódio divino afim de não manchar o caráter de Deus. Isto é,  para eles, o ódio que Deus sente não é o mesmo ódio que o homem sente. Dessa forma, o ódio divino é visto por eles como santo, justo e bom já que logicamente flui da natureza de  Deus que é boa, perfeita e pura.

Porém, devemos compreender que o homem só consegue descrever com plena certeza aquilo que sente verdadeiramente, e aquilo que não sente, o homem descreverá com imperfeição ou atribuirá a alguém diminuindo ou aumentando a conotação de um determinado termo. 

Isto significa dizer que o homem não tem um entendimento claro do que seja um "ódio divino", a não ser por dedução a partir do caráter de Deus.


Tal tipo de entendimento, apesar de parecer ortodoxo, tem causado muitos problemas na mente de alguns cristãos. 

Isto porque uma coisa é alguém dizer que "Deus odeia os pecadores" como um antropopatismo, em forma de figura de linguagem (conforme fazem os autores bíblicos e alguns teólogos). Outra coisa, é alguém afirmar que "Deus odeia os pecadores" no sentido de que Deus não ama todos os pecadores e que o ódio faz parte da essência divina na mesma proporção que o amor. Já vi muitos até mesmo afirmando que o ódio é um dos atributos de Deus. Ora, tal afirmativa é um absurdo! Em nenhum lugar das Escrituras é ensinado que Deus é ódio, por outro lado, a Bíblia é bem clara ao dizer que Deus é amor. 

Ao longo do artigo, veremos que "ódio divino" não existe concretamente em Deus e não passa de um termo usado pelo homem na tentativa de chegar perto daquilo que Deus sente diante do estado pecaminoso em que os pecadores se encontram.

COMO ENTENDER AS PASSAGENS BÍBLICAS QUE AFIRMAM QUE DEUS ODEIA DETERMINADAS PESSOAS?

Bem, muitos defensores do  "ódio divino", recorrem à Bíblia para apoiar suas interpretações. Vejamos aqui algumas delas e o que significam.

"O SENHOR põe à prova ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina.” (Salmos 11:5).

“Porque o SENHOR abomina o perverso, mas aos retos trata com intimidade.” (Provérbios 3:32).

Provérbios 6.16-19, diz que a alma de Deus abomina “o que semeia contenda entre irmãos”.

Salmos 5:5 – Os loucos não pararão à tua vista; odeias a todos os que praticam a maldade.

Malaquias 1.3- "... aborreci a Esaú..."

Romanos 9. 13- "Como está escrito: Amei Jacó e aborreci Esaú"

Entendendo o significado dos termos.

Dependendo da tradução, encontraremos em algumas Bíblias o termo "aborrecer" ao invés de "odiar", o que facilita bastante o entendimento da passagem quando acompanhado de uma exegese do contexto. Nas passagens do Antigo Testamento que abordamos acima, os autores bíblicos usaram dois termos hebraicos que foram traduzidos como "ódio", "aborrecimento" ou "abominação."

śānē, raiz primitiva; odiar:- o que aborrece, inimigo,  quem odeia; detestável. O termo ainda significa: ter aversão a, ser hostil, destestar alguém ou alguma coisa. Na raiz intensiva, a palavra denota uma pessoa que irradia ódio.

O outro termo é tô'ēbhah que significa alguma coisa odiosa (moral), uma abominação e num sentido mais amplo denota uma coisa ofensiva.

Explicação.

Primeiramente, devemos entender que a Bíblia não é livro que contém  uma linguagem indecifrável a ponto de ninguém entender sua linguagem. Nas Escrituras, os escritores se utilizaram da linguagem disponível em sua época para expressar aquilo que Deus queria falar. É verdade que toda a Escritura é inspirada por Deus, entretanto, esse fato não significa que devemos interpretar literalmente tudo quanto está escrito nela. As passagens bíblicas estão cheias de figuras de linguagens que são utilizadas com o objetivo de tornar a mensagem divina  compreensível aos seus destinatários. Entre essas figuras de linguagens, temos duas que são conhecidas como antropopatismo e antropomorfismo.

Antropopatismo. 

Segundo Champlin:

"Antropopatismo vem do grego anthropos, homem e pathein, sofrer. Atribuição de sentimentos humanos a qualquer coisa não-humana, como objetos inanimados, animais, poderes da natureza, seres espirituais e Deus." (CHAMPLIN V.1. p. 200). 

A Bíblia está cheia de antropopatismos, isto é, os autores bíblicos atribuindo emoções  humanas a Deus (cf Gn 6.6; 8.21; 11.5-6; Pv 24.8, Zc 1.2; Ef 4.30; Rm 1.18; Cl 3.6; Hb 3.11.). Um exemplo usado por Champlin é o da ira de Deus. 

Segundo ele:

"Quando dizemos que Deus se ira, estamos praticando a falácia patética, a menos que qualifiquemos tal uso com explicações. Parece pelo menos razoável supor-se que Deus não se ira no mesmo sentido em que os fazem os homens." (CHAMPLIN V.1. p. 200).

Sentimentos como "ira", "ciúmes", "arrependimento", entre outros, também são figuras antropopáticas quando atribuídas a Deus.

Antropomofismo.

Antropomofismo é quando os autores bíblicos atribuem formas humanas a Deus. "Vem do grego, antropomorfos -"de forma humana". Atribuição de qualidades humanas ao ser divino, ou a idéia de que Deus ou os deuses têm alguma espécie de formato, similar à anatomia humana." (CHAMPLIN V.1. p. 199). Exemplo: quando Deus é representado na Bíblia como tendo forma humana, com braços, pés, mãos, coração, etc.

Tratando sobre o "Ódio divino", R.N. Champlin explica:

"O termo ódio é antropomórfico, que devemos entender metaforicamente, e não em termos reais do ódio humano. Penso que essa é a resposta certa. Os homens aplicam às palavras de Deus sentidos que lhes são significativos, por causa de suas próprias naturezas emocionais; porque é difícil imaginarmos Deus sujeito ao mesmo tipo de natureza emocional que o homem têm." (CHAMPLIN Vol 4, p. 578).

Nesse sentido, o ódio não é algo concreto em Deus como o amor, mas apenas um sentimento humano que os autores bíblicos atribuíram a Deus. Foi o termo que eles acharam mais próximo da insatisfação que Deus sente em relação ao estado em que o pecador se encontra. 

Isso de forma alguma anula o amor real de Deus por tais pessoas, isto é, não é um sentimento em oposição ao amor divino por elas. O que faz Deus sentir essa insatisfação por tais pessoas nada mais é do que primeiramente o amor por sua própria justiça. Sim, Deus ama a si mesmo e esse tipo de amor próprio faz com que Ele negue-se a compactuar com qualquer coisa que seja contrária à sua natureza.

Tais versículos deixam claro que Deus está insatisfeito tanto com a iniquidade quanto com o iníquio. A mensagem de Deus para o homem é: "não me agrado do estado em que você está nem dos atos que você prática."

Os defensores do "ódio divino" como algo concreto em Deus e não apenas uma figura de linguagem recorrem à seguinte pergunta: 

"Se os autores bíblicos não quisessem que seus leitores interprepassem o ódio como algo literal em Deus, porque não usaram um termo mais suave ou até mesmo outro termo para dizer o que disseram?"

Ora, não é sensato exigir tal coisa dos autores bíblicos, principalmente quando se trata de judeus que viveram há mais de 2.000 anos. Até mesmo hoje em dia é difícil para um judeu radical admitir que Deus ama outros povos a não ser o povo de Israel, quanto mais no período bíblico.  

Então alguém poderá questionar: "Mas não foi o Espírito Santo que inspirou estes homens, porque ele não os orientou a usar outro termo?" Óbvio que sim! O Espírito Santo não hesitou em se comunicar dessa forma e não errou em ter feito assim. Devemos entender que o problema não está na escrita, mas sim na interpretação literal das passagens. 

Outro ponto interessante é que a revelação bíblica ao longo dos séculos, foi progressiva. Hoje sabemos sem dificuldade alguma que Deus amou o mundo a partir de toda a Bíblia e não apenas de partes isoladas dela. Por isso que podemos afirmar com precisão que Deus ama os pecadores, pois a Bíblia assim o faz! 


Geralmente, os defensores do ódio divino afirmam que Deus ama os Eleitos incondicionalmente, mas odeia os réprobos condicionalmente.

Entretanto, existe um problema com esse tipo de entendimento. Acompanhe meu reciocínio:

Primeiro, se Deus ama uma pessoa incondicionalmente, ou seja, embora a pessoa não mereça, Ele a ame, porque não posso concluir que Deus ama a todos, visto que ninguém merece?

Segundo, se Deus odeia uma pessoa condicionalmente, ou seja, o pecado é a razão pela qual Ele a odeia, porque não posso concluir que Deus odeia a todos, visto que todos pecam?

Não tem para onde escapar, ou Deus ama a todos ou Ele não ama ninguém.

Alguns esclarecimentos.

Ao defender que Deus não sente ódio de fato, não estou insinuando que Deus esteja satisfeito com o estado em que os réprobos se encontram. O amor de Deus pela humanidade não abre espaço para que esta peque e viva uma vida imoral.

Também não nego que a justiça de Deus chegará sobre os que vivem debaixo do amor de Deus, mas que recusam se arrepender. O amor não deixa o erro impune.

SOBRE JOÃO 3.16

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna."

Não quero tornar o artigo cansativo, nem é de minha intenção fazer uma exegese acurada sobre essa passagem bíblica que sem dúvida é uma das mais belas das Escrituras.

Como podemos ver, não há restrições do amor Deus na frase de Jesus direcionadas para réprobos ou Eleitos. Ele simplesmente declara o amor salvívico de Deus pelo mundo.

Eu posso dizer a qualquer pessoa do mundo que Deus a ama por três motivos, primeiro se ela faz parte do mundo, então ela se enquadra dentro do amor de Deus. Segundo, essa afirmação não mancha o caráter de Deus nem traz complicações para os atributos Dele e por fim, tal declaração é fundamentada exaustivamente na Bíblia. É por isso que Irineu de Lião, teólogo do segundo século afirmou com precisão que: "O Senhor é cheio de misericórdia e compaixão, e ama o gênero humano." (Citado por ROSAS, p. 60).

Alguns até tentam conceituar o mundo de João 3.16 como o mundo dos Eleitos, porém tal interpretação  não se sustenta diante de uma boa exegese.

De acordo com Champlin:

"Este mundo não é o mundo dos Eleitos- mas sim, de todos os indivíduos do mundo,  de todas as épocas, sem exceção alguma. Deus, sendo um ser inteligente, tem consciência da existência deste mundo e ama a todos os homens que nele habitam." (CHAMPLIN V.1 p. 139).

Champlin também entende que os que negam o amor universal de Deus, na verdade não acreditam que Deus seja amor.

"Pontos de vista religiosos modernos, que exageram a vontade divina ou seu senso de vingança, às expensas de seu amor, também contradizem o quadro que o N.T. faz dele. Aqueles que crêem em 'reprovação ativa' e em amor limitado; Deus amaria não o mundo,  mas exclusivamente aos eleitos, na realidade não acreditam que Deus seja amor. Aqueles que vêem apenas retribuição e vingança no julgamento divino, ignorando passagens como o primeiro capítulo da epístola aos Éfesios e as passagens de 1 Ped. 3.18-20 e 4.6, ou então pervertendo-as, na realidade não podem dizer que 'Deus é amor." Até mesmo o juízo de Deus é uma medida de seu amor, porque o juízo opera através do amor." (CHAMPLIN V. p. 140).

CALVINISTAS QUE CREEM QUE DEUS AMA A TODOS

Que Deus ama a todos é uma verdade defendida inclusive por muitos calvinistas.

Explicando como Como Deus Ama o Mundo em João 3.16, John Piper é bem claro:

"A questão diante de nós hoje é como Deus ama o mundo de acordo com João 3:16. Jesus disse: "Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu Filho únigenito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." É muito importante que nós deixemos a Bíblia defina o que quer dizer por amor em cada passagem . Não devemos trazer todas as nossas suposições sobre o amor e fazer a Bíblia dizer o que pensamos que o amor deve ser. Algumas grandes coisas parecem óbvias desse versículo:.
1. Deus ama o mundo, ou seja, Ele ama a grande totalidade dos caídos, seres humanos pecadores. 
2. O amor é de tal natureza, intensidade e magnitude que levou Deus a dar seu Filho para morrer pelo mundo (João 10:17-18). 
3. Um propósito incontestavelmente claro e efetivo desse amor, e dessa dádiva do Filho, é que "todo aquele que Nele crê não pereçará, mas tem a vida eterna." Em outras palavras, este amor abre uma porta real, para que todo aquele que crê no Filho entre na vida eterna.
4. Portanto, esse amor é indiscriminado. Pode ser declarado, prometido e aplicado a todos, sem exceção. Porque o que esse amor diz é: "Se você crer no meu filho, darei a você a vida eterna. Eu posso fazer isso justamente porque o meu filho cancelou as dívidas de todos os que crêem. Se você crer, os teus pecados são cancelados. Meu amor por você é este: Eu dei meu Filho, para que confiar Nele seja a única condição para viver comigo para sempre ". 
Para Cada Ser Humano: "Deus ama você". 
Podemos, portanto, dizer a cada ser humano: "Deus ama você. E é assim que Ele te ama: Ele deu seu Filho para morrer, de modo que se você viesse a crer, seus pecados seriam perdoados e você teria a vida eterna ". 
Isso é o que o amor de Deus significa, promete e faz em João 3:16." (http://mortoporamor.blogspot.com.br/2010/12/john-piper-sermao-sobre-joao-316-parte_12.html?m=1).

Louis Berkhof (1873-1957) falando sobre O Amor de Deus, explica:

"Desde que Deus é absolutamente bom em Si mesmo, Seu amor não pode achar completa satisfação em nenhum objeto falto de perfeição absoluta. Ele ama as Suas criaturas racionais por amor a Si mesmo, ou, para expressá-lo doutra forma, neles Ele se ama a Si mesmo, Suas virtudes, Sua obra e Seus dons. Ele nem mesmo retira completamente o Seu amor do pecador em seu estado pecaminoso atual, apesar de que o pecado deste é uma abominação para Ele, visto que, mesmo no pecador, Ele reconhece um portador da Sua imagem. Jo 3.16; Mt 5.44, 45." (http://mortoporamor.blogspot.com.br/2010/07/louis-berkhof-o-amor-de-deus.html?m=1).

Explicando o Porque Deus amou o mundo, João Calvino diz:

"Cristo abre a primeira causa e, por assim dizer, a fonte da nossa salvação, e faz isso de forma que nenhuma dúvida possa permanecer; pois nossa mente não pode encontrar repouso tranqüilo, até que cheguemos ao amor não merecido de Deus. Como toda questão sobre nossa salvação não deve ser buscada em qualquer outro lugar a não ser em Cristo, então devemos ver de onde Cristo veio até nós, e por que Ele foi oferecido para ser nosso Salvador.  Ambos os pontos são distintamente declarados para nós: a saber, que a fé em Cristo traz vida para todos, e que Cristo trouxe vida, porque o Pai Celestial ama a raça humana, e deseja que eles não venham a perecer."

Sobre  [Ele deu seu Filho unigênito para que todo aquele que Nele crê não pereça], Calvino comenta:

"Como os homens não são facilmente convencidos de que Deus os ama, a fim de eliminar qualquer dúvida, Ele declarou expressamente que somos muito queridos por Deus que, por nossa causa, Ele nem mesmo poupou seu Filho unigênito." (http:/ mortoporamor.blogspot.com.br/2010/09/joao-calvino-1509-1564-comentario-sobre_08.html?m=1).

George Whitefield (1714-1770) discorrendo sobre nosso Amor e o Amor de Deus, afirma:

" ...esse amor não se limita a um grupo particular de homens, mas é imparcial e universal: um amor que envolve a imagem de Deus onde quer que ela seja contemplada, e que se deleita em nada mais do que ver a vinda do Reino de Cristo. Este é o amor com que Jesus Cristo amou a humanidade: Ele amou todos, até mesmo o pior dos homens, como se torna visivel pelo seu choro pelo obstinadamente perverso; mas onde quer que Ele visse, ao menos, o lampejo da semelhança divina, aquela alma Ele amou em particular." (http://mortoporamor.blogspot.com.br/2010/09/george-whitefield-nosso-amor-e-o-amor.html?m=1).

Em notas sobre João 3.16, J. C. Ryle (1816-1900) explica:

[Porque Deus amou o mundo de tal maneira, etc]

"Nosso Senhor, neste versículo, mostra  para Nicodemos outra "coisa celestial". Nicodemos, provavelmente pensava, como muitos judeus, que os propósitos de misericórdia de Deus eram inteiramente confinados ao Seu povo escolhido, Israel, e que quando o Messias surgisse, Ele surgiria apenas para o especial benefício da nação judaica. Nosso Senhor, aqui declara a ele que Deus ama todo o mundo, sem exceção alguma; que o Messias, o Filho unigênito de Deus, é a dádiva do Pai para toda a família de Adão, e que cada um, quer judeu ou gentio, que Nele crê  para a salvação, pode ter vida eterna. - É impossível conceber declaração mais surpreendente para os ouvidos de um rígido fariseu! Um versículo mais maravilhoso não pode ser encontrado na Bíblia! Que Deus amaria um mundo tão perverso como este, e não o odiaria, - que Ele o amaria de modo a prover salvação - que, a fim de prover salvação Ele daria, não um anjo, ou qualquer ser criado, mas o dom inestimável que é o Seu Filho unigênito - para que esta grande salvação fosse oferecida gratuitamente a todo aquele que crê, - tudo, tudo isso é realmente maravilhoso! Isso era certamente uma "coisa celestial." (http://mortoporamor.blogspot.com.br/2011/01/j-c-ryle-1816-1900-notas-sobre-joao-316.html?m=1).

Ryle também diz:

"As palavras, "Deus amou o mundo",
tem recebido duas interpretações muito diferentes. A importância do tema nos dias de hoje torna desejável indicar ambos os pontos de vista de forma completa. 
Alguns pensam, como Hutcheson, Lampe, e Gill, que o "mundo" significa os eleitos de Deus de todas as nações, quer judeus ou gentios, e que o "amor" com o qual se diz que Deus os ama é aquele amor eterno com o qual os eleitos foram amados antes do ínicio da criação, e pelo qual seu chamado, justificação, preservação e salvação final são completamente assegurados.- Essa visão, embora apoiada por muitos e grandes teólogos, não me parece ser o que nosso Senhor queria dizer. 
"O mundo" é, sem dúvida, um nome dado algumas vezes para o "ímpio" exclusivamente. Mas eu não vejo isso como um nome dado aos santos.- Por outro lado, interpretar a palavra "mundo" como “somente os eleitos” é ignorar a distinção que, a meus olhos, é claramente estabelecida no texto entre toda a humanidade e aqueles dessa humanidade que "crêem”. Se o "mundo" significa apenas a porção crente da humanidade, teria sido o bastante dizer: "Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que o mundo não pereça." Mas nosso Senhor não diz isso. Ele diz, "para que todo aquele que Nele crê”. 
Por último, confinar o amor de Deus aos eleitos é tomar uma dura e estreita visão do caráter de Deus, e coloca razoavelmente o cristianismo aberto às acusações que o retratam como cruel e injusto para com os ímpios. Se Deus não tem consideração por ninguém, a não ser Seus eleitos, e não se importa com ninguém além deles, como julgará Deus o mundo? Eu creio no amor eletivo de Deus Pai tão fortemente quanto qualquer um. Eu considero o amor especial com que Deus ama as ovelhas que Ele tem dado a Cristo desde toda a eternidade, como a mais abençoada e confortadora verdade, e de mais alegria e beneficio aos crentes. Eu digo apenas, que não é a verdade deste texto. 
A palavra, na minha opinião, é assim utilizada em João 1:10, 29; 6:33, 51; 8:12; Rom. 3:19; 2 Cor. 5:19, 1 João 2:2; 4:14.  É o mesmo sentimento de "amor" que aparece no Salmo 145:9, em Ezequiel. 33:11, João 6:32, Tito 3:4, 1 João 4:10, 2 Ped. 3:9, 1 Tm. 2:4.  Mas não é menos que um amor real. É um amor que limpa Deus de injustiça no julgamento do mundo." (http://mortoporamor.blogspot.com.br/2011/01/j-c-ryle-1816-1900-notas-sobre-joao-316.html?m=1).


João Calvino (1509-1564) em um dos seus sermões sobre João 3.16 não me parece negar que Deus ame os réprobos.  Ele afirma:

" É verdade que São João diz geralmente que Ele amou o mundo. E por quê? Porque Jesus Cristo se oferece a todos os homens, sem exceção, para ser seu Redentor. Isso é dito, depois no Pacto, que Deus amou o mundo quando Ele enviou seu único filho, mas Ele nos amou, nós (eu digo) que fomos ensinados por seu Evangelho, porque Ele nos reuniu a Ele. 
Assim, vemos três graus do amor de Deus, como nos demonstrou em nosso Senhor Jesus Cristo. O primeiro diz respeito ao resgate que foi comprado na pessoa daquele que deu a si mesmo à morte por nós, e se tornou maldito para nos reconciliar com Deus, seu Pai. Esse é o primeiro grau do amor, que se estende a todos os homens, na medida em que Jesus Cristo estende seus braços para chamar e atrair todos os homens, tanto os grandes quanto os pequenos, e ganhá-los para Ele." (http://mortoporamor.blogspot.com.br/2010/09/joao-calvino-1509-1564-joao-316.html?m=1).

Conclusão: Neste artigo, vimos que não existem boas razões bíblicas para duvidarmos do amor universal de Deus pela humanidade. Deus realmente não odeia os réprobos, pois os ama e deseja sua salvação. Porém, isso não significa que Ele esteja satisfeito com seus pecados. Ele não os aprova e no momento certo, o juízo os alcançará. Que possamos orar pelos que se recusam a acreditar em tais verdades e fazem afirmativas que confundem a mente do povo de Deus.  Que Deus nos ajude em tudo, amém!

Obras consultadas:

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 1991.

ROSAS, Tiago. A mensagem da Cruz. Campina Grande: FACTS, 2016
Bíblia de Estudo Palavras- Chave. Rio de Janeiro: CPAD.

Site consultado:

hzttp://mortoporamor.blogspot.com.br/?m=1 (Acessado em 02/01/2017).