19 de janeiro de 2018

O dom de cura cessou?



Por Everton Edvaldo.

Introdução: Deus cura! Esta é uma verdade ensinada nas Escrituras desde o Gênesis ao Apocalipse. Todavia, os meios pelos quais Deus traz uma cura tanto física quanto espiritual nem sempre ocorrem de forma direta ou da mesma maneira. Na Bíblia, Deus em diversas ocasiões concedeu o dom de cura a homens que lhe serviam. Eles impunham as mãos sobre alguém, ou às vezes, só falavam e a pessoa era curada da enfermidade da qual padecia. Que dádiva não é mesmo? Pois bem, será que esse dom está disponível para os nossos dias? Ou ele só foi distribuído para os apóstolos e seus associados de modo que cessou no I século? Existem relatos que possamos verificar com segurança a manifestação desse dom ao longo da história da igreja? Quais são as principais objeções com relação a esse dom e quais respostas podemos dar a elas? Essas e outras perguntas serão respondidas no desenvolvimento deste estudo! Boa leitura!

I- A MANIFESTAÇÃO DO DOM DE CURA NAS ESCRITURAS:

Conforme já dissemos na introdução, Deus tem o poder de curar. No Antigo Testamento, várias curas foram efetuadas por Ele de modo que Seu nome e majestade pudessem ser engradecidos. Entretanto, é no Novo Testamento que encontramos uma maior manifestação das curas divinas da parte de Jesus em favor das pessoas. A Bíblia diz que Jesus curava multidões. Todavia, o ministério de cura não ficou restrito a Jesus. Ele concedeu essa dádiva aos apóstolos e a seus discípulos que andavam com ele. De modo que quando a igreja foi fundada, milagres e maravilhas eram ministradas sobre a vida das pessoas que eram libertas da sua enfermidade e da opressão maligna.

O tempo foi passando e toda aquela geração de apóstolos que viram o Senhor morreu e há quem ensine que com o fim dessa geração, o dom de cura cessou e não se manifesta mais. Tais pessoas acreditam que Deus cura, mas que o dom não existe mais. O que a Bíblia diz sobre isso? É o que veremos agora.

II- A CONTINUIDADE DO DOM DE CURA:

Primeiro é preciso pontuar que não existe nenhum versículo bíblico que afirme direta ou indiretamente que o dom de cura cessou. Talvez isso já seria suficiente para crermos na sua disponibilidade haja vista que Deus concedeu dons aos homens para manutenção do corpo de Cristo. Entretanto, mais que isso, existem versículos bíblicos que falam claramente a respeito da continuidade do dom de cura no período da igreja.

Vamos começar com Marcos 16.17,18.

"Estes sinais hão de acompanhar aqueles que creem: em meu nome, expelirão demônios, falarão novas línguas, pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados."

Primeiro, é preciso pontuar que não existe restrição de crentes aqui nem de tempo. Longe de apoiar a suspensão do dom de cura, Jesus está dizendo que aqueles que creem vão impor as mãos sobre os enfermos e eles ficarão curados. Se o dom de cura cessou, como fica esta declaração de Jesus?

O segundo versículo se encontra em João 14.11-14.

"Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai e tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, afim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei."

Veja que semelhante a Marcos 16.17,18; Jesus fala tanto em Marcos quanto em João que os que creem poderão fazer estas coisas. Essa palavra é destinada aos crentes indiscriminadamente. Outra coisa que se repete é a referência à seu nome. É no nome de Jesus que podemos fazer todas estas coisas grandiosas. Jesus está dizendo que o que crê nele, fará as obras que ele faz, e outras maiores fará. Uma das obras de Jesus era curar os enfermos. Será que quando Jesus disse que faríamos as suas obras e até maiores, ele estava excluindo a ministração da cura sobre as pessoas? Bem, pelo menos não é isso que encontramos no texto. Então porque concluir que a manifestação do dom de cura cessou?

Escrevendo aos Coríntios, o apóstolo Paulo escreveu:

"A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando um fim proveitoso. Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, a fé, e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar, a outro, operações de milagres, a outro, profecia, a outro, discernimento de espíritos, a um variedade de línguas, e a outro, capacidade de interpretá-las. Mas um só é o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as como lhe apraz, a cada um, individualmente." (1 Coríntios 12.7-11).

Primeiro Paulo está dizendo que a manifestação do Espírito Santo é concedida a cada um visando um fim proveitoso. Ou seja, os dons espirituais existem com uma finalidade na igreja do Senhor. Segundo, é o Espírito quem concede como lhe apraz. Terceiro, ele concede a pessoas. Mais uma vez, não há nenhuma especificação quanto a esses dons estarem restritos a apóstolos e seus associados. Lembre-se que os Coríntios não tinham visto o Senhor e já faziam parte da segunda geração de crentes.

Outra coisa interessante que vale a pena observar é que Paulo usa a expressão: "dons de curar." Veja que aqui se manifesta a multiforme sabedoria de Deus, fazendo-nos lembrar que ele pode usar pessoas de variadas formas. Por isso, a partir de agora, vamos usar essa expressão durante o nosso estudo.

Em Tiago 5.13-16, está escrito:

"Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores. Está alguém doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica de um justo."

Com certeza, a recomendação de Tiago diz respeito a uma das manifestações dos dons de cura (veja também Mc 6.13). Neste caso, através ministração de um presbítero e também por meio da oração. Se é verdade que os dons de cura cessaram, como fica a recomendação de Tiago?

Por fim, em Mateus 7.22,23 está escrito:

"Muitos naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade."

Realizar milagres em nome de Jesus é uma dádiva! O poder sem dúvida alguma vem do alto, mas a ministração neste caso, estava vindo através de pessoas que no Juízo Final serão rejeitadas pelo Senhor. Veja, não são apóstolos, nem seus associados. São pessoas que no nome de Jesus fazem todas estas coisas. Este versículo por acaso não se refere a todas as pessoas que viveriam desde o ministério de Cristo na terra, até o fim da era da igreja? Sim! Isto significa que os dons de realizar milhares, incluindo cura estão disponíveis para serem feitos no nome de Jesus.

III- ALGUMAS OBJEÇÕES AO DOM DE CURA:

Os proponentes da pneumatologia costumam alegar objeções para embasar a ideia de que os dons de cura cessaram no primeiro século. Vejamos aqui algumas:

1. Se o dom de cura ainda existe porque os hospitais estão lotados de enfermos?

Ou seja, os que formulam esta objeção partem do pressuposto errado de que quem tem os dons de cura deviam usá-lo da forma como bem queiram. O problema esta justamente no pressuposto. Os dons de cura não tem a finalidade de serem usados ao bel prazer de quem o possui. Sem falar que ele serve para a manutenção do corpo de Cristo e também a confirmação da mensagem do Evangelho. Então, as circunstâncias em que ele se pode se manifestar são diversas. Os ateus usam um argumento semelhante quando dizem: "Se Deus existe porque ele não acaba com a miséria, guerras e fome no mundo?" Para eles, Deus só é justo, amoroso e bom se dizer tais coisas. Da mesma forma, os proponentes dessa objeção alegam que os hospitais não deveriam estar lotados se o dom de cura ainda existisse. A resposta é simples: o objetivo dos dons de cura não é esse!

Nem o próprio Jesus fez isso! Lembre-se que na passagem da cura do paralítico do tanque de Betesda, "jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos." (João 5.3). Todavia, Jesus só curou um homem que estava enfermo há 38 anos.

Segundo Eurico Bergstén:

"Esse dom não significa uma capacidade de curar quando e como a pessoa quer, porém, é sempre uma transmissão de poder do Espírito Santo. Por isso, é indispensável que o portador do dom esteja ligado a Cristo e siga a sua direção..." (Apud RENOVATO, p. 48).

O fato de existir hospitais lotados não significa que o dons de cura não estejam presentes na vida de quem Deus concede. Da mesma forma que a existência de guerras, fomes e miséria não comprova a inexistência de Deus.

2. Timóteo tinha uma enfermidade, porque Paulo não usou os dons de cura? 

Recentemente vi esse tipo de objeção nas redes sociais. Segundo o proponente desta objeção, já nos dias do apóstolo Paulo, os dons de cura estavam começando a cessar.

Bem, o fato de Paulo não ter curado Timóteo não prova que o dons de cura começam a cessar nos dias dele. Primeiramente, é preciso pontuar que o apóstolo Paulo tinha os dons de cura (Atos 14.3,8-10; 19.11,12; 28.8,9). Todavia, isto não significa que ele tivesse que curar todos que estivessem enfermos.

Este é o caso por exemplo de Trófimo. O apóstolo Paulo diz que o deixou doente em Mileto (2 Timóteo 4.20) e também de Timóteo. A Timóteo, ele diz: "Não continues a beber somente água, usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades." (1 Timóteo 5.23). No caso de Timóteo, Paulo viu que sua recomendação já bastava. Existem enfermidades que não precisam de uma intervenção divina, um tratamento medicinal já é o suficiente. Este é um ponto que gostaria de falar. Deus tem outros meios de cuidar da nossa saúde e uma delas é a medicina. Deus pode usar a medicina também para tratar das nossas enfermidades. Concordo com a declaração de fé das Assembleias de Deus quando afirma: "A oração pelos enfermos não entra em conflito com o tratamento médico." (SOARES, p. 182). O próprio Paulo tinha entre os seus colaboradores um médico (Cl 4.14).

Devemos entender que Deus nem sempre se manifesta de forma extraordinária na nossa vida. Isso não quer dizer que não os dons de cura tenham cessado. Deus tem os seus meios de trabalhar!

O fato que não podemos concluir a partir desse caso que os dons de cura começaram a cessar já nos dias do apóstolo Paulo haja vista que a que a Bíblia nem menciona que ele tentou curar Trófimo e Timóteo e não foi bem sucedido.

3. Não existem indícios históricos de que os dons de cura continuaram após o I século da era cristã.

Essa objeção é clássica! Os proponentes dela vendo que não tem como provar biblicamente que os dons de cura cessaram apelam tendenciosamente para o testemunho histórico. Porém, será mesmo que a história não está a favor da continuidade desses dons? 

Não quero ser exaustivo neste ponto, mas vamos recorrer alguns registros históricos. Segundo Norman Champlin:

"Os escritos dos chamados pais da igreja mostram-nos que esse dom persistiu até mesmo depois que outros haviam desaparecido, nos séculos que se seguiram ao período apostólico." (CHAMPLIN, p. 220).

De fato, é isto que a história da igreja registra. Por exemplo, o historiador da igreja Eusébio de Cesaréia (263-340 d.C) cita os relatos de Irineu (130-200 d.C), um dos pais da igreja. Irineu diz assim:

"Até agora estão ressuscitando mortos, como ressuscitava o Senhor, e como os apóstolos, por meio da oração, pois mesmo entre os irmãos, com frequência, em caso de necessidade, com toda a igreja unida em muito jejum e oração, o espírito tem retornado ao corpo antes morto, e o homem concedido às orações dos santos." Ele continua:  "(...) Assim também, os que eram verdadeiramente seus discípulos, recebendo dele graça, em seu nome realizavam estas coisas para o bem dos melhores dos homens, uma vez que cada um recebeu dEle a dádiva gratuita. Alguns, aliás, certa e verdadeiramente expulsam os demônios, de modo que com frequência essas mesmas pessoas purificadas de espíritos perversos criam e eram recebidas na Igreja. Outros têm conhecimento das coisas por vir, bem como visões e comunicações proféticas; outros curam os enfermos pela imposição das mãos e lhes restauram a saúde. E, além disso, como mencionamos acima, mesmo os mortos têm sido levantados e continuam conosco muitos anos. E porque dizer mais? É impossível enumerar as dádivas que a Igreja por todo o mundo recebeu de Deus e os feitos realizados no nome de Jesus Cristo que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e também isso todos os dias para bem dos pagãos, sem enganar a ninguém nem exigir algum dinheiro. Pois assim como as recebeu de graça de Deus, assim também as ministra de graça." (CESARÉIA p. 174).

Perceba que os dons de cura permaneciam em plena atividade durante a época de Irineu.

Mas será que temos relatos contemporâneos da manifestação dos dons de cura em nosso tempo?

O Evangelista Smith Wigglesworth relata que certa vez, um homem tinha quebrado seu corpo num desastre, ferindo o estômago em dois lugares. As feridas inflamaram e o sangue ficou envenenado de tal maneira, que eles estava prestes a morrer. Estou resumindo seu relato, mas ele conta que  juntamente com um amigos, pediu à esposa para ungir o moribundo que já não falava mais. Ele o deixou. Eles o ungiram e oraram para  que o Senhor viesse restabelecer sua saúde. A princípio, nada aconteceu. Os médicos queriam operá-lo, mas o Evangelista pediu à mulher que não deixasse os médicos operá-lo, mas que confiasse no Senhor. Os médicos que também estavam ali preparavam os instrumentos para operá-lo, mas ela pediu 10 minutos e os impediu de fazer isso. Repentinamente, o enfermo prostrado naquela cama, começou a falar, dizendo: -"Agora Deus operou." Os médicos o examinaram e sua enfermidade verdadeiramente havia desaparecido. (MESQUITA, p. 119). Smith relata também muitas outras curam que foram realizadas por seu intermédio.

Além destes relatos, podemos acrescentar aqueles que tenho visto. Tenho contemplado homens de Deus impor as mãos sobre pessoas enfermas e elas ficarem curadas! A verdade é que a história da igreja não está a favor do cessacionismo. O que dizer por exemplo dos relatos do Movimento Pentecostal, onde grandes curas e manifestações espirituais foram registradas?

Diante desses fatos e de tantos outros relatos que não coloquei aqui, concluímos que a incredulidade tem falado mais alto que a fé no que a Bíblia e garante.

4. Se o dom de cura existe, porque muitas pessoas não são curadas?

As razões são diversas. Em seu conselho secreto, Deus sabe como agir e trabalhar na vida de cada um. Há pessoas que estão perto de Deus levar e nesse caso, o dons de cura não há de manifestar-se sobre a vida delas.

Para Raimundo de Oliveira, a pluralidade dos dons de cura, "dá a entender que existe uma variedade de modos na operação deste dom. Assim, um servo de Deus pode não ter todos os dons de curar, e, por isso, às vezes, muitos não são curados por sua intercessão. (...) Como são diferentes os tipos de enfermidades, é evidente que há um um de cura para cada tipo de enfermidade: orgânica, pssicossomática ou de patogenia espiritual." (OLIVEIRA, p. 136).

Existem outros casos em que os dons de curar podem não manifesta-se como por exemplo: Deus usar a enfermidade para forjar o caráter de uma pessoa, lhe dar experiência, maturidade, etc. Neste caso, a pessoa tem os dons, mas Deus não cura.

Todavia, uma das grandes razões pelas quais dons de cura não se manifestam na vida das pessoas é falta de fé. É bem verdade que houveram milhares que Jesus operou em pessoas que tinham pouca fé ou até mesmo nenhuma. Entretanto, não podemos negar que a fé exerce um papel importante na cura de uma pessoa (cf Lc 7.50; 8.12, 48,50; 17.19; 18.42).

A fé é importante, veja At 3.16; 14.8-10; Tg 5.15.

Por outro lado, a Bíblia também aponta a incredulidade como a causa de muitos milagres não terem acontecido no período neotestamentário (Mt 13.58; Mc 6.5,6).

A incredulidade fecha as portas para muitas operações da parte de Deus na nossa vida. Lembre-se que sem fé, é impossível agradar a Deus (Hb 11.6). Deus não depende apenas da fé para operar maravilhas na nossa vida, mas em muitas circunstâncias ela é o requisito, o instrumento para recebermos alguma benção do SENHOR.

O fato de algumas pessoas não serem curadas não significa que o dons de cura tenham cessado. Isto porque ele não se manifesta em certas pessoas mas se manifesta em outras e isto é plenamente bíblico. Teria cessado se não se manifestasse em ninguém. Devemos entender que existem meios pelos quais a cura vem, e muitas vezes esses meios são negligenciados pelo homem ou às vezes, Deus tem um propósito/motivo em não curar alguém (Lc 4.25-27). Estas são algumas razões pelas quais certas pessoas não são curadas.

Isto de forma alguma macula a manifestação dos dons de cura, pois, nunca foi dito que ele tem que ser usado de forma irregular e irrefreadamente.

5. Não acredito nos dons de cura, pois, o mesmo tem sido usado para explorar fiéis, sem falar que falsos milagres têm acontecido e enganado a muitos.

Esse tipo de objeção falha em usar uma circunstância falsa para desaprovar uma verdadeira. É verdade que muitos usam o nome de Jesus para explorar as pessoas e ganhar dinheiro em cima disso. Em muitos casos, ocorre uma falsa manifestação dos dons, porém não é desacreditando dos dons que se resolve. O caminho bíblico é orientar os cristãos para que sejam aptos a discernir entre o falso e o verdadeiro. No caso daqueles que usam os dons para lucrar de alguma forma, entendemos que estão usando o dom de forma errada.

Aqueles que propõem esta objeção, entendem que por prevenção, Deus teria suspenso os dons de cura para que seu povo não fosse enganado. O problema com esse tipo de interpretação é que ela não é bíblica. A Bíblia fala que já na era apostólica existiam essas que faziam falsos milagres e maravilhas. A Bíblia também fala de uma igreja que cheia de dons espirituais, porém repleta de problemas. Em ambos os casos, o caminho da instrução é sempre melhor e não o da incredulidade.

6. Uma pessoa com esses dons nos dias de hoje seria tratado como semideus.

Essa objeção alega que se existisse alguém com esses dons nos dias de hoje, certamente essa pessoa estaria na mídia, nos jornais e programas de TV.

Seria isto uma razão suficiente para Deus suspender este dom? Não necessariamente. Em Atos 14.8-18 está relatado que os habitantes de Listra achavam que Paulo e Barnabé eram deuses por terem curado um coxo. Porém, Paulo e Barnabé os repreenderam severamente.

Tratar alguém com os dons de cura como se fosse um ser poderoso é uma prática errada. É desmerecer a glória divina. Toda glória e louvor deve ser dada a Deus pois ele é quem concede os dons. Aqueles que tomam a glória para si, estão no caminho oposto de apóstolo Paulo e Barnabé. Em nosso tempo, muitos homens que se auto proclamam Apóstolos, bispos, etc, são tratados como semideuses.

Nas palavras do Pastor, Teólogo e escritor Elinaldo Renovato:

"Infelizmente, o que se vê, em muitos programas de TV, de determinadas igrejas, é o endeusamento do pastor, do bispo ou apóstolo, que ministra curas de maneira cotidiana. Não ousamos dizer que tais pessoas não são curadas, em tais igrejas. Nada exaltação do ministrante de curas ofusca a glória que só pertence a Deus." (RENOVATO, p. 47).

Estas pessoas estão erradas e se encaixam na categoria da versículo que lemos em Mt 7.22, 23. Mas o que vale dizer é que Deus jamais suspenderia seus dons em razão disso, deixando de abençoar a vida das pessoas por conta de  alguns que recebem a glória para si.

7. Jesus não veio ser milagreiro, ele veio nos ensinar a viver a Palavra de Deus.

Esse tipo de objeção se dá devido à dedicação excessiva de igrejas em busca de curas divina e milagres. Deixe-me explicar melhor. É mais ou menos assim: "Jesus não dedicou-se tanto a curas e milagres, porque os seus discípulos fazem isso?"

É verdade que a principal missão de Jesus aqui na terra é a de salvar pecadores, todavia quando esteve aqui na terra, ele curou muitos deles. Acontece que o mesmo propósito continua para os nossos dias. Antes de curar alguém fisicamente, Jesus quer salvar esta pessoa e fazer vivê-la uma vida em consonância com a Palavra de Deus. Todavia, o que lhe impede de usar pessoas para ministrar cura aqueles que precisam? Uma coisa não anula a outra! Ele salva e cura! Da mesma maneira, ele usa pessoas para pregar o evangelho e para curar os enfermos. Simples assim!

8. Não acredito na atualidade dos dons de cura porque nunca vi uma pessoa sendo curada desta forma.

"Ver para crer" não é o dilema das Escrituras. Já dizia Jesus: "Bem aventurado os que não viram e creram." (Jo 20.29). Nenhum cristão do nosso século viu Jesus ressuscitado e mesmo assim acreditamos em sua ressurreição. Não é porque alguém não viu uma pessoa sendo curada por intermédio de outra que deve desacreditar da atualidade desses dons. Pensar desta forma tem mais a ver com incredulidade do que com o ensino das Escrituras. Em outras palavras, você não precisa ver os dons espirituais para eles poder existir. Você não precisa ver, mas crer!

9. Não creio na atualidade dos dons de cura, pois na época de Jesus e seus apóstolos, eles entravam em ação na mesma hora, isto é, quando ministravam a cura, o enfermo era curado instantaneamente, algo que não vemos em nossos dias.

Primeiramente, não é verdade que as curas aconteciam instantaneamente, pelo menos não em todos os casos. As curas podiam ser ministradas e entrar em ação algum tempo depois.

Por exemplo, Jesus aplicou saliva nos olhos do cego de Betsaida, ele porém foi teve sua vista recuperada parcialmente. Em um segundo momento Jesus teve que lhe impor as mãos novamente e assim ele passou a ver claramente (Mc 8.22-25).

Em Lucas 17.11-14, fala de dez leprosos. Jesus os mandou se mostrar aos sacerdotes. Aconteceu que indo eles, foram purificados. Veja que não ficaram purificados na mesma hora que Jesus falou, mas durante o caminho.

Por fim, vejamos João 9.5-11. Jesus aplica lodo juntamente com sua saliva nos olhos de um cego de nascença e disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé. Ele foi, lavou-se e voltou vendo. A cura aconteceu quando ele lavou-se no tanque e não quando Jesus lhe aplicou a saliva nos olhos.

Nós temos o hábito de pensar que a cura sempre vinha instantaneamente porque esta pratica ocorreu na maioria das vezes em que Jesus ministrou a cura sobre uma pessoa. Todavia, não é regra que em todos os casos aconteçam desta forma.

Sendo assim, é possível que alguém com os dons de curar ministre esta benção sobre uma pessoa e ela só venha ser curada em outro momento, em casa, no trabalho, etc.

Isto não se constitui num motivo para não se acreditar neles, pois é algo que está na multiforme sabedoria de Deus. Em resumo, Jesus concede dos de curar a seus servos, eles ministram sobre as pessoas e essas curam podem vir instantaneamente ou em alguma outra ocasião.

10. Porque os que se dizem ter os dons de cura correm para os médicos quando precisam?

Essa objeção é mais ou menos assim, se existem mesmo homens com dons de cura, porque eles não se curam quando estão enfermos? Ou ainda, porque muitos deles morrem de enfermidades?

Bem, nada impede um homem de Deus de buscar auxílio da medicina quando necessário e isto vale mesmo para aqueles que possuem dons de Deus. Assim como também nada lhe impede de orar para que o Pai lhe cure. Quanto aos que morrem de enfermidade, não existe incoerência nenhuma nisso. Deus sabe como recolher os seus servos e faz isto da forma como lhe apraz. Lembre-mo-nos de Eliseu que por intermédio do poder de Deus fez milagres e maravilhas, porém adoeceu gravemente e veio a morrer (2 Reis 13.14).

Isto significa que um homem portador de dons de cura está passível de buscar auxílio na medicina quando preciso, e até mesmo sujeito a morrer de uma enfermidade.

IV- UMA REFLEXÃO PENTECOSTAL DOS DONS DE CURA:

1. Definição.

Segundo Antônio Gilberto, os dons de cura, "são um dom no plural na sua constituição e operação. A palavra "curar" está no plural no texto grego, indicando diferentes "curas" para vários tipos de moléstias ou enfermidades." (GILBERTO, p   75).

Atualmente, várias igrejas acreditam na manifestação dos dons de cura. Um bom exemplo disso são os Pentecostais. Segundo Robert P. Menzies:

"Os pentecostais insistem que a cura divina é o sinal da presença do Reino de Deus, e isso não deve ser uma experiência rara e incomum limitada a poucos. Eles chamam todo crente para viver com um sentimento de expectativa, reconhecendo que Jesus se deleita em dar dos de cura e restaurar plenamente o corpo do seu povo." (MENZIES p. 103).

Esse tipo de crença é fruto de uma reflexão séria a respeito do que a Bíblia diz sobre o assunto.

2. Os meios pelos quais os dons de cura se manifestam.

Os Pentecostais entendem que "às vezes Deus cura soberanamente, e as vezes, de conformidade com a fé do enfermo. O que ora pelo enfermo é mero agente; o enfermo (quer tenha enfermidade física ou emocional) é quem precisa do dom e realmente o recebe. Em todas essas ocasiões, a glória deve ser dada exclusivamente a Deus." (HORTON, p. 474).

Isto não abre espaço por exemplo, para a crença ilusória de que todos os enfermos devam ser curados. Segundo Pastor Enaldo Brito:

"As igrejas cheias do Espírito Santo certamente verão dons de curas, mas isto não subentende que alguém recebe poder absoluto para livrar todas as doenças." (BRITO, p. 74).

Em geral, os Pentecostais entendem que a cura divina não restringiu aos dias apostólicos e que é uma intervenção especial da parte de Deus na vida de uma pessoa, livrando-a da doença ou enfermidade.

3. O propósito.

Os Pentecostais veem dois propósitos na manifestação dos dons de cura.

"O primeiro é atestar o poder do evangelho com o objetivo de glorificar a Deus (Lc 5.23-26). O segundo propósito é o de amenizar o sofrimento humano, mediante o grande amor de Deus (Mt 9.36; Mc 1.41)." (CABRAL, p. 53).

4. A relação com a medicina.

Já tivemos a oportunidade de ver um pouco sobre este assunto anteriormente, mas os Pentecostais não enxergam nenhuma incompatibilidade entre os dons de cura a medicina.

"Não há choque entre a ciência e a cura divina." A Bíblia não condena a ciência médica. Pelo contrário, ela estimula essa ciência e até oferece soluções médicas, porque Deus é quem dá inteligência aos homens para ajudar na cura das suas enfermidades. Mas a cura médica jamais tirara o lugar da intervenção divina pela cura espiritual. A Igreja precisa aprender a discernir os valores de cada coisa colocando-as nos seus devidos lugares." (CABRAL p. 53).

Conclusão: Com certeza, a atualidade dos dons de cura é algo bíblico. Não há como ler a Bíblia e não enxergar esta verdade. Nenhuma outra dificuldade pneumatologica ou eclesiástica deveria nos fazer descrer em tal coisa. A crença cessacionista não passa de uma ideologia tendenciosa e descaracterizada de base bíblica, às vezes, beirando até mesmo a incredulidade em relação a manifestação do Espírito. Por outro lado, devemos estar atentos para nossa era, sabendo discernir com cuidado entre aquilo que é do Espírito e aquilo que não é. Muitos curandeiros tem se levantado se fazendo passar por homens de Deus e tem enganado as pessoas afim de lucrar através delas. Devemos nos prevenir para que não haja abuso dos dons espirituais e que ao mesmo tempo haja manifestação livre do Espírito Santo em nosso meio. Por fim, gostaria de reproduzir as palavras do Pastor Elinaldo Renovato: 

"É desejável que os crentes em Jesus procurem 'com zelo os melhores dons' (1 Co 12.31). Certamente, os dons de curar são muito necessários, num mundo em que as enfermidades têm-se multiplicado assustadoramente, a despeito dos notáveis avanços da medicina. Esses dons são recursos especiais à disposição da igreja do Senhor Jesus Cristo, para, sob a soberania de Deus, e segundo a fé, os crentes sejam beneficiados com a cura das enfermidades físicas ou emocionais." (RENOVATO, p. 48).

Que Deus abençoe sua vida!

Bibliografia:

BRITO, Enaldo. Revista da Escola Dominical. 

CABRAL, Elienai. Movimento Pentecostal, as doutrinas da nossa Fé. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

CESAREIA, Eusébio. História Eclesiástica. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

CHAMPLIN, Russel Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: HAGNOS, 2004.

GILBERTO, Antônio. Lições bíblicas. 2 Trimestre de 2009. Rio de Janeiro: CPAD, 2009.

HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.

MESQUITA, Antônio. Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

MENZIES, Robert P. Pentecostes, essa história é a nossa história. Rio de Janeiro: CPAD, 2016.

OLIVEIRA, Raimundo de Oliveira. As grandes doutrinas da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 2013. 

RENOVATO, Elinaldo. Dons espirituais e ministeriais. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

SOARES, Ezequias. Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.



22 de dezembro de 2017

Jesus, o maior Evangelista de Todos os Tempos.


Por Everton Edvaldo. 

Introdução: Nunca foi tão fácil ser escutado pelas pessoas como na atualidade. Atualmente, ter um público, ser ouvido, notado e ter a oportunidade de compartilhar suas ideias é algo que está bem mais acessível às pessoas simples. Grande parte desta conquista se deve  à internet. A internet deu voz aos pobres e notoriedade a pessoas que não tem uma boa formação acadêmica,  coisa que antes do advento das redes sociais, era bem mais difícil de se obter. Todavia, nem sempre foi assim. Poucos homens do passado, influenciaram tanto o mundo como se tem a oportunidade hoje, mas teve um, que dividiu a história e ainda consegue marcar gerações. Seu nome é Jesus e neste artigo, eu gostaria de falar um pouco sobre o ministério deste homem tão incrível! À princípio, vamos analisar o ministério de Cristo, e o seu contato com o público, de uma perspectiva social. Depois, veremos os principais aparatos que favorecia e dava suporte à trajetória de Cristo, isto é, as pessoas e as estratégias. Faremos isso com pintadas teológicas, práticas e devocionais, sempre que possível, trazendo para nosso contexto moderno e mostrando de que forma isso afeta nossa vida. Porém, antes de começar, permita-me deixar claro que limitaremos a análise da proposta desse estudo apenas ao Evangelho de Lucas. Logo, o artigo que leitor tem em vista, não é exaustivo, mas exclusivo a partir do contexto abordado pelo evangelista Lucas. Isto, porque a ideia de escrever este artigo surgiu durante minha leitura deste evangelho. Esboçado isto, vamos ao nosso texto! Boa leitura!

I- O  EVANGELHO DE LUCAS E O MINISTÉRIO DE JESUS: 

Dos quatro Evangelhos, Lucas é sem dúvida, aquele que se destaca por sua linguística refinada, riqueza de detalhes e ensinos. Há quem diga que é o mais completo, não menosprezando ou diminuindo o trabalho e a importância dos outros, mas reconhecendo suas devidas características, estilos e peculiaridades.

Pois bem, Lucas era gentio. Por sinal, o único gentio que escreveu dois livros do Novo Testamento. Não viu a Cristo, mas falou dele tão bem quanto aqueles que o viram. Lucas era médico, cooperador e porque não dizer, teólogo também! Um homem extremamente preparado tanto intelectual quanto espiritualmente para fazer o que fez. E o resultado está nas nossas Bíblias: o Evangelho que leva seu nome e Atos dos Apóstolos.

Graças à sua obra, podemos contemplar mais de perto, o ministério majestosamente exercido por Cristo. 

Lendo Lucas, conclui que Jesus foi o Maior Evangelista de todos os tempos, talvez nem tanto pela quantidade de pessoas que lhe ouviram enquanto ele andava por esta terra (embora "os números" não sejam insignificantes), mas pela forma como ele impactava quem lhe ouvia. Jesus tirou o sono de muita gente! A outros, ele devolveu o sono e o sossego que há muito tempo precisavam! 

Todas as dificuldades sociais que você puder imaginar, Jesus também esteve sujeito, como por exemplo:

1. Jesus era economicamente pobre. Se tivermos que classificar uma classe econômica para enquadrar Jesus, podemos afirmar com segurança que ele era pobre (Lc 2.24; Lv 12.8).

2. O lugar que ele morava era desprezado pelas pessoas. Sua família era de Nazaré, na Galiléia (Lc 1.26,27) e Jesus foi criado neste lugar (Lc 2.39,40; 3.16). Uma região bastante ignorada e desprezada pelas pessoas (Jo 1.45,46).

3. Jesus foi rejeitado em sua própria terra (Lc 4. 24, 29,30).

Aos olhos humanos, era improvável que Jesus tivesse êxito em sua trajetória de vida, mas o improvável aconteceu! Como isto aconteceu?  O que Ele fez? Porque Ele conseguia atrair tantas multidões? É o que verificaremos a partir de agora!

II- CARACTERÍSTICAS DE JESUS COMO PREGADOR:

Oficialmente, o ministério itinerante de Jesus só começou aos 30 anos (3.23), na Galiléia (Lc 4.14).  Vejamos agora, algumas características do seu ministério.

1. Jesus enfrentava os obstáculos. Foi nesta região que pela primeira vez propagou seus ensinos. Também é na Galiléia que Jesus enfrentou seus primeiros desafios, isto porque ele foi expulso da cidade de Nazaré onde fora criado (Lc 4.29,30). Pois bem, se em Nazaré Jesus não teve êxito, em Cafarnaum, o quadro é outro. É em Cafarnaum que Jesus deu passos importantes e tomou atitudes que mudaram drasticamente o rumo das coisas.

Entretanto, antes do êxito, veio a rejeição. Aliás, a rejeição foi uma característica que percorreu todo o ministério de Jesus (Lc 8.35-37; 9.51-53), porém, Jesus reagiu à rejeição com perseverança. Imagina se Jesus tivesse desistido de pregar o Evangelho ainda em Nazaré quando foi expulso da cidade? 

Pois bem, perseverar é uma atitude crucial para quem deseja crescer em qualquer área da vida. Tanto profissionalmente, quanto espiritualmente. A rejeição veio, mas Jesus não se deixou levar por ela. Alguém pode até fechar uma porta para você aqui, mas ali, haverá outra aberta para você.

Tenha consciência disso: sempre haverá pessoas que te ouvirão, e outras que não querem nem imaginar cruzando com você no caminho. Jesus passou por isso. Não estamos isentos de tal acontecimento.

Em Cafarnaum, a fama de Jesus corria por todos os lugares da circunvizinhança (Lc 4.37), pelo modo como ele transmitia sua mensagem. Lá, a mensagem de Cristo encontrou ampla guarida!

Eu poderia apontar várias conquistas de Jesus em Cafarnaum, mas isso tomaria um bom espaço neste capítulo de modo que ficaria muito longo. Por isso, não farei isto aqui, mas de modo geral, em Cafarnaum é onde Jesus encontra abrigo (Lc 4.38). Lá, também moram Simão (Pedro) (Lc 5.5), Tiago, João (Lc 5.10,11) e Levi (Mateus) (Lc 5.27,28), homens que se tornariam apóstolos de Cristo,  sem falar no público de Jesus que cresceu significativamente (Lc 4.40-42). Jesus esteve várias vezes em Cafarnaum, mas não se restringiu a essa região.

Desde então, o carpinteiro de Nazaré passou a usar algumas estratégias para lidar com o público, de modo que também podemos concluir que Jesus foi o maior comunicador da História. Há dois mil anos, Jesus usava com maestria os conceitos básicos de Marketing e publicidade. O modo como Jesus lidava e se comportava perante as pessoas, era algo que fazia toda a diferença. Jesus era diferente! 

2. Além de não se deixar abater pela rejeição, Jesus não fazia acepção de pessoas. Ele ganhou muitas pessoas com este gesto. Classes sociais criadas pelo homem, não se tornaram uma barreira para o ministério de Cristo. Sua mensagem era útil e sincera para qualquer ser humano que estivesse à sua frente.

Em Lucas, vemos Jesus entrando em contato com várias pessoas. Entre elas, o assistente da sinagoga (4.20), endemoniado (4.33), mulheres (4.38), multidões (4.42), excluídos da sociedade (5.12,13), fariseus e intérpretes da lei (5.17), enfermos (5.17; 6.6), viúvas (7.12), publicanos e pecadores (15.1), sacerdotes (19.47), saduceus (20.27), crianças (18.15-17) e governantes (23.1-3).

Jesus dizia: "Arrependei-vos" tanto para ricos quanto para pobres. Era uma mensagem sem discriminação. 

Muitas pessoas fracassam neste ponto no seu percurso porque não sabem lidar com o público ao qual se dirigem. Jesus sabia! Outras até dizem a verdade, porém fazem isto  de qualquer forma. Geralmente, dizer a verdade de forma errada pode até ganhar os ouvidos, mas jamais o coração. É preciso ser estratégico. 

Além disso, Jesus conhecia seu público. Ele sabia quando estava falando com um sacerdote altamente instruído e quando estava falando com simples galileus de pouca instrução. 

Atualmente, muitas pessoas falham neste ponto. Desconhecem e por desconhecer não sabem lidar com seu público, seja numa congregação, na rede social ou em algum outro ambiente. Precisamos conhecer as pessoas e suas necessidades. O que elas precisam ouvir? E de que forma podemos alcançá-las? Jesus sabia como! 

Jesus entrava na casa de publicanos e de pecadores para comer (Lc 5.29, 15.1,2). Ele sabia que se fizesse isso, seria questionado pelos religiosos hipócritas do seu tempo e  então teria a oportunidade expor sua mensagem naquele lugar (Lc 5.30-32). Jesus criava suas próprias oportunidades!

Lucas 7.36 e 11.37 são claros exemplos de que Jesus também era uma pessoa acessível e que ia às pessoas. Quando chamado para participar de alguma refeição, Jesus não recusava o convite. Aqui aprendemos três coisas:

Primeiro, Jesus nos ensina que um bom líder sempre está acessível a quem precisa.

Segundo,  Jesus nos ensina que não é insignificante ir às pessoas indignas da nossa atenção.

Terceiro, Jesus nos ensina que quando não existirem oportunidades, nós podemos criá-las e usá-las para expor o que temos.

Essas estratégias de Jesus aproximavam as pessoas dele (Lc 15.1). Havia praticidade e eficácia! Duas coisas altamente frequentes na trajetória de Cristo.

3. Jesus não era estático. Altamente ativo e dinâmico, o mestre de Nazaré não ficava apenas num lugar (Lc 4.43,44), mas percorria cidades e aldeias (Lc 9.6; 13.22).

Vejam os lugares que Jesus passou:

Jordão (4.1); Galiléia (4.14), Nazaré (4.16), Cafarnaum (4.31), deserto (4.42), Judéia (4.44), lago de Genesaré (5.1), monte (6.12; 21.37), casa de Levi (5.29-31), casa de Pedro (4.38), casa de Fariseu (7.36; 11.37; 14.1), casa de Zaqueu (19.5), casa de Marta (10.38), Samaria (17.11), Jericó (18.35, 19.1), Betfagé e Betânia (19.29), Jerusalém (19.28,41), Calvário (23.33), Betânia (24.50), Naim (7.11),  aldeia dos samaritanos (9.52), aldeia não identificada (9.56), aldeia de Emaús (24.13), povoado (10.38), cenáculo da páscoa (22.10), cidade não identificada (5.12), Genesaré (8.36), Betsaida (9.10). 

Alguns desses lugares Jesus passou mais de uma vez, sem falar que essa lista que citei nem é exaustiva. Se somarmos os detalhes geográficos de Lucas com os de Mateus, Marcos e João, as informações serão ainda mais extensas.

Isto é, Jesus expandiu sua mensagem, entrando nas sinagogas, casas, ruas, etc. O mestre de Nazaré além de estratégico, também era visionário. 

4. Jesus era um homem de oração. É a característica do ministério de Jesus que Lucas dá mais destaque. É importante ressaltar que desde o começo do seu ministério, Jesus estava envolvido com a oração (Lc 3.21). 

Isto significa que até mesmo Jesus tinha seus momentos de devoção com Deus, de modo que pudesse recompor sua espiritualidade, equilíbrio e direção (Lc 5.16). É o que falta em muitos pregadores da atualidade. Querem ser ouvidos, mas não buscam em Deus, a graça que precisam para suportar os desafios e transmitir aquilo que Deus quer. Muitos pregadores itinerantes pregam mais do que oram, mas Jesus nos deu exemplo de que não basta se dedicar fisicamente, é preciso buscar a Deus (Lc 6.12). É Ele quem dá as estratégias! 

Em Lucas, Jesus nos ensina que: 

Primeiro, é na oração que a mente se revigora para liderar (Lc 9.18). 

Segundo, é na oração que coisas sobrenaturais acontecem (Lc 9.28,29).

Terceiro, a nossa vida de oração influência as pessoas que estão perto de nós (Lc 11.1-4).

Quarto, através da oração recebemos bençãos da parte de Deus (Lc 11.9-13).

Quinto, a oração deve ser uma constante na nossa vida (Lc 18.1).

Sexto, que a casa de Deus é lugar de oração (Lc 19.46).

Sétimo, que através da oração ficamos de pé (firme) na presença de Jesus (Lc 21.36).

Oitavo, a oração nos livra de entrarmos em muitas tentações (Lc 22.40).

Nono, pela oração nos rendemos aos pés de Deus (Lc 22.41) e à sua vontade (Lc 22.42).

Décimo, que a oração intensa é a melhor alternativa para quem está em agonia (Lc 22.44).

Por fim, a oração nos faz ficar de pé e pronto para enfrentarmos qualquer adversidade que vier (Lc 22.45). 

Tal característica certamente é um distintivo no ministério de Jesus, isto porque quem tem uma boa relação com Deus, certamente vai ter sabedoria e discernimento para se relacionar com seu público, seja ele o de casa, faculdade, trabalho ou igreja.

5. Jesus tinha mensagem! Na época de Jesus, os ensinamentos sobre Deus geralmente, estavam confinados aos sacerdotes e ministros das sinagogas daquele tempo. Tais pessoas ora falavam da Palavra de Deus, ora falavam de seus próprios preceitos. Além disso, as pessoas comuns não tinham acesso às Escrituras com tanta facilidade. 

Daí aparece um Mestre que leva a Palavra de Deus até às pessoas e que fala dela com autoridade (Lc 4.36, 37). Este alguém era Jesus. As pessoas estavam famintas e só o bom pasto (que é a Palavra de Deus) podia saciá-las. Cristo falou sobre diversos assuntos, mas entre eles, um dos que mais se destacam no Evangelho de Lucas é a respeito do Reino de Deus (Lc 8.1). São inúmeras passagens que falam dele e que eu recomendo aos leitores deste artigo que leiam todo o Evangelho de Lucas para que possam entender com mais propriedade o que estou dizendo.

O tema da "Salvação pela fé" também é frequente neste Evangelho (cf. 7.50; 8.12; 8.48,50; 17.19; 18.42). Estava constantemente na boca de Jesus e na sua mensagem.

Era uma mensagem inteiramente direcionada ao povo, despertando em algumas curiosidade, comoção e em outras, milagres e conversão. Outro diferencial é que Jesus passava segurança no que dizia. Comunicar a verdade com segurança é algo fundamental!

No nosso século, o que falta em muitos pregadores é mensagem! Mensagem do céu, mensagem de Deus! Outros, tem mensagem, todavia transmitem-na com insegurança! Devemos fazer como Jesus, pregar com autoridade, crendo no que estamos pregando! Se nós não cremos no que está na Bíblia, como queremos que os outros acreditem em Deus, visto que ela é a única que testifica perfeitamente a respeito dele?

III- O RESULTADO DO SEU MINISTÉRIO E ALGUMAS ESTRATÉGIAS USADAS POR ELE: 

Graças ao esforço espiritual e físico de Jesus, multidões se aglomeravam para vê-lo, a ponto de Lucas dizer que elas o apertavam (Lc 8.42) e se atropelavam (Lc 12.1). Numa destas ocasiões, a Bíblia registra que estavam reunidos cerca de 5.000 homens (Lc 9.14) fora mulheres e crianças (Mt 14.21) e noutra, mais 4.000 homens (Mc 8.9). Enquanto lia Lucas, eu contabilizei o contato pessoal e individual de Jesus com cerca de 155 pessoas, fora os 5.000 que já tivemos oportunidade de falar. Os estudiosos afirmam que a quantidade de pessoas que compunham as multidões que seguiam a Jesus, variavam e podiam chegar até 15.000! Eu me arrisco a dizer que desde o início de seu ministério até sua morte (cerca de 3 anos), Jesus foi visto por mais ou menos 20.000 pessoas, um número assustador para a época.

Como Jesus conseguiu atrair multidões em tão pouco tempo?

Basicamente, Jesus atraia multidões de duas formas.

Primeiro, através de sua fama que se espalhava pelos lugares rapidamente (Lc 4.14, 37, 40; 5.15; 7.17; 8.39) por intermédio de algum ato que ele fazia. Geralmente, por causa das curas e milagres que ele efetuava (Lc 11.14).

Por exemplo, quando curava alguém... a pessoa que foi curada ou recebeu algum milagre da parte de Jesus, ficava tão maravilhada que anunciava aos habitantes das regiões próximas o que tinha acontecido (Lc 8.39). As pessoas que ouviam, eram impactadas com os relatos e procuravam ir até Jesus (Lc 8.40).

Isto acontecendo com uma só pessoa já era glorioso, imagina com várias? O Evangelista Lucas relata que Jesus era muito atencioso com cada enfermo que lhe procurava impondo a mãos sobre cada um e curando a todos (cf. 4.40; 6.19). Ele era especialista em marcar as pessoas! 

Desta forma, sua fama se espalhava e as multidões se  reuniam para ir até ele.

Segundo, através dos seus produtores evangelísticos. Como assim produtores evangelísticos? Deixe-me explicar...

Aqui no Brasil, antes de um artista levar seu show ou qualquer outro evento para determinada cidade, algum produtor regional ou uma equipe interessada, entra em contato com os empresários do artista para consolidar o evento. Feito isto, o produtor, por exemplo, se for um show, se encarrega de divulgar a vinda do artista, conseguir patrocínios, etc. 

Há dois mil anos, Jesus já utilizava esse método. Claro que não da mesma maneira,  nem com o mesmo objetivo, mas girando em torno de preparar o povo para sua chegada. 

O primeiro produtor de Jesus foi João Batista (Lc 3.15-18). Ele preparou o caminho para a chegada do Messias. Algum tempo depois,  o próprio Jesus utilizou-se disto para os mesmos fins. 

É preciso enfatizar que Jesus primeiramente montou uma equipe, conhecida teologicamente como "colégio apostólico." São os 12 apóstolos separados e escolhidos pelo próprio Cristo. Serviam como cooperadores e auxiliavam o ministério de Jesus. Cristo os dotou de poder e os enviou para que também pregassem o reino de Deus e curassem os enfermos. A estes, Jesus também deu-lhes estratégias (veja Lc 9.1-5). "Então, saindo, percorriam todas as aldeias, anunciando o evangelho e efetuando curas por toda a parte." (Lc 9.6). 

O resultado era que com o regresso dos apóstolos, muitas pessoas os seguiam de volta e Jesus as acolhia, pregava para elas e curava as que precisavam de cura (Lc 9.10,11).

Isso foi tão eficaz que em outra ocasião Jesus designou 70 discípulos para irem nas cidades e lugares que ele havia de ir. Estrategicamente, Jesus os enviou de dois em dois (Lc 10.1,2). A estes, Jesus também deu autoridade, poder e recomendações (Lc 10.3-12, 16).

No nome de Jesus, eles expulsavam os demônios e desfaziam as obras das trevas (Lc 10.17), de modo que as pessoas passavam a ouvir sobre Jesus e quando ele entrava nesta cidade, sua fama já estava consolidada e muitas pessoas vinham ao seu encontro.

Chamo os discípulos que antecediam a chegada de Cristo de produtores evangelísticos e estes eram responsáveis também por prover pousada para Cristo (Lc 9.52), preparar determinado lugar para uma celebração (Lc 22.8-10), ou ir em busca de qualquer outra coisa que Jesus precisasse (Lc 19.29). 

Interessante que Lucas os chama de "mensageiros" em 9.52. Neste versículo, mensageiros também foram enviados à Samaria, mas os samaritanos não o receberam. Aqui se evidencia o que eu afirmei lá em cima, isto é, que a rejeição continuou sendo um desafio para o ministério de Cristo. Contudo, Jesus não se deixava abater por tais coisas. Ele sabia aproveitar todas as alternativas e acredite, muitas surgiam. Sempre há uma alternativa, sempre há! Existem os que fecham a porta e os que abrem, bata na porta tanto de um como de outro e entre naquela que lhe for aberta.

Bem sabemos que não parou por aí, quando ressuscitou Jesus disse que "em seu nome se pregasse arrependimento para remissão dos pecados a todas as nações, começando de Jerusalém." (Lc 24.47). Estes são chamados por Cristo de "testemunhas" (Lc 24.48). Hoje, os apóstolos não estão mais vivos, mas nós que somos seguidores de Cristo, estamos! Nós somos os produtores de Jesus nesta geração e devemos levar o Evangelho a toda criatura, aprendendo em tudo com o Mestre e honrando o Seu nome. 

Voltando à nossa análise do contexto em que Jesus viveu, o Mestre de Nazaré agora tinha dezenas de trabalhadores, porém ele ainda os considerava como poucos. Jesus disse: "A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos." (Lc 10.2). Ele alguém visionário e nunca se conformava com aquilo que já tinha conquistado. A visão de Jesus era ampla e ele desejava alcançar muito mais pessoas.

Pois bem, com o público perto de si, Jesus agora podia desenvolver ainda mais seu ministério. Ele se relacionava com as multidões de modo muito pessoal, como já tivemos a oportunidade de vermos lá em cima, e anunciava-as a verdade, ora os repreendendo (Lc 11.29), ora os ensinando (Lc 14.25) e em algumas ocasiões até lhes alimentando (Lc 9.11-17). Não só as palavras de Jesus como também seus atos causava-lhes admiração (Lc 11.14).

Embora não fosse muita coisa, o ministério de Jesus também contava com um patrocínio (Lc 8.1-3). Sim, podemos chamar de patrocínio por que havia um investimento no reino Deus. A diferença deste patrocínio, para os da atualidade, é que esse investimento não visava lucro financeiro, mas sim vidas para Deus.

É verdade que o ministério de Jesus tinha um custo, mas ele não  explorava ninguém, nem exigia luxo nos lugares que chegava. Por exemplo, Lucas registra que grande parte do transporte de Jesus era feito à pé, isto é, andando (Lc 8.1) e quando necessário, ele se utilizava dos barcos que estivessem à disposição (cf. Lc 5.3; 8.22, 37). Já para entrar em Jerusalém, ele o fez através de um jumentinho (Lc 19.30). Vejam que Jesus aproveitava os recursos que lhe eram acessíveis. 

Devido ao seu ministério itinerante, Jesus não tinha morada fixa (Lc 9.58), porém, onde chegava, procurava se hospedar em alguma casa, quando lhe era concedido (Lc 4.38; 10.38; 19.5). Isso evitava gastos com hospedaria, etc. Que estratégico não é mesmo?

Por fim, Jesus ganhou muitas vidas sem defraudar ninguém, por meio da verdade e da honestidade, sem muito dinheiro, porém com muito trabalho, dedicação e estratégia. Até mesmo os lugares que geralmente Jesus pregava, eram estratégicos. 

Vou dar aqui dois exemplos:

Primeiro, a sinagoga. Lucas registra que Jesus pregou em várias sinagogas da Galiléia (4.15) e da Judéia (4.44). Ele pregou na sinagoga de Nazaré (4.16), Cafarnaum (4.33) e muitas outras que não são identificadas (6.6; 13.10). Em Jerusalém, ele usava o Templo para ensinar (19.47; 21.37).

Na época de Jesus, as sinagogas tinham um fluxo grande de pessoas. Jesus sabia que no sábado, muita gente estaria presente ali; logo, o que ele fazia? Ia para lá. Vejam que jogada sensacional! 

Segundo, geralmente (não todas as vezes), Jesus pregava em lugares espaçosos, como por exemplo os montes ou regiões planas. Tendo conhecimento do alcance da sua mensagem, Jesus não ficava confinado às ruas das cidades. Por vezes, a Bíblia registra que as multidões iam até ele, e ele estava em algum monte. Se refletirmos bem, montes são lugares mais tranquilos, onde o ar é mais puro e o ambiente é propício até mesmo para lhes transmitir seus ensinamentos. Me responda, é mais desgastante pregar para pessoas dentro dos centros da cidade onde se concentra as agitações ou fora deles? Fora deles não é mesmo? Quando não era no monte, era próximo a eles, num lugar plano (Lc 6.17), apto para caber grande quantidade de pessoas. Mais uma evidência de que Cristo não era irracional em suas atitudes. Ele pensava em tudo e tudo saía conforme Deus lhe abençoava.

Conclusão: Hoje vimos o quanto que Jesus era incrível! Era um pregador fora de série! Nem mesmo Sócrates, Aristóteles e Platão com todas as suas técnicas de pedagogia e oratória, viveram o que Jesus viveu. Com certeza foi, é e deve ser para nós um espelho de como impactar as pessoas com a mensagem de Deus. Ele próprio veio até nós e não apenas nos mostrou o modelo, mas executou ele, nos provando que é possível triunfar em meio às dificuldades. Antes de fazer essa análise do ministério de Jesus a partir do Evangelho de Lucas, eu mal conseguia imaginar como Paulo (o maior líder do Cristianismo depois de Jesus), propagava o Evangelho com tanta maestria. A única explicação para isto é Jesus! Jesus é o exemplo vivo disso. Sendo assim, não se intimide perante os desafios. Ore a Deus, dedique-se, busque estratégias da parte dEle e contemple o reino de Deus crescendo através de você

Que Deus continue nos abençoando!

13 de dezembro de 2017

"A CPAD publicou a obra de um autor calvinista, e agora?"



Por Everton Edvaldo.

A Casa Publicadora das Assembleias de Deus  (CPAD) publicou a obra " Os Tesouros de Davi", comentário do livro dos Salmos, escrito por C.H. Spurgeon, um autor calvinista, e agora?

Ei, calma! Isto não é o fim do mundo! Sim, não é! Alguns cristãos que há pouco, despertaram a respeito do tema envolvendo a mecânica da Salvação/ Arminianismo x Calvinismo, estão agitados porque a CPAD, uma editora cujo viés doutrinário está amplamente enraizado no Arminianismo-Wesleyano, publicou uma obra de um autor calvinista.

Todavia, será que os motivos que estão sendo apresentados, são sustentáveis à luz da realidade? Porque a CPAD não deveria publicar esta obra? O que estamos temendo? Pois bem, abordamos um pouco desse assunto no artigo de hoje.

Primeiramente, não é a primeira vez que a CPAD publica uma obra cujo autor é calvinista. Vários livros de autores calvinistas, cujo assuntos não abordam necessariamente, o campo doutrinário da Soteriologia, já foram publicados pela CPAD. Darei aqui alguns exemplos:

Pecadores nas Mãos de um Deus Irado e outros Sermões. Jonathan Edwards.

A Segunda vinda. John MacArthur Jr.

Ministério Pastoral. Alcançando a excelência no ministério cristão. John MacArthur Jr.

Segundo, não é a primeira vez que Spurgeon ganha espaço na CPAD.

Há alguns anos, a CPAD publicou a obra: O melhor de Spurgeon. 120 devocionais diários para alimentar seu espírito e refrescar sua alma. 

Sem falar que a tão renomada e reconhecida obra "Heróis da Fé" de Orlando Boyer, tem um capítulo inteiro falando de Spurgeon. Detalhe, essa obra também foi publicada pela CPAD e é bastante estimada por todos nós assembleianos.

Alguns assembleianos estão temendo, pois,  a CPAD publicou a obra de um calvinista, mas na verdade, tal temor não deveria existir entre nós. 

Primeiro, a obra não se trata de calvinismo. Spurgeon não viveu sua vida inteira pregando apenas calvinismo. A Bíblia está repleta de  outros assuntos que foram abordados pelos teólogos ao longo dos séculos, e que não falam de soteriologia Calvinista ou Arminiana de forma direta ou essencial em suas obras. Este é o caso dos "Tesouros  de Davi" lançado pela CPAD. A natureza do livro não é voltada para esta controvérsia.

Segundo, a obra vai muito além da questão: calvinismo x arminianismo. A importância de termos "Os Tesouros de Davi" traduzido de forma completa pela CPAD aqui no Brasil, significa uma grande vitória para a literatura cristã e teológica brasileira. Sem dúvida, é uma grande conquista!

No Brasil, tínhamos essa obra em língua Portuguesa de forma muito resumida pela editora Shedd. É o livro: "Esboços Bíblicos de Salmos" de C.H. Spurgeon, obra que traz apenas alguns sermões do príncipe dos Pregadores a respeito do livro dos Salmos. 

Terceiro, apesar de ser calvinista e de ter se envolvido em dezenas de controvérsias com arminianos e hiper-calvinistas durante sua vida, Spurgeon foi um homem de Deus e produziu muito material teológico valioso para nós cristãos.

Não é porque ele foi calvinista que devemos repudiar tudo quanto ele escreveu, mas devemos seguir o conselho do apóstolo Paulo: "Examinai tudo. Retende o bem." (1 Tessalonicenses 5.21).

"Os Tesouros de Davi" entra nesta categoria. Devemos ler com cautela, conforme os escritos de todos os homens, pois, qualquer livro que não esteja na Bíblia, está sujeito ao erro e é digno de uma leitura cuidadosa da nossa parte. Mas convém lembrar que: tal fato não se constitui um impedimento para a obra não ser publicada.

Sem falar que, antes de publicar tal obra, a CPAD trabalhou em cima de um objetivo:a edificação do público alvo e constatou que a obra cumpria esse objetivo, fato este que  fez com que o projeto de publicação fosse levado adiante.

Alguns assembleianos não gostaram da publicação feita pela casa, pois Spurgeon não faz parte da confessionalidade da CPAD. Que a CPAD é uma editora confessional, todos nós sabemos, mas se por confessionalidade, entende-se como sendo publicar apenas autores que sejam arminianos e pentecostais, tal pressuposto deve ser reavaliado pelas nossas mentes.  Publicar apenas livros de autores que sejam unânimes nas suas crenças com toda a confessionalidade assembleiana é algo que empobrece e limita as rédeas do conhecimento teológico.

Por exemplo, a publicação de livros escritos pelo Norman Geisler. Geisler acredita que "uma vez salvo, salvo para sempre", e inclusive ele se considera um calvinista moderado, embora sua teologia esteja mais próxima de um entendimento arminiano do que do calvinismo propriamente dito. A CPAD já publicou alguns livros do Geisler e certamente, se fôssemos seguir à risca a confessionalidade, Geisler não deveria ser publicado pela CPAD, haja vista que ele aqui e acolá foge da nossa confessionalidade.

Sendo assim, não existe um motivo verdadeiramente justo que nos faça crer que a CPAD não deveria publicar o "Os Tesouros de Davi" escrito por Spurgeon. Essa obra, agora publicada em língua portuguesa, certamente, será uma fonte de bençãos para nossas vidas. 

Spurgeon passou mais de 20 anos preparando "Os Tesouros de Davi", que é o maior comentário do livro de Salmos já compilado! Quando terminou essa obra, ele exclamou:

"Abençoados foram os dias que passei meditando, condoendo-me, esperando, crendo e escutando com Davi! Poderia eu esperar passar horas mais alegres deste lado do portal de ouro?" (The Theasury of David, vol 7. (Londres, 1890).

Caro leitor, não se deixe intimidar por certas críticas que circulam nas redes sociais. Vale apena adquirir esta obra recém lançada pela CPAD e só depois de lê-la, tirar suas próprias conclusões sobre o que estou dizendo. Se estiver ao seu alcance, compre! Todavia, se não tiver interesse, não fique tecendo comentários maldosos para outras pessoas. 

Eu discordo do calvinismo de Spurgeon, e de vários outros pontos que ele veio a defender enquanto vida, mas isso não me impede de lê-lo, nem de admirá-lo. Contudo, ficar tentando boicotar a obra por motivos frívolos não é uma atitude madura. 

Que o SENHOR continue trabalhando através da boa literatura cristã e que nós venhamos desfrutar de tais bençãos!

Que Deus nos ajude!