28 de fevereiro de 2017

Nicodemania, uma prática prejudicial ao Evangelho



Por Everton Edvaldo 

Introdução: Hoje eu gostaria de falar sobre uma prática que tem se infiltrado cada vez mais no meio cristão: a "Nicodemania". "Mania é um costume, hábito ou gosto que normalmente é incomum, repetitivo e extravagante." [01].

Sendo assim, a Nicodemania (Mania de Nicodemus) é o ato ou a prática de admirar pregadores reformados a tal ponto de só ter relevância bíblica aquilo que eles creem ou aprovam. Escolhi o Rev. Augustus Nicodemus por ele ser o mais conhecido no Brasil e também um dos mais admirados. Neste breve texto, gostaria de refletir um pouco sobre esta prática que tem sido tão comum no Brasil. Boa leitura!

1. A Nicodemania pelas obras dos reformados que já morreram.

Quem de nós, nunca viu ou ouviu alguém na igreja que só prega a Bíblia citando confissões de fé e frases de reformadores? Não estou dizendo que é errado citar frases de homens de Deus. Entretanto, há pregadores que usam os reformadores como uma muleta essencial para a pregação das doutrinas bíblicas.

Isto é, o "Sola Scriptura" (Somente as Escrituras) não tem mais tanta relevância para os que praticam a Nicodemania se não tiver o apoio do que fulano ou ciclano cria ou ensinava. 

Na internet, a situação fica ainda mais extremada. Existem pessoas que reconhecem como bíblico e doutrinário apenas aquilo que os reformados creem. Isso é refletido inclusive em suas postagens diárias, onde só encontraremos conteúdo reformado. 

Às vezes, a admiração beira ao fanatismo, a ponto de alguns selecionarem a imagem de um reformador e colocar no perfil das suas redes sociais. Sem falar nos sobrenomes que diariamente aparecem nas nossas redes sociais: "Fulano Calvinista", "Ciclano Reformado", "Beltrano Monergista."

Certamente, a prática de valorizar em excesso os dogmas da reforma não é moderna. Apesar do termo (Nicodemania) ser, a prática, é tão antiga quanto se possa imaginar.

A história registra que John Bogerman (1576-1637), eleito presidente do Sínodo de Dort em 1618,  "tinha anteriormente participado de uma conferência com Gomarus, Uytenbogaert e Arminius no qual ele chegou ao ponto de dizer que “as Escrituras devem ser interpretadas de acordo com o Catecismo e a Confissão.” [02], [03]. Vejam até que ponto alguém tem coragem de supervalorizar os documentos da reforma.

2. A Nicodemania pelos reformados que ainda vivem.

Infelizmente, essa prática tem sido incentivada (ainda que disfarçadamente) até mesmo por pregadores reconhecidos como homens de Deus. 

Recentemente, o Paulo Junior na consciência cristã fez a seguinte afirmativa:

"João Calvino interpretou assim? John Owen interpretou assim? Jonathan Edwards interpretou assim? Charles Spurgeon interpretou assim? Paul Washer interpretou assim? John Piper interpretou assim? Augustus Nicodemus interpretou assim? John McArthur interpretou assim? Se não, não aceite."

Eu não quero ser sensacionalista em minha avaliação, porém me parece que o Paulo Junior desprezou aquele princípio básico de interpretação que afirma: "A Bíblia explica a própria Bíblia." Não precisamos que A ou B tenham apoiado determinada doutrina para que possamos aceitá-la. Só basta estar nas Escrituras!

3. Hábitos comuns entre os Nicodemaníacos.

Geralmente, os Nicodemaníacos brasileiros são viciados em assistir vídeos do Augustus Nicodemus, Hernandes Dias Lopes, Flankin Ferreira, Leandro Lima, Paul Washer, entre outros.Eles também têm facilidade em decorar suas frases e ensinos. 

Outra característica deles, é que se irritam facilmente com aqueles que discordam dos reformados. Inclusive, já vi expressões na internet semelhantes a essa: "Quem é você pra discordar do Augusto Nicodemus?" 

Especificamente, o Nicodemus tem sido tratado muitas vezes como inerrante nas coisas que diz e escreve. "Se o Nicodemus disse, então é verdade" é um entendimento que se passa na mente deles.

Infelizmente, essas práticas têm conduzido muitas pessoas ao fanatismo, sendo altamente nocivas para o cristianismo. 

Pessoas Nicodemaníacas tendem a valorizar mais o que os reformados dizem do que a própria Bíblia e não é de se espantar que muitos deles sequer leram a Bíblia toda. 

É justamente por não ter uma sólida base bíblica que se deixam influenciar por essa prática e acabam se sentindo cristãos especiais. 

Os Nicodemaníacos também acham seus pregadores superiores aos pentecostais e de outros segmentos históricos, e taxam como herético e sectário qualquer teologia que não seja defendida por esses reformados que foram citados acima.

4. Conselhos aos Nicodemaníacos.

Agora gostaria de deixar alguns conselhos para aqueles cristãos que estão envolvidos nessa prática: 

1. Não supervalorize as interpretações reformadas em detrimento da Bíblia. A Bíblia não está presa a nenhum sistema de interpretação humano e nem pode ser equiparada com qualquer outro livro daqui da terra. Por isso, sua autoridade deve ser levada a sério e qualquer interpretação (independente de qual ramo seja) deve ser submetida à ela.

2. Os reformados não são infalíveis, por isso, trate-os com respeito, mas jamais com fanatismo. O que eles dizem ou escreveram estão sujeitos à falhas e também à heresias. Não é uma atitude cristã, colocá-los no pedestal do "não toqueis nos ungidos do SENHOR."

3. Não seja alienado por sistemas. Siga o conselho do apóstolo Paulo: "Examinai tudo. Retende o bem." (1 Tessalonicenses 5:21). Isto significa que você pode ler, citar, estudar e acreditar em interpretações de outros teólogos e servos de Deus, desde que elas sejam bíblicas.

4. Respeite aqueles que pensam diferente de você. Ninguém é obrigado a ver os reformados como você vê. Aprenda a discordar com amor, respeito e humildade.

5. Postar frases de reformados, colocar imagem deles no perfil e sobrenome não te fará mais cristão. Em vez disso, procure se espelhar nas coisas boas que eles fazem e entregue a Deus toda glória.

6. Cuidado com a idolatria. É preciso rever se estamos de fato pregando a Cristo ou prestando culto a homens aqui da terra.

Conclusão: A Nicodemania é tão prejudicial ao evangelho quanto a teologia da prosperidade. Ela não é um ensinamento sistematizado, mas uma prática que tem crescido em solo brasileiro. Devemos combate-la com a boa e poderosa Palavra de Deus. Que o nosso foco esteja prioritariamente na pregação do Evangelho e não nos homens aqui da terra.

Deus abençoe a todos!

Notas:

[01]- https://www.significados.com.br/mania/

[02]- John Bogerman, citado em Harrison, Beginnings of Arminianism, p. 87

[03]- A isto Armínio respondeu: “Como alguém poderia afirmar mais claramente que eles estavam decididos a canonizar estes dois documentos humanos, e institui-los como os dois bezerros idolátricos em Dã e Berseba?" Arminius, citado em Harrison, Beginnings of Arminianism, p. 88.

22 de fevereiro de 2017

A Bíblia diz que o nome de Satanás era Lúcifer antes dele rebelar-se contra Deus?



Por Everton Edvaldo 

Introdução: O artigo de hoje tratará de um assunto que não tem tanta relevância para a fé cristã, porém é proveitoso para nosso crescimento no conhecimento bíblico. Falaremos um pouco sobre o "suposto" nome do adversário de nossas almas, isto é, Satanás. 

Desde criança, quando nem convertido era, ouço pessoas dizendo que o nome de Satanás era Lúcifer, até ele se tornar um anjo caído. Esse nome é bastante citado no meio cristão, inclusive por pregadores conhecidos entre o povo de Deus. 

No entanto, sabemos que por mais que uma crença esteja enraizada na nossa mente, devemos submetê-la à luz da Palavra de Deus. 

Não é porque alguém conhecido reproduzir determinada crença que isto significa que ela seja verdadeira. Pois bem, trataremos de responder a seguinte pergunta: o nome de Satanás era Lúcifer antes dele se tornar um ser maligno? É o que veremos neste artigo. Boa leitura!

1. Considerações preliminares.

É incrível como algumas pessoas se deixam assimilar por crenças populares e ensinam tais coisas como se fossem bíblicas sem ao menos consultar as Escrituras.

Primeiramente, é importante dizer que o termo "Lúcifer" nem sequer é citado na Bíblia, pelo menos não nos manuscritos originais. Só essa informação já é suficiente para matar a charada de que o nome de Satanás nunca foi Lúcifer.

Quando se trata do diabo, precisamos pontuar algumas informações a fim de esclarecer a compreensão  desse artigo.

Primeiro, a Bíblia não diz qual é o nome  de Satanás. Isto pode significar duas coisas: que ele tem um nome mas que não foi revelado ou pode significar que ele não tem um nome. É mais provável que ele tenha um nome mas que não foi revelado.

Segundo, caso ele tenha um nome, a Bíblia não revela que nome era esse antes dele rebelar-se contra Deus. 

Terceiro, as Escrituras também não revelam que seu nome foi mudado para Satanás como muitos acreditam.

Ela simplesmente o descreve como Satanás, ou seja, adversário. 

Na verdade, dentre os seres celestiais, a Bíblia revela apenas o nome de dois deles, o anjo Gabriel e o arcanjo Miguel. Nas Escrituras, o diabo é constantemente descrito por adjetivos, funções ou títulos que tem a ver com sua natureza. Vejamos alguns exemplos:


  • abadom - Ap 9:11, significa destruição
  • acusador - Ap 12:10
  • adversário - 1 Pd 5:8
  • anjo de luz - 2 Co 11:14
  • anjo do abismo - Ap 9:11
  • apoliom - Ap 9:11, destruidor
  • belial - 2 Co 6:15
  • belzebu - Mt 12:24
  • deus deste mundo - 1 Co 4:4
  • diabo - Mt 4:1, vem de "bode"
  • dragão - Ap 12:7
  • dragão vermelho - Ap 12:3
  • espírito do anticristo - 1 Jo 4:3
  • espírito que atua nos filhos da desobediência - Ef 2:2
  • homicida - Jo 8:44
  • imperador da morte - Hb 2:14
  • inimigo - Mt 13:39
  • leão - 1 Pd 5:8
  • lobo - Jo 10:12
  • maligno - Mt 13:19
  • mentiroso - Jo 8:44
  • pai - Jo 8:44
  • pai da mentira - Jo 8:44
  • poder das trevas - Cl 1:13
  • príncipe das trevas - Ef 6:12
  • príncipe deste mundo - Jo 12:31
  • príncipe dos poderes do ar - Ef 2:2
  • satanás - Jo 13:27, significa adversário, acusador
  • serpente - Ap 12:9
  • tentador - Mt 4:3
  • valente - Lc 11:21

2. Origem da associação do Diabo com Lúcifer.

Então, de onde veio a crença de que o nome dele era Lúcifer, antes dele se rebelar? 

Bem, tal crença se popularizou na cabeça de muitas pessoas graças à uma passagem bíblica que tem sido mal interpretada. É o texto de Isaías 14.12:

"Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!" (ACF)

Como tinha dito anteriormente, o termo "Lúcifer" não se encontra nos manuscritos originais da Bíblia. Isto porque a Bíblia foi escrita em hebraico, aramaico e grego e o termo "Lúcifer" é latino. 

O termo apareceu pela primeira vez nas Escrituras na Vulgata latina. A Vulgata foi a tradução da Bíblia para o latim escrita entre o fim do século IV e o início do século V, por Eusébio Sofrônio Jerônimo, a pedido do bispo Dâmaso I.

Durante o processo de tradução de Isaías 14.12, Jerônimo traduziu o termo hebraico hêlel ("estrela d’alva ou estrela da manhã") por Lúcifer que significa "portador da luz" (lux ou lucis + ferre). 

Veja que até então o termo ficou de fora da Bíblia por mais de mil anos (contando apartir da data em que Isaías foi escrito até a tradução de Jerônimo, ou seja, do século VII a.C ao século IV d.C).

"Jerônimo, provavelmente acreditando que o termo estava descrevendo o planeta Vênus, empregou o termo latino “Lucifer” (“portador da luz”) para designar “a estrela da manhã” (Vênus). Só mais tarde originou-se a sugestão de que Isaías 14,12 ss. estava falando do diabo. Depois, o nome Lúcifer passou a ser sinônimo de Satanás." [01].

3. Uma má interpretação do texto bíblico.

Como vocês podem ver, o termo em si não tem nenhuma ligação com Satanás. Atualmente, em Isaías 14. 12, "Lúcifer" aparece nas seguintes versões da Bíblia: King James (versão do rei Tiago em inglês), Almeida Corrigida e Fiel (ACF) e na tradução do padre Antônio Pereira de Figueiredo. As versões ARC, ARA, NVI e NTLH traduziram o termo hebraico como "estrela da manhã".

De qualquer forma, o erro não está na tradução em si, mas na atribuição da passagem à Satanás. Uma leitura isolada e descuidada do texto poderá nos levar a dizermos aquilo que o texto não diz. O propósito desse artigo não é fazer uma exegese de Isaías 14.12, entretanto, o contexto do capítulo inteiro deixa claro que o profeta está falando do rei da Babilônia e não de Satanás.

Portanto, quem ignora o contexto, acaba fazendo uma má interpretação da mensagem bíblica e criando falsos ensinamentos. 

Conclusão: Após termos visto que o nome Lúcifer não se encontra nos originais da Bíblia , que não passa de um termo latino usado para referir-se ao rei de Babilônia e que não tem nenhuma ligação com Satanás, lembremo-nos que essas informações serve para que não façamos afirmações do tipo: "A Bíblia diz que o nome do diabo era Lúcifer antes dele rebelar-se contra Deus." 

Infelizmente, isso tem feito com que muitas pessoas perpetuem tal frase como se fosse verdade. Por fim, chamar Satanás de Lúcifer pode ser considerado apenas mais uma crença popular e não uma doutrina bíblica [02]. 

Hoje, é meio incoerente chamar um ser que é maligno de "portador de luz". Por isso se faz necessário esclarecer esses detalhes para as pessoas que creem dessa forma.

Que Deus abençoe a todos!

Notas: 

[02]- Um outro nome que é atribuído para Satanás em algumas regiões do Brasil é "capeta". Bem sabemos que este nome também é apenas uma crença popular e que não é mencionado na Bíblia.

Abreviaturas:

ACF: Bíblia Almeida Corrigida Fiel
ARA: Bíblia Almeida Revista e Atualizada.
ARC: Bíblia Almeida Revista e Corrigida.
NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje.
NVI: Nova Tradução Internacional

14 de fevereiro de 2017

Por que não devo me tornar calvinista




Por Everton Edvaldo.

Introdução: Nas últimas décadas o interesse pelo calvinismo tem crescido bastante por parte daqueles que professam o cristianismo. Esse interesse pode ser constatado principalmente nos jovens que estão cada vez mais tendo acesso a livros, vídeos e material calvinista. 

Aqui no Brasil, o bombardeio de lançamentos de obras reformadas, o grande alcance nas redes sociais e o investimento intenso na propagação do calvinismo tem favorecido o aumento do número de adeptos inclusive por irmãos de igrejas pentecostais (que possuem uma herança histórica armínio-wesleyana).

Neste breve artigo, gostaria de enfatizar o por que você não deve se tornar calvinista. Veremos quais motivos nos fazem crer que esse sistema de interpretação não pode representar com precisão aquilo que ensinou o nosso Senhor e os apóstolos, ou seja, o Evangelho. 

É bem verdade que o calvinismo hoje está multifacetado, com várias interpretações e abrangendo outros assuntos, por isso, quando me referir ao calvinismo estarei me limitando apenas aos cinco pontos da soteriologia reformada, conhecidos como eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível, depravação total e perseverança dos santos. Boa leitura!

I- O CALVINISMO NÃO É UMA DOUTRINA BÍBLICA.

Parece óbvio abordar isso no primeiro ponto. O primeiro motivo pelo qual não alguém não deve se tornar calvinista é porque ele não é bíblico, isto é, não é ensinado nas Escrituras. Com isso,  gostaria de esclarecer duas coisas:

Primeiro, não estou afirmando que não haja nada no calvinismo que não seja bíblico. Há muitas coisas que o calvinismo defende que a Bíblia dá apoio como por exemplo a depravação total em virtude da queda da humanidade e sua consequência herdada de uma natureza corrupta e escrava do pecado. Aliás, não é só no calvininismo que existe esse tipo de situação. Ao longo dos séculos, seitas e heresias também tiveram algumas crenças comuns à Bíblia.

Segundo, não estou afirmando que o calvinismo não usa a Bíblia para apoiar seus ensinos. É claro que a Bíblia é usada para apoiá-lo sendo que isso é feito na maioria das vezes de forma equivocada e forçada. O simples fato de o calvinismo alegar passagens bíblicas para seu sistema não quer dizer que elas estejam de fato dizendo aquilo que eles ensinam. 

Por exemplo, a Bíblia tem sido usada com frequência para apoiar a eleição incondicional calvinista. São usados versículos tanto do Antigo Testamento quanto do Novo. Entretanto, será mesmo que a Bíblia ensina que Deus escolheu uns e não outros para a salvação da forma como o calvinismo entende? 

Vamos a uma simples demonstração começando pelo Antigo Testamento na questão da Eleição. A doutrina da Eleição é bíblica e nas Escrituras ela é usada para descrever Deus escolhendo alguém ou um povo para serviço ou para a salvação. Até aqui tudo bem.

O problema surge quando se faz a seguinte pergunta: como Deus faz essa escolha? Existe condição para que alguém seja um escolhido para a salvação? Se existe, qual é? Os calvinistas usam diversos versículos do Antigo Testamento para apoiarem a eleição incondicional para a salvação.

Entretanto, a verdade é que a maioria dos versículos do A.T (que tratam sobre eleição) não estão se referindo à uma eleição para a salvação mas sim para uma tarefa específica ou serviço. 

Isso mesmo! São passagens que falam da escolha de Israel ou de algum profeta para executar uma tarefa específica. Então, como os calvinistas reagem? Distorcem os versos para apoiar seus ensinos, usando-os como refúgio e abrigo. 

A verdade é: não há sequer um rastro da eleição incondicional no Antigo Testamento. Já no N.T, eles não encontram muita dificuldade para sustentar sua visão de eleição. Isso exige daqueles que ensinam o contrário, uma exegese e explicação de cada passagem abordada. Feito isso, veremos que a eleição incondicional não passa de um erro de interpretação bíblica. 

II. O CALVINISMO NÃO É CONHECIDO PELA IGREJA PRIMITIVA NEM ENSINADO PELOS PAIS DA IGREJA.

Pelo contrário, determinadas seitas e heresias da igreja primitiva é que foram  pioneiras nos equívocos soteriológicos que os calvinistas cometem e por isso foram severamente combatidas pelos pais da igreja. Não se trata apenas de ausência do calvinismo por parte da ortodoxia patrística como também hostilidade aos seus princípios.

É bem verdade que não existe um compêndio patrístico contra o calvinismo mas isso acontece porque o calvinismo nem sequer existia como nos moldes atuais. Em geral, os pais da igreja ensinaram muitas coisas que são contrárias ao calvinismo e isso já é suficiente para concluirmos que o atual calvinismo disfarçando de ortodoxia não tem apoio bíblico nem dos pais da igreja mais próximos dos período neotestamentário.

É com o velho Agostinho (354- 430 d.C) que o embrião começa a desenvolver-se na medida em que as controvérsias iam aumentando. É importante enfatizar que o "calvinismo de Agostinho" (se é que podemos chamar assim) é diferente do calvinismo de Calvino em muitos aspectos, o que prova que até mesmo Agostinho não reconheceu como bíblico aquilo que mais na frente João Calvino e seus seguidores irão ensinar. 

Digo isso porque há uma tendência moderna em afirmar que o calvinismo atual sempre foi crido e ensinado ao longo da história da igreja sendo que isso não passa de uma falácia. 

III. O CALVINISMO É CONHECIDO HISTORICAMENTE COMO PROPAGADOR DE INTOLERÂNCIA.

Começando por João Calvino seu principal representante. Embora tenha sido um erudito bíblico e prestado grande contribuição para o cristianismo, Calvino era intolerante com aqueles que pensavam diferente dele. Falando sobre Calvino, R.N. Champlin afirma que após ter se mudado para Genebra, em 1541, Calvino estabeleceu uma teocracia. 

"Havia uma completa mistura de Igreja e estado, e regras rígidas e ferozes governavam toda a vida e pensamento. Ofensas como jogos de azar, alcoolismo e até mesmo danças ou uso de linguagem irreverente eram severamente punidas. No começo, houve oposição a Calvino, e sua posição não era muito segura. Porém, por volta de 1555, ele já havia obtido uma vitória permanente. Houve vítimas de sua duríssima liderança. Ao humanista Sebastião Castellio, professor, foi recusada a admissão ao ministério, por causa de certo ponto de vista que expressa em seu comentário sobre Cantares de Salomão. Finalmente, Castellio deixou Genebra. Jacques Gruet foi decapitado acusado de blasfêmia. Jerônimo Bolsec, que havia feito oposição à rígida doutrina da predestinação, de Calvino, foi banido. O renomado antitrinitariano, Miguel Serveto, foi queimado na fogueira em 1553. Calvino e Serveto se haviam correspondido, debatendo diversos pontos. Calvino ordens para deter Serveto, se viesse a Genebra, já sabendo que ia o matar, se pudesse. Ele preferiu morte à espada, mas o conselho que julgou a Serveto ansiava por mostrar-se ainda mais feroz que seu mestre. Castellio escreveu um tratado contra a perseguição, mas sua voz perdeu-se em meio a gritos pedindo sangue. Calvino defendia a pena de morte para os hereges. Ele era conhecido por suas explosões de ira, que eles mesmo denominava de 'a fera'." (CHAMPLIN, Vol. 1; p. 606).

Como é de esperar que os discípulos sigam seu mestre, não aconteceu diferente com aqueles que aderiram ao calvinismo. Não todos, claro, mas boa parte dos calvinistas são intolerantes quando se trata de defender seus ideais. 

A intolerância também foi a marca de Francisco Gomaro, contemporâneo de Jacó Armínio, do Sínodo de Dort (calvinista) e de muitos outros. É assustadora a maneira como Spurgeon se refere aos que pensam diferente dele: "deus dos arminianos".

Isso pode ser verificado com visibilidade aqui no Brasil. A cada dez calvinistas que conheço, seis ou sete são intolerantes, não admitem serem questionados e quando isso acontece partem para o ataque da pessoa, do nível teológico ou da igreja que faz parte. 

É lamentável esse tipo de atitude que acontece principalmente nas redes sociais. Não sei até que ponto brincadeiras desse tipo são levadas a sério, mas já vi dezenas de vezes calvinistas afirmando a seguinte frase: "saudade da época que calava-se herege na fogueira."

Além disso, eles são majoritariamente responsáveis pela prática do proselitismo em outras igrejas, confundindo a mente das pessoas e fazendo-as se rebelar contra sua igreja e pastor de maneira que muitas se tornam desigrejadas. 

Nessa altura do campeonato é bom deixar claro que existem calvinistas que são servos de Deus. No entanto, são pessoas que não se deixaram moldar completamente pelo sistema, sendo muitas vezes incoerentes entre o que creem e o que fazem.

É o caso dos calvinistas de quatro pontos. São incoerentes com seu sistema em alguns pontos, acreditando que estão mais perto do que a Bíblia ensina. Uma coisa curiosa nisso é que o calvinismo de quatro pontos é rejeitado inclusive por vários calvinistas tradicionais e rígidos, demonstrando intolerância até mesmo com seus irmãos. 

Não tem escapatória, o calvinismo favorece a formação de cristãos intolerantes. São mínimas as probabilidades de fugir dessa realidade tendo em vista que a intolerância é o alicerce desse sistema. Jamais deixe ser conduzido por um sistema duvidoso em si mesmo que traz mais perturbação do que união. 

IV. O CALVINISMO NÃO É A ÚNICA ALTERNATIVA TEOLÓGICA PARA A MECÂNICA DA SALVAÇÃO.

Existem outras interpretações bíblicas sobre a mecânica da salvação que são dignas de atenção. Se enganam aqueles que aderem ao calvinismo apenas por ele ser uma tendência do momento ou porque a maioria dos reformados também o são. 

É verdade que não são perfeitas, porém, se aproximam da Bíblia sem muita dificuldade e sem forçar a barra. Além disso, tem amplo apoio da patrística, de teólogos eruditíssimos ao longo da história eclesiástica (incluindo reformados) e da ortodoxia. É o caso da expiação ilimitada (ou universal). Sem falar que não há  intolerância e tem trazido crescimento e frutos para o reino de Deus. 

Não é porque determinada teologia é pouco conhecida ou que não haja em nosso país tanto material sobre ela que tal teologia deve ser desprezada. Um bom estudante é aquele guiado pelas diretrizes da Bíblia e não por seus próprios interesses teológicos.

Conclusão: Não há motivos suficientes para alguém se tornar calvinista e se orgulhar disso. O calvinismo é apenas mais um sistema de interpretação das Escrituras, sujeito a erros e equívocos. 

Nunca vi alguém que tenha se tornado calvinista sem ter tido nenhum contato com material reformado mas apenas e exclusivamente lendo a Bíblia. 

Ninguém se torna calvinista lendo a Bíblia por um motivo óbvio: ele não está lá. As pessoas se tornam calvinistas ao serem atraídas pelo material reformado através de livros, confissões, etc. Calvino bebeu de Agostinho e usou a Bíblia apenas para fundamentar suas interpretações pessoais. E nem mesmo Agostinho retirou seus ideais agostinianos das Escrituras, mas foi forjado pelas controvérsias a formulá-los. Não estou dizendo que tudo quanto ele disse tenha sido extra-bíblico, porém, quem conhece Agostinho sabe que unanimidade bíblica não é uma palavra que o define.  

Por fim, o calvinismo não é sinônimo de tolerância e nem é a única alternativa dentro da teologia. É por esses e outros motivos que você não deve ser calvinista.

Que Deus abençoe a todos!

Bibliografia

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Hagnos: 1991.

11 de fevereiro de 2017

Cinco motivos para frequentar a Escola Bíblica Dominical


Por Everton Edvaldo

Introdução: A Escola Dominical é um dos maiores instrumentos da atualidade à serviço do reino de Deus. Isso se dá porque à medida que cresce o número de pessoas convertidas ao Evangelho, também cresce a necessidade de instruí-las na Palavra de Deus. Vejamos agora, cinco motivos para um crente ingressar na Escola Dominical.  

I- A EBD INCENTIVA O ESTUDO CONTÍNUO E REFLEXIVO DA BÍBLIA 

Sim, ao ingressar na EBD, o crente tem à sua disposição um ambiente ideal para estudar a Bíblia, tirar suas dúvidas e aprender com outros irmãos. Cada faixa etária, com conteúdo precisamente elaborado, foca no aprendizado com dedicação e atenção, trazendo benefícios  positivos para quem é aluno assíduo.

Na EBD encontramos professores qualificados, tementes a Deus, sábios e orientados para lidar com as necessidades e dificuldades do aluno. Ao frequentarmos a EBD, temos a oportunidade de crescer na graça e no conhecimento do Senhor Jesus Cristo. 

Bem sabemos que aprender é um requisito básico para quem quer crescer espiritualmente. Entretanto, para aprender, é preciso conhecer aquilo que cremos ser a verdade. 

Como bem disse Agostinho: "Tudo o que compreendo conheço, mas nem tudo que creio conheço." (FERREIRA, p. 83). 

Diante dessa necessidade, a EBD ocupa hoje um papel importante nas nossas vidas. 

II- A EBD ABRE ESPAÇO PARA UMA EFICAZ APRENDIZAGEM BÍBLICA 

A EBD é um lugar perfeito para examinar as Escrituras. Já aconteceu com você de o pregador falar algo no púlpito que lhe deixou com dúvidas? Ou de não ter a entendido bem o que foi ensinado no culto de doutrina? 

Pois bem, a EBD abre espaço para o diálogo coletivo e o exame das Escrituras. No momento que está sendo transmitido o ensino, o aluno tem a oportunidade de manifestar suas dúvidas e obter respostas. 

Isso é uma eficácia tremenda para nosso aprendizado. Os estudiosos estimam que aprendemos apenas 20% do que se ouve, 30% do que se vê, 70% do que se examina e 90% do que se faz ou participa. Entendeu como é importante não faltar a EBD? 

III- A EBD CONTRIBUI PARA O CRESCIMENTO SAUDÁVEL DA FAMÍLIA

Nem sempre a família tem tempo para se reunir em casa para adorar e estudar as Escrituras. Isso acontece por causa das diversas ocupações que estamos sujeitos na atualidade. O pai e a mãe trabalha, os filhos estão na escola e nesses encontros e desencontros é raro a frequência que se sentam para aprender a Palavra de Deus.

Além disso, nem sempre os pais conseguem administrar o tempo de maneira que consigam estudar algo durante a semana para transmitir à família. 

Por outro lado, como disse Elinaldo Renovato: "Na ED, principalmente nos moldes tradicionais, tem-se uma oportunidade rica de se edificar vidas e famílias, através do ensino ministrado nas diversas classes distribuídas por faixas etárias." (LIMA, p. 128).

Ali, os pais aprenderão como lidar com os filhos, na criação, desenvolvimento e necessidades; os filhos, aprenderão como enfrentar o mundo de maneira santa, pura e piedosa e também como defender sua fé seja na escola, faculdade ou trabalho. 

É essencial que crianças, adolescentes e jovens estejam empenhados na EBD, entretanto, não deixe seus filhos irem sozinhos à EBD, vá com eles e certamente os frutos virão a seu tempo.

Não é em vão que Salomão escreveu sabiamente: "Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele." (Provérbios 22.6).

IV- A EBD FORTALECE A DEFESA DA FÉ CRISTÃ

Estamos vivendo tempos difíceis em que o ceticismo tem encontrado abrigo no coração de muitos. Não só o ceticismo como a multiplicação de falsas doutrinas e de falsos mestres. 

Por isso, devemos estar munidos do verdadeiro conhecimento bíblico afim estarmos "... sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós." (1 Pedro 3.15).

As falsas ideologias estão guiando a sociedade moderna. Tanto ideologias políticas quanto religiosas. Contudo, ao frequentar a EBD o aluno tem a oportunidade de se preparar para defender sua fé.

Graças ao seu currículo bem elaborado, o aluno terá conhecimento bíblico, teológico e ortodoxo afim de defender-se dos ataques do liberalismo, teologia da prosperidade, marxismo, seitas e heresias, materialismo, evolucionismo, ateísmo, falsas ciências, etc. 

Lembro-me de quando adolescente ter passado por diversas situações na sala de aula em que se fazia necessário conhecer as Escrituras. Vez ou outra haviam professores que diziam que a Bíblia era um livro cheio de mitologias e que pintavam um Jesus totalmente diferente da Bíblia. Ao chegar na EBD, compartilhava minhas experiências para os amigos de minha classe, contando-lhes os questionamentos e como respondê-los de forma sábia e pacífica. Certamente a EBD contribuiu muito e ainda contribui para minha fé.

De acordo com Elinaldo Renovato: "Com lições que ensinam sobre seitas e heresias, a ED presta uma contribuição excelente, para que os crentes não caiam nas armadilhas sutis das falsas religiões, que se apresentam travestidas de cristãs, mas, na realidade, são instrumentos do Maligno para afastar as pessoas de Deus." (LIMA, p. 135). 

V- A EBD INFLUENCIA NA FORMA COMO ADORAMOS A DEUS 

A EBD também nos dá a oportunidade de adorarmos ao SENHOR, de sermos gratos a Ele por tudo quanto tem feito por nós. É belo ver um crente se deslocando para a casa de Deus logo no primeiro dia da semana, oferecendo seu tempo, sua mente e seu entendimento para orar, adorar e aprender acerca de Deus. Deus se agrada de quem se interessa em conhecê-lo e jamais se privará de revelar-se aos que o buscam com sinceridade. 

Certamente, um crente que vai à EBD de coração não tem prazer nas coisas do mundo. Como disse Agostinho: "Aquele que se alimenta interiormente com a palavra de Deus não procura no deserto desta vida o prazer." (FERREIRA, p. 95). 

Antes, o seu prazer está nos mandamentos do SENHOR: "Terei prazer nos teus mandamentos, os quais eu amo." (Salmo 119.47). 

Saímos de lá alimentados para enfrentarmos as adversidades da vida e nutridos com a direção de Deus. Isso é maravilhoso! 

Conclusão: Poderia ter listado vários outros motivos que temos para frequentarmos a EBD, no entanto, me limitei a apenas cinco. Sem dúvida, Deus tem se utilizado da Escola Dominical para abençoar vidas, famílias e ganhar almas para o reino. Conforme os crentes amadurecem na Palavra de Deus, o testemunho pessoal é fortalecido e o interesse pelo evangelismo é despertado, resultando em benefício para a igreja de Cristo e Seu Evangelho.

Portanto, procure uma Escola Dominical mais perto de sua casa, convide sua família, amigos e vizinhos e os leve para a casa do SENHOR. 

Que Deus nos ajude!

Bibliografia

FERREIRA, Flankin. Agostinho de A a Z. São Paulo: Vida, 2007.

LIMA, Elinaldo Renovato de. A Família cristã e os ataques do inimigo. Rio de Janeiro: CPAD, 2013.