27 de agosto de 2017

Marcos, um cristão muito útil para o Reino de Deus



Por Everton Edvaldo

Leitura Bíblica: (Atos 12.25; 13.1-5, 13; 15.36,37; 2 Timóteo 4.11).

Introdução: Hoje iremos falar sobre um personagem bastante esquecido no seio da cristandade: João Marcos. Muitos só sabem de sua existência, por causa do Evangelho que leva seu nome, entretanto, a Bíblia nos traz detalhes suficientes para que entendamos um pouco quem foi este homem. Vamos falar acerca de sua vida, ministério, quedas e utilidades dentro da obra de Deus. Também falaremos de como Deus agiu nas circunstâncias difíceis envolvendo Marcos, revertendo qualquer rastro de fracasso em objeto de glória ao Seu nome. Porém, antes disso, permita-me falar acerca de alguns detalhes  para que facilitem a compreensão da jornada deste personagem.

I- QUEM ERA JOÃO MARCOS:

1. Seu nome. Das vezes que a Bíblia fala sobre Marcos, ela se refere a ele como "Marcos" simplesmente, ou de modo geral, como "João Marcos." João significa "Yahweh mostrou graça" e Marcos é seu nome latino adotado. Naquela época, era comum muitas famílias judaicas ter dois nomes, um hebraico e outro grego ou latino.

2. Sua família e seu lar. A Bíblia não traz muitos detalhes sobre a família de João Marcos. Ela fala apenas que ele era filho de Maria, "uma mulher rica e importante em Jerusalém (At 12.12)" (RYRIE, p. 954), (Obs: não era Maria, a mãe de Jesus); e primo do "apóstolo" José Barnabé (Cl 4.10), (para mais detalhes sobre Barnabé, veja At 4.36-37). As Escrituras não falam do pai de João Marcos. Sobre esse fato, comenta R.N. Champlin:

"O pai de João Marcos não é mencionado em porção alguma, e a maioria dos intérpretes pensa, por esse motivo, que Maria era viúva. Isso parece ser consubstanciado pelo fato de que a casa onde uma das congregações da igreja de Jerusalém se reunia é chamada de casa de Maria. Se seu esposo ainda vivesse, certamente não seria assim denominada." (CHAMPLIN, p. 129). 

De maneira bem simples, era uma família judia convertida e que fez parte da primeira geração de cristãos.

Sobre seu lar, Champlin comenta:

"Nada sabemos sobre o lar original de Marcos, quanto à sua localização, mas, na primeira vez que o encontramos, vemo-lo em Jerusalém, e talvez seja boa opinião que aquela era sua terra natal, ou, pelo menos, o lar central da família em geral." (CHAMPLIN, p. 129).

Ou seja, provavelmente, a terra natal de Marcos era a cidade de Jerusalém.

3. Curiosidades. A Bíblia não fala como Marcos se converteu, nem através de quem conheceu o Evangelho. Alguns estudiosos inferem que foi através de Pedro, todavia essa informação é apenas uma conjectura. Outra coisa que deve ser dita, é que Marcos não era apóstolo conforme muitos cristãos pensam que era. Em nenhuma passagem da Bíblia, Marcos é chamado de apóstolo. É quase unânime a afirmação de que Marcos nunca andou, viu ou conheceu Jesus pessoalmente. Contudo, "teve a oportunidade ímpar de colaborar no ministério de três apóstolos: Paulo (At 13.1-13; Cl 4.10; Fm 24), Barnabé (At 15.39) e Pedro (1 Pe 5.13)." (STAMPS, p. 1459). Por fim, Marcos é o autor do segundo Evangelho do Novo Testamento (escrito na década de 50 ou 60 d.C). Obviamente, essa é a curiosidade mais popular sobre ele.

II- A TRAJETÓRIA DE MARCOS:

1.Como começou.

Inicialmente, a jornada de Marcos está situada e descrita em Atos 12.25 e em Atos 13.5-15.

Tudo começa quando Paulo e Barnabé voltam de sua missão de socorro realizada em Jerusalém, e trazem consigo João, apelidado Marcos (Atos 12.25). Outrora, Barnabé e Paulo estivera na igreja em Jerusalém que se reunia na casa de Maria, mãe de Marcos. Eles devem ter conhecido o jovem num dos cultos realizados naquela casa. Certamente, viram alguma disposição no jovem para fazer a obra de Deus e o levaram para Antioquia da Síria.

Isto se tornou numa grande oportunidade para Marcos, pois, a igreja de Antioquia era um importante celeiro de cristãos, onde também haviam profetas e mestres/doutores (Atos 13.1). Perceba que Marcos saiu de sua terra, e agora, não estava mais em Jerusalém debaixo dos cuidados e do conforto da sua mãe. Em Antioquia, há muito trabalho a ser feito!

Aconteceu que na igreja antioquiana, o Espírito Santo disse aos seus servos: "Separai-me, agora, Barnabé a Saulo para a obra a que os tenho chamado." (At 13.2). Após jejuarem,  orarem, e impor as mãos sobre eles, os cristãos que ali haviam, despediram Paulo e Barnabé para proclamarem a Palavra de Deus. Os teólogos chamam esse evento de "A primeira viagem missionária."

"Paulo e Barnabé foram chamados para pregar o evangelho e conduzir homens e mulheres à salvação em Cristo." (STAMPS, p. 1659) de modo que, o alvo deles, "era conduzir pessoas a Cristo (16.31; 20.21), livrá-las do poder de Satanás (26.18), levá-las a receber o Espírito Santo (19.6) e organizá-las em igrejas." (STAMPS, p.1659).

Nessa viagem missionária, eles decidem levar João Marcos como auxiliar. É ai que sua trajetória ganha um novo rumo.

2. O Trabalho do jovem.

Nesse trio missionário, Marcos desempenhava o papel de cooperador de Barnabé e de Paulo. Segundo Charles Ryrie: "Fazia tudo o que Paulo e Barnabé lhe pediam- talvez ajudando a batizar e ensinar os recém-convertidos." (RYRIE, p. 1066). Sem falar que possivelmente, devia ajudar na prática, carregando a bagagem dos dois missionários, haja vista que ele era jovem, em pleno vigor da idade. De qualquer maneira, Marcos estava nessa viagem para prestar assistência.

3. A viagem em si.

Marcos desce juntamente com Barnabé e Paulo, ao porto marítimo de Selêucida  (25 Km de Antioquia), com o propósito de navegarem até Chipre, terra natal de Barnabé e ali, o Evangelho seria anunciado. De Selêucida, eles navegaram até Salamina, uma cidade marítima na costa oriental de Chipre, rica em mineral e agrícola, e que era um centro comercial importante naqueles dias.

Barnabé e Paulo, estrategicamente, anunciavam o Evangelho nas sinagogas judaicas dali (Atos 13.5). A cidade possuía uma quantidade considerável de judeus. Lá, o trio missionário encontrou um ambiente ideal para iniciar o trabalho de evangelização. Então a obra começou a ser desenvolvida!

O versículo 6 de Atos 13, diz que eles atravessaram toda a ilha até Pafos... Pare para refletir nos obstáculos que eles tiveram que enfrentar. Tiveram que passar por terrenos montanhosos, irregulares, de noite e de dia, no perigo, na insegurança e no risco de cair nas mãos de salteadores; dormindo no frio e por vezes andando no sol quente. Certamente, Marcos estava surpreso com tudo quanto estava passando. Isto porque uma coisa é você estar rodeado de irmãos na fé, com a família presente e perto de casa; outra coisa é você estar longe da sua família, em terra estranha, tendo que começar tudo do zero.

Naquela época, não havia ônibus, carros, bondes, trens, nem avião para se deslocar até o lugar desejado na ilha de Chipre. A caminhada era feita andando ou à cavalo. As dificuldades eram normas! Talvez a única vantagem que tivesse ali, era que Barnabé era natural desta ilha, fato este que possivelmente deve ter facilitado ao menos, a locomoção de um lugar para o outro.

Chegando em Pafos, o trio missionário não perdeu a oportunidade de pregar o evangelho ali (Atos 13.6-12).

Nesta época, Pafos era "centro de uma imprudente idolatria, uma cidade dedicada à deusa do amor Vênus e submersa nas mais abjeta superstição, depravação e libertinagem. Ao pregar o evangelho nessa cidade cipriota, Paulo enfrentou obstáculos e contou com ajuda sobrenatural para superá-los. Pafos era a capital e residência do procônsul Sérgio Paulo, um homem instruído que estava sedento por salvação. Mas um judeu mágico, Elimas (Barjesus), torcia o Paulo pregava. Este, cheio do Espírito Santo, repreendeu o referido falso profeta, que ficou temporariamente cego. 'Então, o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor.' (Atos 13.6-12)." (ZIBORDI, p. 66).

Este foi um dos grandes desafios que Marcos presenciou. Nesta ocasião, ele viu Paulo cheio do Espírito Santo e com autoridade, pregando o poderoso Evangelho de Deus! Bem, depois de Pafos, agora era a vez de navegarem até Perge da Panfília.

A respeito desta viagem, Ciro Sanches Zibordi nos informa:

"A viagem por terra, para o interior da Panfília, não foi nada fácil; tiveram de passar por estreitos desfiladeiros, onde havia grupos de salteadores prontos para atacar os viajantes." (ZIBORDI, p. 67).

A Bíblia não relata, porém alguns estudiosos acreditam que foi ali que "Paulo contraiu Malária ou alguma outra perigosa doença da região litorânea." (SWINDOLL, p. 174).

É nesta cidade que acontece algo inusitado: Marcos abandona a obra (v. 13).

Zibordi comenta que: "Deus guardou os pregadores do perigo, mas parece que João Marcos ficou assustado com o que viu e decidiu desertar da expedição. Ele era ainda muito jovem, mas muito útil aos pregadores itinerantes." (ZIBORDI, p. 67).

4. Por que Marcos volta para Jerusalém?

A Bíblia diz que apartando-se deles, Marcos volta para Jerusalém. Ela não nos informa quais foram os motivos que fizeram o jovem cooperador abandonar a expedição missionária, porém refletindo cuidadosamente, podemos inferir alguns baseado nas circunstâncias as quais ele estava sujeito. Exemplo:

a) Saudades da família. Embora estivesse com seu primo, Marcos talvez não tinha se acostumado ainda em ficar longe de sua mãe e do calor da majestosa Jerusalém, por isso, decidiu voltar para casa.

b) Choque de cultura. Marcos nasceu numa cultura judia e após se converter ao Evangelho, passou a viver uma vida de constante consagração e devoção a Deus. Em Jerusalém, sua casa era uma igreja e seu dia a dia era rodeado de cristãos. Depois que passou a acompanhar Paulo e Barnabé, não conseguiu adaptar-se aos ambientes pagãos por onde andavam e devido a isso, resolveu voltar para casa. Lembre-se que era pouco tempo para acostumar-se em ver tantas pessoas impuras vivendo publicamente de forma impiedosa.

c) Medo. Cada vez mais, os missionários estavam se arriscando por causa do  Evangelho. Quem sabe, o jovem apesar de confiar em Deus não tomou a atitude de abandonar Paulo e Barnabé num momento de desespero? R.N. Champlin comenta que: "os rigores da viagem talvez tenham sido demasiados para João Marcos e por isso ele resolveu voltar a Jerusalém. Os missionários estavam cruzando muitos trechos montanhosos, e estariam em perigo constante de serem assaltados por bandidos, que costumavam infestar essas regiões." (CHAMPLIN, p. 129).

Estas são apenas algumas hipóteses, entretanto, seja como for, uma coisa é certa: Marcos voltou para Jerusalém. Ele poderia ter voltado à Antioquia, para dar notícias aos cristãos antioquianos de como estava a expedição, mas não o fez. Porque não fez isso? Não sabemos, não está escrito. Também não sabemos se ele partiu ou não sem avisar/conversar com Paulo e Barnabé. Eu particularmente estou favorável a especular que ele deve ter conversado com os dois. Ambos devem ter relutado muito, até porque Marcos além de ser jovem, iria voltar sozinho, o que seria um risco maior, e traria mais uma preocupação para os dois missionários. Não adiantou! Ele os deixou e voltou para Jerusalém.

Muitas vezes, nós não resistimos ao árduo labor que possui a obra de Deus. Hoje, embora sejam contextos e circunstâncias diferentes e menores, muitos servos de Deus deixam de fazer a obra. Param em algum ponto, desistem e tiram a mão do arado. O que aconteceu com Marcos, é um retrato vivo do que acontece na igreja contemporânea. Estamos sempre preocupados com nosso conforto, família, desejos e futuro e só basta aparecer um obstáculo na nossa frente que logo desistimos de tudo.

Nas palavras de Theodore P. Ferris:

"Grande número de pessoas inicia a sua carreira na direção certa, com todas as melhores intenções do mundo; porém, quando as coisas se lhes tornam difíceis, quando não podem conseguir que as coisas corram da sua maneira, quando o caminho se torna áspero, então retrocedem... (...) João Marcos, auxiliar de Barnabé e Paulo, por uma razão ou outra, de natureza boa ou má, não foi capaz de resistir até o fim (...)." (Apud CHAMPLIN, p. 129).

Segundo A.T. Robertson:

"Foi uma falha séria na obra, embora Paulo e Barnabé continuassem aferrados ao trabalho." (Apud CHAMPLIN, p. 129).

Apesar disso, Paulo e Barnabé não recuaram! Agora, sem a assistência e auxílio de Marcos, tiveram que atravessar sozinhos de Perge até a Antioquia da Panfília (Atos 13.14) e dali, foram ainda pregar em Icônio, Listra, Derbe e por outros lugares até retornarem à Antioquia da Síria, alguns anos depois.

Nada é dito sobre Marcos ter naufragado na fé. Ao que parece, ele continuou servindo a Cristo em Jerusalém.

Contudo, aqui cabe uma pergunta que devemos fazer para nossas vidas: qual lugar é menos doloroso para estar, em Jerusalém ou em Perge? Será que o Senhor só pode contar com você quando estás rodeado pela sua família, perto de casa? Estás disposto a servir a Deus fora dos muros de Jerusalém, nas piores adversidades e condições?

No próximo ponto, vamos ver o que aconteceu com o jovem João Marcos. Será que foi o fim da sua jornada na obra? O que houve com ele?

III- O FIM DE UM MINISTÉRIO?

Teria Marcos mais alguma utilidade para o Evangelho? Vamos tratar disso nesse tópico. Algum tempo depois de retornarem da primeira viagem missionária, Barnabé e Paulo vieram novamente à Jerusalém por ocasião do Concílio da igreja (Atos 15.2-29). Nesta ocasião, é provável que Marcos estivesse naquela multidão que se silenciou quando Barnabé e Paulo contaram quantos sinais e prodígios Deus havia realizado entre os gentios (Atos 15.12).

Ao regressarem para Antioquia, depois de ter passado alguns dias, Paulo e Barnabé acham por bem visitar os cristãos que se converteram durante a primeira viagem missionária. Eles queriam saber como esses cristãos estavam (Atos 15.36).

Então a Bíblia relata algo interessante:

"E Barnabé queria levar também a João, chamado Marcos. Mas Paulo não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho. Houve entre eles tal desavença, que vieram a separar-se. Então, Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou-se para Chipre. Mas Paulo, tendo escolhido Silas, partiu encomendado pelos irmãos à graça do Senhor. E passou pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas." (Atos 15. 37-41).

Barnabé queria dar outra oportunidade a seu primo de fazer a obra de Deus, de tê-lo ao lado para que visse as maravilhas que Cristo estava fazendo através deles. Porém, Paulo, lembrando que Marcos havia se afastado da obra (do grego: aphistemi, significando aqui que ele desistiu, desertou, retirou-se, abandonou), não achou por bem levá-lo e então discutiu com Barnabé.

Charles Swindoll nos dá uma ilustração magnífica dessa passagem:

"Essa palavra 'queria' aparece no grego no imperfeito, significando 'desejar fortemente algo'. Barnabé não só queria isso, mas o texto sugere que pode ter exigido. 'O jovem vai'. Ele tem todo o direito de viajar conosco. Sim, ele falhou. Admito que nos abandonou. Ninguém está negando isso. Mas, Paulo, ninguém é perfeito. Ele era jovem e inexperiente. Lembre-se, porém, que a missão foi completada. Ele nos deixou, mas mesmo assim, nós a cumprimos. A ausência dele tornou as coisas mais difíceis para nós, confesso. Ele não só precisa do nosso encorajamento agora, como também se beneficiaria da nossa aprovação. Para que servem os conselhos, se não para dar encorajamento e afirmação para os fracos?" (SWINDOLL, p. 204, 205).

Não teve jeito, Paulo não aceitou a proposta. Para essa desavença, Swindoll explica que "Lucas usou a palavra grega parouxumós. Parouxuno significa 'afiar', como se faz com a lâmina de uma faca. (...) Estamos falando de uma briga memorável. (...) Isso levou finalmente a uma separação, uma ruptura permanente do time dos sonhos de Antioquia. Não lemos mais sobre o companheirismo de Paulo com seu amigo de longa data, Barnabé." (SWINDOLL, p. 207).

Não dá para dizer quem está certo ou errado. Paulo está com a razão, mas Barnabé quer salvar João Marcos da improdutividade. Ele sabia do potencial do primo e de como importante o seu auxílio. Parece que naquele momento, Paulo não conseguiu enxergar isso.

Acontece que Deus se utilizou deste fato para fazer uma coisa gloriosa. Aos olhos humanos, o ministério de ambos estava fadado ao fracasso. Os dois tinham discutido e se separado. O que seria das igrejas que foram fundadas? O que seria de Marcos? Talvez Marcos tenha pensado que não havia mais lugar para ele na obra. Porém Deus, não deixou que isto prejudicasse o Evangelho. Barnabé navegou para Chipre com Marcos e Paulo escolheu Silas como seu novo companheiro e iniciou sua segunda viagem Missionária. Dois grupos poderosos nas mãos de Deus se formam. Charles Swindoll nos chama atenção para o que Deus fez: "Não perca algo muito importante aqui: Deus multiplicou dividindo." (SWINDOLL, p. 208).

Muitas vezes, por um vacilo da nossa parte, parece que tudo que Deus projetou para nós, foi por água abaixo. Paulo estava coberto de razão, porém para que serve a razão, quando se trata de uma vida que saiu da rota, mas, que pode ser restituída? Pedro também errou quando negou Jesus! Jesus estava coberto de razão caso não quisesse mais contar com Pedro, mas não! Após ressuscitar, ele faz questão de ir atrás de Pedro, e dizer-lhe que devia apascentar suas ovelhas (João 21.15-17). Paulo não queria levar Marcos, porém Barnabé insistiu no jovem e ficou com ele. Em seus propósitos, Deus levanta alguém que acredita em nossa chamada. Alguém que não desiste da gente, que ora e que toma uma atitude assim como fez Barnabé. Não basta orar, seja como Barnabé, vá em busca de alguém que já não está na rota, que abandonou a obra; ainda há muita coisa a ser feita.

Outra coisa que aprendo, é que Deus pode usar circunstâncias difíceis para a glória do Seu nome e reino. Deus multiplicou dividindo! Talvez você esteja perdendo agora, talvez esteja tudo fora do lugar na sua casa, porém Deus está trabalhando em todos sentidos. Descanse em Deus, Ele há de dar resposta e solução para os problemas que estão tirando seu sossego.

IV- FINALMENTE, UM GRANDE OBREIRO:

Segundo R.N. Champlin: "Parece, portanto, que Barnabé fora capaz de aquilatar melhor o caráter de Marcos do que Paulo..." (CHAMPLIN, p. 130).

A companhia de Barnabé, amadureceu João Marcos. Depois do episódio de Atos 15, só vamos ver seu nome, sendo citado ao lado de grandes nomes do Cristianismo!  Não só com Barnabé, como também com Pedro e até mesmo Paulo.

Cerca de 12 anos mais tarde, não sabemos como, todavia, Marcos estava novamente com Paulo quando este esteve aprisionado em Roma (Cl 4.10).

Em Filemom 24, ele está na lista dos cooperadores de Paulo. E, poucos antes de ser morto, Paulo pede a Timóteo para trazer Marcos, pois lhe era muito útil para o ministério (2 Tm 4.13). Paulo usa a palavra grega (euchrēstos) que significa: "útil", "muito útil", "proveitoso", "adequado para o uso", "lucrativo."

Ao que parece, depois de um tempo, João Marcos, quando já era um homem maduro, fixou sua residência em Roma. A Bíblia dá a entender que Pedro tinha uma afeição enorme por ele, chamando-o inclusive de filho (1 Pedro 5.13). Claro, um filho na fé, e não biologicamente. Marcos passou um bom tempo com o apóstolo Pedro, experiência essa que lhe proporcionou um grande aprendizado para seu ministério.

Ele ainda trouxe importantes contribuições para o cristianismo. Por exemplo, hoje, é quase unânime a crença de que seu Evangelho foi o primeiro a ser escrito, tendo sido usado como fonte, inclusive por Lucas e Mateus.

Apesar de não ter conhecido Jesus pessoalmente, "com base no livro de Atos sabemos que Marcos, por algum tempo, foi companheiro de viagem do apóstolo Paulo e, deve ter sido elemento bem conhecido no círculo apostólico, por isso mesmo pode ter tido amplas oportunidades de conferenciar com Pedro e com outras testemunhas oculares, acerca da vida e dos ensinamentos de Jesus." (CHAMPLIN, p. 125).

Alguns chegam a dizer que o Evangelho Marcos é o próprio Evangelho de Pedro, sendo que escrito por Marcos. Seja como for, historicamente, Pedro deu muita contribuição para este trabalho, quer direta ou indiretamente.

A tradição além de dar crédito a Marcos pela autoria do Evangelho, também costuma afirmar que ele se tornou o primeiro intérprete pessoal de Pedro. Na História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia, encontramos uma citação de Papias, Bispo de Hierápolis em cerca de 140 d.C. Vejamos:
"Isto o presbítero também costumava dizer: 'Marcos, que realmente se tornou o primeiro intérprete de Pedro, escreveu com exatidão, tanto quanto podia relembrar, sobre as coisas feitas ou ditas pelo Senhor, embora não em ordem. Pois ele nem ouvira ao Senhor nem fora seu seguidor pessoal, mas em período posterior, conforme eu disse, passara a seguir Pedro, que costumava adaptar os ensinamentos às necessidades do momento, mas não como se estivesse traçando uma narrativa corrente dos oráculos do Senhor, de tal forma que Marcos não incorreu em equívoco ao escrever certas questões, conforme podia lembrar-se delas. Pois tinha apenas um objetivo em mira, a saber, não deixar de fora coisa alguma das coisas que ouvira e não incluir entre elas qualquer declaração falsa."  (Apud CHAMPLIN, p. 122).
A tradição ainda apresenta Marcos como sendo fundador da igreja em Alexandria, no Egito. Eusébio de Cesaréia (263-340 d.C) nos informa:

"Dizem que esse Marcos, sendo o primeiro a ser enviado ao Egito, ali proclamou o evangelho que também pusera por escrito e foi o primeiro a estabelecer igrejas na cidade de Alexandria. O número de homens e mulheres convertidos desde o início foi tão grande, e tão extraordinária a disciplina e a austeridade filosófica deles, que Filo achou por bem descrever a conduta, as assembléias e todo o modo de viver deles." (CESARÉIA, p. 63).

Não existe qualquer afirmação bíblica quanto a isso, nem apoio sólido, entretanto, também não temos como confirmar ou descredibilizar estas informações.

Finalizando, "as tradições também registram que em Alexandria, Marcos se tornou pastor, e ali, finalmente, foi martirizado." (CHAMPLIN, p. 130).

Conclusão: Por fim, veja que obra grandiosa Deus fez através de Marcos. Se Barnabé tivesse desistido do jovem, talvez ele não teria chegado aonde chegou. Mais tarde, o apóstolo Paulo que também estava mais maduro, enxergou a grande utilidade que Marcos tinha para o ministério da igreja. A lição que aprendemos com tudo isso que aconteceu com o jovem é a seguinte: no tempo de abandono, aja como Barnabé! No tempo de necessidade, aja como Paulo (2 Timóteo 4.11). Quando somos sensíveis ao Espírito Santo, ele desfaz todo rastro de contenda e mágoa que ficou no passado. Agora há um tempo; um bom obreiro não nasce de uma hora para outra. É preciso tempo, oportunidades e experiências. João Marcos nos ensina que não são os nossos erros que dão a palavra final sobre a nossa trajetória. Ainda há espaço para você na obra. Se porventura, você abriu mão da sua chamada ou deixou de cooperar para o Evangelho, saiba que Deus conta com você! Ele fez grandes coisas através de Marcos e tem o mesmo poder que tinha no passado para fazer conosco! Deus irá fazer grandes coisas através da sua vida, apenas creia e fique à disposição. Outras oportunidades virão!

Que Deus abençoe a sua vida poderosamente!

Bibliografia:

CESARÉIA, Eusébio. História Eclesiástica. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

CHAMPLIN, R.N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol 4. São Paulo: HAGNOS, 2004.

RYRIE, Charles C. A Bíblia de Estudo Anotada e Expandida. São Paulo: Mundo Cristão, 2006.

STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

SWINDOLL, Charles R. Paulo, um homem de coragem e graça. São Paulo: Mundo Cristão, 2012.

ZIBORDI, Ciro Sanches. Procuram-se pregadores como Paulo. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.

20 de julho de 2017

Resenha do livro: O que é Teologia Arminiana? Wellington Mariano



MARIANO, Wellington. O que é Teologia Arminiana. São Paulo: Reflexão, 2014, 64 p.

Por Valdemir Pires Moreira [01]

Wellington Mariano especialista em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, especialista em Literatura pela PUC-SP, especializando em Ensino de Língua Inglesa pela Estácio de Sá e bacharel em Letras com habilitação em Tradução e Interpretação pelo Centro Universitário Ibero-Americano. Tradutor das obras Teologia Arminiana: Mitos e Realidades e Contra o Calvinismo: ambas de Roger Olson, Por que não sou calvinista, de Jerry Walls e Joseph Dongell, Quem Criou Deus?, de Norman Geisler e Ravi Zacharias, dentre outras. Palestrante e pastor das Assembleias de Deus. Casado com Daniela Mariano e pai de Gustavo Henrique Mariano.

A igreja evangélica no Brasil por séculos ficou sem informações sólidas em sua língua materna sobre a mais bíblica linha soteriológica. Estamos falando do Arminianismo, sistema teológico oriundo do teólogo holandês Jacó Armínio, que pouco a pouco passa a ser conhecido pela igreja brasileira.

O Que é Teologia Arminiana? é uma obra com poucas páginas, porém com conteúdo acurado. O autor, pastor e teólogo Wellington Mariano, um dos pioneiros na divulgação do Arminianismo em solo brasileiro, introduz o assunto de maneira cativante e nos convida a aprofundarmos mais e mais nesta teologia da graça.

A obra é composta inicialmente de uma introdução à Teologia Arminiana, seguida por um relato a respeito da vida, formação e pastorado do teólogo holandês até o seu falecimento, e pela descrição dos seus primeiros seguidores que ficaram conhecidos como Remonstrantes. O autor prossegue com a apresentação daqueles que são chamados como os Cinco Artigos da Remonstrância, um resumo do que o teólogo holandês Jacó Armínio defendeu como a mais bíblica doutrina sobre a salvação. Após, ele descreve os Cinco Pontos do Arminianismo (em inglês FACTS) [02] e seus desdobramentos. 

A presente obra é excelente referência para aqueles que almejam conhecer a Teologia Arminiana, uma teologia durante séculos mal compreendida e injustamente criticada por conta da escassez de obras em língua portuguesa a respeito do tema. Aprouve a Deus permitir que a Editora Reflexão, de maneira destacada e ousada, colocasse à disposição de teólogos, seminaristas, estudiosos da Bíblia e da Igreja em geral esse valioso instrumento de estudo que certamente contribuirá também para corrigir os distorcidos e falsos ensinos a respeito da Teologia Arminiana e daquele que foi o seu precursor.

[01]- Valdemir Pires Moreira é diácono na Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Caucaia (CE), Casado com Elizangela Pires de Oliveira Moreira, Bacharelando em Teologia pelo IESTEC, Professor da Escola Bíblica Dominical e Administrador das páginas no Facebook Teologia Arminiana em Vídeos, Teologia Arminiana em Livros e Teologia Pentecostal em Vídeos.

[02]- Feitos Livres para Crer, A todos a Expiação, Condicional Eleição, Total Depravação e Segurança em Cristo. 


Entrevista exclusiva com o pastor Carlos Augusto Vailatti



Por Everton Edvaldo

A entrevista de hoje é com o Biblista, Hebraísta e Teólogo: Carlos Augusto Vailatti. Vailatti é Doutor em Estudos Judaicos, com concentração em Estudos da Bíblia Hebraica, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas- Departamento de Letras Orientais- da Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Teologia, com especialização em Teologia Bíblica, pelo Seminário Teológico Servo de Cristo (STSC). Bacharel em Teologia pela Faculdade Betel/Instituto Betel de Ensino Superior (IBES) e também pela Escola Superior (EST), Rio Grande do Sul. Atua principalmente nos seguintes temas: exegese do AT e do NT, Teologia do AT e do NT, hermenêutica e tradução de textos bíblicos.

01) Carlos Augusto Vailatti, o senhor é bastante conhecido por seus debates no programa Vejam Só, palestras, pregações, livros e posicionamentos. Acontece que há sempre um lado que desconhecemos. Já que muitas pessoas não têm proximidade com o senhor, revele-nos como é a rotina do Vailatti no dia a dia, em casa, com a família e na congregação. 

CAV: Como sou professor de diversas disciplinas teológicas em alguns seminários de São Paulo e, além disso, dou palestras em vários estados do Brasil sobre distintos assuntos bíblicos e teológicos, então minha rotina ultimamente tem sido preparar aulas, palestras, estudos e pregações. Já em termos mais pessoais, diria que sou bastante caseiro. Gosto de ficar em casa na companhia de minha esposa (Noeli), minha mãe (Antonia) e meu cachorrinho (Kalebe), um spitz alemão de quase dois anos, com quem costumo passear no parque umas duas ou três vezes por semana. Não tenho filhos. Ademais, gosto muito de ler (especialmente livros de teologia) e assistir a bons filmes de ação e ficção. Quanto à vida ministerial, pastoreio uma igreja independente, chamada Igreja Evangélica Jaboque, situada na zona leste de São Paulo, uma comunidade muito querida e abençoada por Deus.

02) Hoje não resta dúvidas de que o senhor é um arminiano assumido. Além disso, uma pessoa que inspira muitas outras. Por ser referência no assunto, acredito que muitas pessoas queiram saber como surgiu essa paixão pelo Arminianismo. Quando e como foi que “a ficha caiu” e o senhor conscientemente entendeu que era um arminiano?  

CAV: Sim, sou um arminiano convicto por livre e espontânea escolha, sem que nada e ninguém me tenha determinado a sê-lo (risos)! Quanto a ser uma referência no assunto, bem, isso é bondade sua. Sou apenas uma pessoa entusiasmada pelo tema. Creio que essa paixão pelo Arminianismo surgiu há uns oito ou nove anos. Na ocasião, durante a preparação de uma série de aulas sobre Soteriologia, acabei lendo, pela primeira vez, as Institutas de Calvino e as Works de Armínio e, ao fazê-lo, me vi totalmente convencido de que o pensamento soteriológico de Armínio estava muito mais próximo das Escrituras do que o pensamento de Calvino. Foi nesse momento que me percebi, de fato, arminiano.  

03) Traduzir a Análise de Romanos 9 escrita pela teólogo, professor e pastor Jacó Armínio deve ter sido uma experiência singular. Gostaríamos de saber, quais foram as primeiras impressões que o senhor teve durante a leitura do documento de Armínio?  

CAV: Ao ler Uma Análise de Romanos 9, de Armínio, algumas questões saltaram-me aos olhos. Em primeiro lugar, chamou-me a atenção a prolixidade (esta obra é, na verdade, uma “simples” carta que Armínio endereçou a um erudito zwingliano de sua época!), racionalidade (há silogismos em abundância no texto), erudição e piedade de Armínio. Em segundo lugar, é visível o caráter tanto bíblico quanto escolástico do seu pensamento. Por fim, são notórias a veia poética e a humildade de Armínio. No final de sua obra, Armínio redige um poema no qual se revela disposto a reconsiderar e a corrigir o seu pensamento, caso alguém mostre o erro de sua argumentação. O compromisso de Armínio não é com nenhuma “teologia de estimação”, mas sim com a verdade, doa a quem doer, incluindo ele mesmo. Esse traço de Armínio é admirável! 

04) Quando se fala na presciência de Deus, alguns arminianos costumam usar vários tipos de expressões para descrever o conhecimento que Deus possui acerca das coisas. Por exemplo, fala-se muito que na eternidade, Deus previu quem iria crer e quem não iria crer. De acordo com sua perspectiva, o verbo “prever” é adequado para esse tipo de explicação? Deus precisa ver o futuro para ter ciência das coisas? Os opositores dos arminianos afirmam que a consequência lógica desse tipo de explicação é que o Arminianismo leva ao teísmo aberto. No seu ponto de vista, dizer que simplesmente “Deus, num eterno agora, sabe de todas as ações humanas” não seria mais plausível que dizer que “Deus previu o futuro”? Ou ambas são plausíveis? Como o senhor enxerga essa questão?  

CAV: Sim, o verbo “prever” – como sinônimo de “pré-conhecer” – é adequado porque essa é a terminologia empregada pela Bíblia. O verbo grego proginosko, “conhecer de antemão” ou “pré-conhecer” ocorre, por exemplo, em Romanos 8:29 e, em 1 Pedro 1:2, o substantivo prognosis, “presciência”, também pode ser verificado. Quanto à segunda pergunta, a resposta é igualmente afirmativa. Como a onisciência é um dos atributos necessários de Deus, sem o qual Ele, evidentemente, não poderia governar o universo, logo, Deus precisa conhecer em Seu eterno presente tudo aquilo que, da perspectiva humana, é chamado de futuro, a fim de que possa reger o mundo e executar os Seus sábios desígnios. Aqui há uma questão importante. Embora a presciência divina seja cronologicamente anterior aos eventos futuros, contudo, os eventos futuros são logicamente anteriores à presciência divina. Aliás, tal presciência divina de eventos futuros não os causa, mas apenas os constata, visto que, nas palavras do próprio Armínio, “uma coisa não acontece por ter sido conhecida previamente ou predita, mas é conhecida previamente e predita porque ainda virá a acontecer” (As Obras de Armínio, Vol.2, p.67). Por fim, dizer que o Arminianismo leva ao Teísmo Aberto é uma afirmação deveras absurda. Tal crença nunca fez parte do arminianismo clássico-wesleyano, sendo estranha ao mesmo. Por outro lado, cabe lembrar que o pai do Teísmo Aberto, Clark Pinnock, era originalmente de tradição calvinista! Por aceitar o pressuposto calvinista de que a onisciência divina implica necessariamente determinismo, e, ao mesmo tempo, em reação a este mesmo pressuposto equivocado, Pinnock concebeu o conceito de Teísmo Aberto. 

05) É comum encontrar no arraial cristão brasileiro ensinamentos estranhos à Bíblia. Por exemplo, em muitas pregações, afirma-se que antes da sua corrupção, o diabo era um querubim ungido no céu e maestro do coro celestial de anjos. Como alguém que também atua na área de demonologia, poderia nos dizer se isso tem respaldo nas Escrituras? A Bíblia ensina que o diabo era um querubim ungido?  

CAV: Em nosso contexto tupiniquim, temos experimentado uma verdadeira demoniomania de uns anos pra cá. Tal ênfase demasiada dada aos demônios é perigosa e, quando feita acriticamente, pode produzir verdadeiros absurdos teológicos. No que se refere à crença popular de que “o diabo era um querubim ungido”, tal concepção parece ser derivada da interpretação alegórica de Orígenes (II-III Sécs. d.C.) de Ezequiel 28, apesar deste se referir a Satanás simplesmente como “anjo” e não como “querubim”. Entretanto, no contexto do Antigo Oriente Médio, querubins eram retratados como criaturas híbridas semelhantes a esfinges, tendo o corpo de um animal, asas e a cabeça de um ser humano. Parece-me que Ezequiel 28 tem a intenção de representar o rei de Tiro ironicamente como um “guardião” de seu povo, mas que, na verdade, em vez de protege-lo acabou contribuindo (solidariamente com o próprio povo) para a sua ruína. Já a ideia de que Satanás era “maestro do coro celestial de anjos” é retirada de Ezequiel 28:13. Contudo, penso que a referência feita neste trecho a alguns instrumentos musicais se refira, não a Satanás como uma espécie de André Rieu pré-queda (risos), mas aluda, isto sim, ao dia em que o “deus-rei” de Tiro subiu ao trono, ocasião esta celebrada com muita música e festa. Em suma, a ideia de que o diabo era um “querubim-maestro” parece ser resultado mais de uma tradição interpretativa folclórico-alegórica popular da Bíblia do que fruto de exegese séria.  
06) O senhor tem trabalhado intensamente na exposição do Arminianismo entre os cristãos aqui do Brasil. Como tem sido essa experiência? Sente que ainda existem muitas dúvidas com relação ao Arminianismo? Se sim, o que o senhor tem feito para dar conta desse desafio? 

CAV: Sim, tenho falado com frequência sobre o Arminianismo a diversos públicos no Brasil. Aliás, nas próximas semanas discorrerei sobre esse tema em duas palestras, uma no Rio e outra na Paraíba. Essa experiência tem sido muito gratificante e, ao mesmo tempo, bastante desafiadora. Tenho notado especialmente dois tipos de postura quanto ao assunto. Primeiramente, as pessoas têm exibido um desejo muito grande de saber mais sobre esse sistema teológico. E, em segundo lugar, percebe-se, paralelamente, um desconhecimento profundo acerca da questão, até mesmo por parte de pastores e líderes de igrejas que, em tese, são arminianas. De modo geral, tenho notado um interesse cada vez maior das pessoas em querer saber exatamente o que é a teologia arminiana. Eu acho isso maravilhoso.    

07) A continuidade dos dons espirituais é um tema que novamente tem sido alvo de interesse e estudo. Qual sua perspectiva com relação aos dons? Bem sabemos que todo Pentecostal é continuísta, mas nem todo continuísta é Pentecostal. Como o senhor se encaixa dentro do terreno pneumatológico? 

CAV: Com relação aos dons, sou um continuísta convicto. Vejo o Cessacionismo como uma crença estranha e perigosa, para a qual não há o mínimo fundamento bíblico. Na verdade, o cessacionismo nada mais é do que uma crença baseada na experiência, ou seja, na experiência da ausência de experiências sobrenaturais por parte de seus proponentes e defensores. Entretanto, o cessacionismo não subsiste diante das evidências escriturísticas e históricas, que atestam amplamente a continuidade dos dons e das manifestações sobrenaturais ao longo da história da igreja. Comparo os cessacionistas aos peixes, que, por viverem sempre cercados pelas águas, não acreditam na existência de vida fora e acima de seu habitat natural aquoso... até serem pescados. Quando isso ocorre, eles descobrem que há vida além da superfície dos rios e dos mares. Em termos pneumatológicos, me defino como “carismático”, isto é, creio na atualidade de todos os charismata (dons), mas, diferentemente do pentecostalismo clássico, não acredito que o batismo com o Espírito Santo (ou “enchimento com o Espírito Santo”, como prefiro denomina-lo) deva ser acompanhado necessariamente pela evidência glossolálica. 

08) Quando se trata de tradução da Bíblia para a língua nativa, já podemos - graças a Deus - contar com várias delas em língua Portuguesa. Entretanto, na hora de estudar as Sagradas Escrituras muitos cristãos que não têm uma formação acadêmica, desejam uma tradução que mais se aproxime do “original”, ou melhor, daquilo que se depreende terem sido os originais. Como estudante das línguas bíblicas, o senhor certamente tem algo a nos dizer sobre isso. Essa preocupação precisa ser real? Existe alguma tradução em língua portuguesa que mais se aproxime do original? Se sim, qual delas? E o senhor, quando vai pregar utiliza qual versão da Bíblia? 

CAV: Tenho respondido a essas perguntas com bastante frequência. Na verdade, estas questões referentes às traduções bíblicas estão entre as dúvidas mais recorrentes entre os cristãos em geral. Quando falamos sobre traduções bíblicas, devemos esclarecer primeiramente que existem dois métodos principais de tradução da Bíblia: o método de equivalência formal/literal e o método de equivalência conceitual/dinâmica. (1) O método de equivalência formal busca seguir, na medida do possível, a forma da língua em que se encontra a mensagem original. Poderíamos enquadrar nesta classificação as traduções brasileiras da Bíblia conhecidas como ARC (Almeida, Revista e Corrigida) e ARA (Almeida, Revista e Atualizada), as quais buscam ser mais literais e seguir de perto a forma dos textos originais. (2) O método de equivalência conceitual, por sua vez, busca comunicar o significado exato da mensagem original, expressando-o de forma compatível com a língua receptora. Para esse método, traduzir o conceito por trás das palavras é mais importante do que seguir um literalismo rígido. Isto não quer dizer, entretanto, que não existam elementos formais e conceituais sobrepostos em ambas as metodologias. Quer dizer apenas que cada um desses métodos privilegia mais um pressuposto tradutivo do que o outro no seu processo de elaboração de uma tradução bíblica. Entre as Bíblias que seguem este segundo método tradutivo está a NVI (Nova Versão Internacional). Creio que os exemplos a seguir ajudarão a visualizar melhor as diferenças entre os dois métodos. Tomemos como exemplo Gênesis 1:1. Utilizando o método de equivalência formal, esse versículo seria traduzido assim: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. Já utilizando o método de equivalência conceitual, poderíamos traduzir esse mesmo versículo desse modo: “No princípio, Deus criou o Universo”. Neste primeiro versículo da Bíblia, “os céus e a terra” funcionam como uma sinédoque – figura de linguagem que é caracterizada normalmente por tomar a parte pelo todo e vice-versa. Na verdade, essas duas traduções estão dizendo a mesma coisa, mas com palavras e pressupostos tradutivos distintos. Ambas as traduções estão dizendo que Deus criou todo o cosmos. Em geral, eu diria que é difícil dizer qual tradução mais se aproxima do original, visto que esta é uma questão bastante subjetiva. Dependerá da predileção do leitor por traduções mais formais ou mais conceituais da Bíblia. Particularmente, diria que a ARA (Almeida, Revista e Atualizada) e a NVI (Nova Versão Internacional) são duas ótimas opções de traduções da Bíblia para o português. Quando prego, utilizo frequentemente a ARA. 

09) Algumas pessoas costumam dizer que sentem a impressão de que os autores bíblicos quando relatavam alguma adversidade ou calamidade, entendiam que elas procediam de Deus. Segundo elas, isso é perceptível principalmente no Antigo Testamento. Essa impressão durante a leitura bíblica é aparente ou é real? Se for real, porque os autores judeus escreveram dessa forma? Deus tem participação direta nas calamidades que acometem a humanidade? 

CAV: Antes de qualquer coisa, devemos conceituar o que você chama de “adversidade” ou “calamidade”. Em filosofia, costuma-se classificar os males existentes no mundo (os quais certamente se traduzem em adversidades e calamidades) em dois tipos: males morais (aqueles resultantes das escolhas intencionais humanas) e males naturais (doenças, acidentes, fenômenos da natureza etc). Embora entenda, por um lado, que Deus possa ter participação direta em vários fenômenos da natureza destrutivos (tais como, terremotos, maremotos, tufões etc) como forma de exercer o seu justo juízo divino contra o pecado, compreendo, por outro lado, no que tange aos males morais, que Deus apenas os permite. Com “permissão” quero me referir ao entendimento de que Deus permite a existência do pecado no sentido de que Ele permite que ele se realize, mas não o vê com aprovação e nem tampouco o deseja, mas apenas consente com o seu livre curso a fim de que os seres humanos possam exercer a sua liberdade divinamente concedida (quer para o bem, quer para o mal). Creio que Deus permite a existência do pecado por duas razões principais: primeira, (já previamente mencionada) para que a liberdade da vontade humana seja preservada. Caso contrário, os seres humanos não poderiam ser responsáveis por seus atos. Em segundo lugar, creio que Deus só permite o mal porque, de algum modo, ainda que desconhecido por nós, Ele pode produzir algum tipo de bem a partir dele.

Quanto à maneira dos judeus descreverem a origem dos males no Antigo Testamento, deve-se salientar que, de acordo com o pensamento hebraico, o que quer que Deus permita, Ele é visto como cometendo-o. Contudo, tal ação divina deve ser entendida, muitas vezes, como uma forma de exprimir a divina permissão. Para poder explicar melhor essa questão temos que levar em consideração a chamada “revelação progressiva” divina, que é definida por Zuck (A Interpretação Bíblica, p.85) nesses termos: “[a] uma informação que pode ter sido parcial [anteriormente] foi acrescentada [outra informação] posteriormente, de sorte que a revelação ficou mais completa”. Tendo essa definição em mente, gostaria de responder à sua questão valendo-me de três textos bíblicos como exemplos do que quero dizer. Em um estágio anterior da revelação bíblica, 2 Samuel 24:1 diz que o “Senhor” incitou Davi a realizar um censo e, ao mesmo tempo, o puniu por isso. Entretanto, em um estágio posterior da revelação, mais precisamente em 1 Crônicas 21:1, somos informados de que, na verdade, foi “Satanás” quem fez isso. Ora, como podemos harmonizar essa aparente contradição? Um argumento baseado na analogia fidei nos ajuda a responder a questão. O livro de Jó, nos capítulos 1 e 2, nos diz que todos os males causados na vida e família de Jó foram realizados por Satanás, mas sob a permissão divina. Entretanto, Jó (e seus parentes e amigos) parece não ter a menor ideia da existência de um ser chamado Satanás, de modo que, num certo sentido, ele atribui equivocadamente a origem de todos os seus males a Deus, e não ao diabo. Entretanto, Jó age assim porque, diferentemente de nós, ele não leu o livro que leva o seu próprio nome! Se o tivesse feito, ele saberia que o verdadeiro responsável por todos os males que lhe sobrevieram foi Satanás. Creio que esse mesmo conceito esteja por trás dos primeiros dois textos citados. Portanto, a solução mais adequada para a dificuldade bíblica acima mencionada seria: Satanás incitou Davi a realizar o censo, mas o fez sob a permissão de Deus. Contudo, essa interpretação é construída tendo como base o texto auxiliar de Jó, a partir do qual infere-se e projeta-se a mesma interpretação sobre os textos de 2 Samuel 24:1 e 1 Crônicas 21:1. Em linhas gerais, e respondendo à sua pergunta mais especificamente, sim, Deus tem participação nas calamidades que acometem a humanidade, quer permitindo-as, quer agindo ativamente na sua execução a fim de exercer os Seus justos juízos. 

10) Assim como Armínio, acredito que a fé salvífica seja um dom de Deus, não no sentido de que ela seja dada de forma irresistível e compulsiva, porém de maneira amorosa e que capacita o homem a crer em Jesus e consequentemente ser salvo. A Bíblia apresenta a fé como sendo um instrumento pelo qual Deus salva o homem e que ela vem através da pregação do evangelho. Diante dessa realidade, como fica a questão dos não-evangelizados? Como poderão crer se não ouviram ainda a palavra da salvação? Como o senhor entende essa questão da fé como um dom e como um elemento essencial para a salvação? 

CAV: Concordo com você quanto ao fato de a fé ser um dom de Deus, mas não no sentido calvinista, como um dom dado apenas a alguns indivíduos de forma incondicional, ou melhor dizendo, de forma arbitrária e injusta. No que diz respeito aos povos não-evangelizados, creio que Deus seria absolutamente injusto se utilizasse como critério para a salvação deles a fé em Cristo (assim como seria injusto usar a fé em Cristo como critério de salvação para os bebês e os portadores de debilidades mentais). Deus poderia julgar e condenar de forma justa aqueles que não creram em Cristo, quando, na verdade, eles nunca ouviram falar de Cristo? Penso que não. Neste caso, creio que Romanos 1 e 2 talvez nos ajude a lançar maior luz sobre a questão. Segundo estes dois capítulos da Bíblia, Deus julgará as pessoas de acordo com a informação autorrevelada dEle que elas tiverem. Neste caso, tais informações são oriundas de duas fontes: a natureza (Romanos 1) e a consciência (Romanos 2), sendo o conjunto de ambas conhecido como “revelação geral”. Desse modo, entendo que mesmo nos lugares onde a mensagem do Evangelho é desconhecida, a salvação seja possível a qualquer um que responda em fé a autorrevelação geral de Deus, na natureza e na consciência. Em outras palavras, a fé em Cristo é o critério para a salvação daqueles que ouviram falar de Cristo e que podem responder à mensagem ouvida. A fé em Cristo não pode ser o critério para a salvação daqueles que nunca ouviram falar de Cristo e/ou não podem responder à mensagem do evangelho (p.ex., personagens veterotestamentários, povos não-evangelizados, criancinhas e portadores de deficiências mentais). Entretanto, todos aqueles que vierem a ser salvos só o serão em razão da morte expiatória de Cristo, ainda que não tenham um conhecimento consciente desse fato. Talvez um exemplo mais claro se faça necessário aqui. A salvação no Antigo Testamento se dava da mesma forma como no Novo Testamento, ou seja, pela graça, mediante a fé. Contudo, o conteúdo dessa fé era distinto em ambos os casos. No AT, a salvação se dava pela fé em Yahweh (e não em Jesus, pois este ainda nem existia enquanto personagem histórica, i.e., como Jesus de Nazaré). Já no NT, a salvação se dá pela fé em Cristo. Em resumo, eu diria que uma fé-resposta, proporcionada pela graça divina, é imprescindível para a salvação daqueles que podem responder em fé, mas não é necessária para aqueles que não podem responder desta forma (p.ex., bebês e portadores de deficiências mentais). Uma outra resposta possível (ainda que hipotética) seria dizer que os não-evangelizados jamais creriam no evangelho ainda que o ouvissem. Neste caso, Deus teria organizado o mundo de tal maneira que aqueles que Ele sabia de antemão que creriam no evangelho, caso o tivessem ouvido, nasceriam num tempo e lugar da história nos quais tal fé-resposta lhes seria possibilitada. Por outro lado, Deus também pode ter organizado providencialmente o mundo de tal modo que aqueles que Ele conhecia previamente que nunca creriam no evangelho, mesmo se o tivessem ouvido, nasceriam em um tempo e lugar da história nos quais tal fé-resposta não lhes fosse possível (não por causa de algum decreto divino oculto que os impedisse de serem salvos e nem tampouco porque Deus não intencionou alcança-los com a mensagem graciosa do evangelho, mas simplesmente porque Deus já sabia que eles rejeitariam livremente a Sua salvação). Em resumo, é isso.  

Atenciosamente, Esquina da Teologia Pentecostal.

17 de julho de 2017

Entrevista exclusiva com o Pastor José Gonçalves



Por Everton Edvaldo 

O blog Esquina da Teologia Pentecostal entrevista hoje o pastor José Gonçalves. Ele é pastor da Assembleia de Deus de Água Branca (PI), escritor, articulista e comentarista de Lições Bíblicas de Adultos da CPAD. 

01) Esquina da Teologia Pentecostal: A sua trajetória como escritor, pastor e expositor da Palavra de Deus é bastante notória entre os pentecostais. Já faz muitos anos que o senhor tem se dedicado à essa tarefa que apesar de ser trabalhosa, é realizada com tanta dedicação. Acredito que no início da sua caminhada cristã, tenha enfrentado vários desafios para chegar até aqui. Pode nos revelar, quais desses desafios o senhor teve que enfrentar por causa do Evangelho de Cristo? 

Pastor José Gonçalves: Antes de ingressar no ministério pastoral de tempo integral eu era um funcionário público da esfera Federal. Nunca havia imaginado ser um pastor, nem mesmo gostava de pensar nessa ideia e mais, sentia-me desconfortável quando alguém insinuava isso! Todavia, mesmo tendo o tempo limitado pela função pública que exercia, sempre procurei ser dedicado na obra de Deus. Foi querendo aprender mais da palavra de Deus que ingressei no Seminário Batista de Teresina, onde bacharelei-me em Teologia e sendo considerado o melhor aluno de grego bíblico da história do Seminário até então. Na sequência ingressei na faculdade de Filosofia na Universidade Federal do Piauí, onde formei-me com Laura Universitária.

A minha chamada pastoral e o meu ingresso no ministério pastoral de tempo integral foi algo que o Senhor tratou diretamente comigo. Certo dia eu estava orando no templo da igreja na qual me congregava e enquanto orava em línguas, veio-me a interpretação: EU TENHO UMA ALIANÇA MINISTERIAL COM VOCÊ. Oito anos depois fui procurado por meu pastor que me informou estar sentindo de Deus apresentar-me na Convenção para o ministério de evangelista. Dias depois, enquanto eu orava buscando uma resposta de Deus acerca daquela proposta, perguntei ao Senhor sobre esse convite. Imediatamente Ele me perguntou: “Você me ama?” – “Sim, Senhor!” Respondi. Então Ele falou: “Vá para a Convenção”. Naquela semana eu estava sendo consagrado ao ministério. Dias depois dirigi-me ao órgão público no qual trabalhava para pedir desligamento. 

02) Esquina da Teologia Pentecostal: Como autor de tantos livros e uma referência entre os pentecostais brasileiros, você sempre procura trazer em seus trabalhos, um conteúdo que além de ser bíblico, seja acessível e de qualidade para seus leitores. Podemos constatar tais características em cada livro que você publica. Na sua perspectiva, quais são as características que um pregador/escritor pentecostal deve possuir? 

Pastor José Gonçalves: A minha caminhada como escritor coincide com a minha chamada pastoral. Logo após ingressar no ministério pastoral de tempo integral, e abandonar o serviço público Federal, veio-me o desejo de escrever aquilo que eu achava ser relevante para a vida cristã. Em 2002 lancei o meu primeiro livro, intitulado: Missões: o mundo pede socorro (Ed. Halley) com o propósito de angariar fundos para o departamento de missões de nossa igreja do qual eu era o secretário. O livro foi bem aceito e motivou-me enviar para a CPAD outros textos que, concomitantemente, eu havia escrito nessa época. Foi nesse período também que fui convidado para escrever o meu primeiro artigo em um periódico da CPAD. Algum tempo depois fui informado por essa editora que o livro: Por que Caem os Valentes? havia sido aprovado e que seria publicado posteriormente, o que de fato, ocorreu em 2006.  A aceitação desse livro foi surpreendente, fato que levou a editora produzir outras edições. Depois do lançamento desse livro fui convidado para ser comentarista das Lições Bíblicas da EBD, estreando com a revista: Davi: vitórias e derrotas de um homem de Deus em 2009. Outras obras se seguiram a essa. 

Para mim a escrita é um ministério. Na verdade, o Senhor falou, muito antes de começar a publicar o que escrevi, que eu iria até mesmo admirar-me da forma como Ele me usaria no ministério da escrita. Portanto, sou consciente que administro uma graça de Deus que me foi dada e que nada posso por mim mesmo. Procurou fazer com qualidade aquilo que o Senhor me confiou e para isso aprendi a investir em qualquer coisa que possa trazer aprimoramento a esse ministério. 

03) Esquina da Teologia Pentecostal: Representando a maioria do evangelismo brasileiro, os pentecostais são muitas vezes taxados como cristãos que não gostam de estudar as Escrituras e que valorizam a experiência em detrimento da Palavra de Deus. Como pastor há tantos anos, de um rebanho composto por pentecostais, poderia nos dizer se isso é verdade? O Pentecostalismo supervaloriza as experiências em detrimento do estudo sério e contínuo das Sagradas Escrituras? 

Pastor José Gonçalves: O termo “pentecostal” é muito abrangente, envolvendo pentecostais clássicos, carismáticos e mais recentemente a terceira onda. Dentro desse universo há tradições pentecostais que se distanciaram da cultura e desenvolveram uma atitude de reserva quanto a mesma. Isso tinha uma razão de ser – os pentecostais, na sua grande maioria, vieram de movimentos periféricos, que não tinham muita aceitação dentro do que comumente se denominou de protestantismo histórico. Por outro lado, os pentecostais viam também com reserva muitas dessas igrejas históricas, achando que as mesmas haviam se mundanizado e se secularizado, o que eles associaram à cultura. O que era uma verdade. Todavia, isso não é uma verdade absoluta quanto a todo o movimento. Os pentecostais clássicos logo viram a necessidade de buscar um aprofundamento no estudo sistemático da palavra de Deus. Esse fato foi favorecido pela conversão ao pentecostalismo de muitos líderes pertencentes ao protestantismo histórico. Esses líderes, que possuíam formação acadêmica fomentaram o estudo das Escrituras levando em conta as ferramentas da teologia. Gunnar Vingren, fundador das Assembleias de Deus no Brasil, por exemplo, já havia obtido formação em Teologia quando aqui chegou.  

04) Esquina da Teologia Pentecostal: Desde o avivamento da Rua Azuza, a chama pentecostal ganhou o mundo e tem produzido frutos incontáveis. Desde então, milhares de vidas são impactadas com Evangelho da graça, são libertas do pecado, salvas, batizadas com o Espírito Santo, discipuladas e fortalecidas no corpo de Cristo. Por outro lado, as estratégias malignas estão sendo constantemente intensificadas contra a igreja de Cristo. As seitas estão crescendo e muitos "evangelhos" estão sendo fabricados disfarçados da verdade. No meio dessas duas realidades, há quem diga que Jesus voltará quando a igreja estiver em apostasia e na mente delas, já que a apostasia é um sinal de que a volta de Jesus está próxima, não precisamos se preocupar com tais acontecimentos pois tudo não passa de um cumprimento da Palavra de Deus. Como o senhor enxerga essa questão? Devemos nos preocupar com os males que assolam a igreja? 

Pastor José Gonçalves: Por ocasião do dia de Pentecostes, o apóstolo Pedro falou que aquele evento fazia parte dos “últimos dias” (At 2.17). A vinda do Messias, e sua consequente morte e ressurreição, provocou a entrada da igreja na era escatológica. O tempo do fim, portanto, estava inaugurado. O relógio de Deus está em contagem regressiva. Não temos como fugir dessa realidade. O que vemos a partir de então é um crescimento da iniquidade e apostasia. Todavia, a igreja foi capacitada no Pentecostes para enfrentar essa “era”. O problema surge quando a igreja perde o foco e começa a miliar fora do seu curso. Parece que é o que estamos vendo hoje. Muitas vezes parece que a igreja quer mudar o Sistema através do Sistema. Outras vezes, há uma espécie de fogo amigo. Muitos cristãos, por exemplo, usam as redes sociais para se digladiarem, não sabendo que seu inimigo não é um outro cristão, mas o diabo. É momento de nos unirmos para enfrentarmos um inimigo, que apesar de já está sentenciado, ainda não foi aprisionado.   

05) Esquina da Teologia Pentecostal: Certamente, é preciso ser sábio para conciliar o trabalho, com a igreja e com a família. É um desafio! Então, como você tem feito para administrar seu tempo sem negligenciar uma dessas três áreas?  

Pr José Gonçalves: No meu caso eu renunciei a carreira pública para me dedicar ao ministério de tempo integral. Ninguém me mandou, nem mesmo fui encorajado para isso. Foi uma decisão pessoal. Todavia nunca me arrependi dessa escolha. Em tudo tenho sido abençoado pelo Senhor. No ministério de tempo integral passei a ser pastor, escritor (mestre) e também palestrante (pregador). Esse fato fez com que eu montasse uma equipe forte que me dá sustentação. Para que a igreja não seja sacrificada atendo um ou no máximo dois convites por mês. 

06) Esquina da Teologia Pentecostal: Tenho a impressão de que a pergunta que farei agora, é curiosidade de qualquer pessoa que admira e lê suas obras. Em média, você passa quanto tempo escrevendo um livro?   

Pr José Gonçalves: Isso é relativo. Rsrsrs. Tenho livros que escrevi em 15 dias, enquanto outros levei anos para escrever. O fato é que costumo trabalhar rápido e quando sob pressão mais rápido ainda. 

07) Esquina da Teologia Pentecostal: Nos últimos anos, muito se tem investido na tradução de obras de autores carismáticos, pentecostais e continuístas. Como sei que o senhor é atualíssimo quando o assunto é pneumatologia, gostaria de saber se tem acompanhado esse processo. O senhor tem lido/avaliado essas obras? O que tem a nos dizer?

Pastor José Gonçalves: Sim. Alegro-me por esse despertar para a teologia pentecostal. Nossa editora (CPAD) tem feito um esforço gigantesco para colocar nas mãos de nosso povo obras de qualidade e que representem o pensamento pentecostal clássico. Outras editoras têm feito o mesmo.  Fico feliz porque tenho o prazer de ver traduzidas em português obras que já há algum tempo eu dispunha em inglês. Esse fato merece ser louvado. 

08) Esquina da Teologia Pentecostal: Quais benefícios um cristão desfruta quando é aluno assíduo da Escola Bíblica Dominical? 

Pastor José Gonçalves: Muitos! Uma estatística feita entre grandes líderes cristãos na América do Norte, constatou-se o fato que 94% deles foram alunos da Escola Dominical. A EBD é o grande Seminário da igreja. É nela que os crentes aprendem de forma sistematizada as doutrinas bíblicas e consequentemente fundamentam a sua fé. Vejo com desconfiança o discipulado de igrejas que aboliram a EBD. 

09) Esquina da Teologia Pentecostal: Por fim, gostaria que falasse o que lhe atraiu na Teologia Pentecostal Clássica e que faz você vivê-la com tanto amor e empenho.  

Pastor José Gonçalves: Converti-me em 1983 nas Assembleias de Deus e todo esse tempo convivi com a doutrina pentecostal clássica. Tive minha experiência pentecostal com o Espírito Santo, falando em línguas, ainda nos primeiros anos de minha conversão. Fui ensinado a ter um zelo pela santificação, dons espirituais e evangelismo. Para mim é muito tarde para alguém me dizer que os dons espirituais não são para hoje. Todos esses anos vi eles sendo exercitados e ainda continuo vendo. Vou contar apenas um fato para ilustrar a praticidade dos dons na vida da igreja. Certa vez eu visitava uma irmã e quando já me despedia para ir embora, ela solicitou que fizéssemos uma oração. Enquanto orávamos eu vi uma grande porta na minha frente que se encontrava fechada e com uma trave (um tipo de tramela usada em portas aqui no Nordeste) que a fechava. Quando terminamos a oração eu disse: “irmã eu vi uma porta grande fechada”. Aquela irmã começou a chorar e disse: “É a aposentadoria do meu marido que já veio negada três vezes”. Eu percebi que eles iriam desistir de orar em prol daquele objetivo. Então o Senhor falou comigo naquele momento: “Diga pra ela que continue orando que a tramela vai quebrar e a porta vai abrir”. Foi o que aconteceu. Pouco tempo depois aquele irmão estava aposentado.! Glória Deus. 

Atenciosamente, Esquina da Teologia Pentecostal.