20 de julho de 2017

Entrevista exclusiva com o pastor Carlos Augusto Vailatti



Por Everton Edvaldo

A entrevista de hoje é com o Biblista, Hebraísta e Teólogo: Carlos Augusto Vailatti. Vailatti é Doutor em Estudos Judaicos, com concentração em Estudos da Bíblia Hebraica, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas- Departamento de Letras Orientais- da Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Teologia, com especialização em Teologia Bíblica, pelo Seminário Teológico Servo de Cristo (STSC). Bacharel em Teologia pela Faculdade Betel/Instituto Betel de Ensino Superior (IBES) e também pela Escola Superior (EST), Rio Grande do Sul. Atua principalmente nos seguintes temas: exegese do AT e do NT, Teologia do AT e do NT, hermenêutica e tradução de textos bíblicos.

01) Carlos Augusto Vailatti, o senhor é bastante conhecido por seus debates no programa Vejam Só, palestras, pregações, livros e posicionamentos. Acontece que há sempre um lado que desconhecemos. Já que muitas pessoas não têm proximidade com o senhor, revele-nos como é a rotina do Vailatti no dia a dia, em casa, com a família e na congregação. 

CAV: Como sou professor de diversas disciplinas teológicas em alguns seminários de São Paulo e, além disso, dou palestras em vários estados do Brasil sobre distintos assuntos bíblicos e teológicos, então minha rotina ultimamente tem sido preparar aulas, palestras, estudos e pregações. Já em termos mais pessoais, diria que sou bastante caseiro. Gosto de ficar em casa na companhia de minha esposa (Noeli), minha mãe (Antonia) e meu cachorrinho (Kalebe), um spitz alemão de quase dois anos, com quem costumo passear no parque umas duas ou três vezes por semana. Não tenho filhos. Ademais, gosto muito de ler (especialmente livros de teologia) e assistir a bons filmes de ação e ficção. Quanto à vida ministerial, pastoreio uma igreja independente, chamada Igreja Evangélica Jaboque, situada na zona leste de São Paulo, uma comunidade muito querida e abençoada por Deus.

02) Hoje não resta dúvidas de que o senhor é um arminiano assumido. Além disso, uma pessoa que inspira muitas outras. Por ser referência no assunto, acredito que muitas pessoas queiram saber como surgiu essa paixão pelo Arminianismo. Quando e como foi que “a ficha caiu” e o senhor conscientemente entendeu que era um arminiano?  

CAV: Sim, sou um arminiano convicto por livre e espontânea escolha, sem que nada e ninguém me tenha determinado a sê-lo (risos)! Quanto a ser uma referência no assunto, bem, isso é bondade sua. Sou apenas uma pessoa entusiasmada pelo tema. Creio que essa paixão pelo Arminianismo surgiu há uns oito ou nove anos. Na ocasião, durante a preparação de uma série de aulas sobre Soteriologia, acabei lendo, pela primeira vez, as Institutas de Calvino e as Works de Armínio e, ao fazê-lo, me vi totalmente convencido de que o pensamento soteriológico de Armínio estava muito mais próximo das Escrituras do que o pensamento de Calvino. Foi nesse momento que me percebi, de fato, arminiano.  

03) Traduzir a Análise de Romanos 9 escrita pela teólogo, professor e pastor Jacó Armínio deve ter sido uma experiência singular. Gostaríamos de saber, quais foram as primeiras impressões que o senhor teve durante a leitura do documento de Armínio?  

CAV: Ao ler Uma Análise de Romanos 9, de Armínio, algumas questões saltaram-me aos olhos. Em primeiro lugar, chamou-me a atenção a prolixidade (esta obra é, na verdade, uma “simples” carta que Armínio endereçou a um erudito zwingliano de sua época!), racionalidade (há silogismos em abundância no texto), erudição e piedade de Armínio. Em segundo lugar, é visível o caráter tanto bíblico quanto escolástico do seu pensamento. Por fim, são notórias a veia poética e a humildade de Armínio. No final de sua obra, Armínio redige um poema no qual se revela disposto a reconsiderar e a corrigir o seu pensamento, caso alguém mostre o erro de sua argumentação. O compromisso de Armínio não é com nenhuma “teologia de estimação”, mas sim com a verdade, doa a quem doer, incluindo ele mesmo. Esse traço de Armínio é admirável! 

04) Quando se fala na presciência de Deus, alguns arminianos costumam usar vários tipos de expressões para descrever o conhecimento que Deus possui acerca das coisas. Por exemplo, fala-se muito que na eternidade, Deus previu quem iria crer e quem não iria crer. De acordo com sua perspectiva, o verbo “prever” é adequado para esse tipo de explicação? Deus precisa ver o futuro para ter ciência das coisas? Os opositores dos arminianos afirmam que a consequência lógica desse tipo de explicação é que o Arminianismo leva ao teísmo aberto. No seu ponto de vista, dizer que simplesmente “Deus, num eterno agora, sabe de todas as ações humanas” não seria mais plausível que dizer que “Deus previu o futuro”? Ou ambas são plausíveis? Como o senhor enxerga essa questão?  

CAV: Sim, o verbo “prever” – como sinônimo de “pré-conhecer” – é adequado porque essa é a terminologia empregada pela Bíblia. O verbo grego proginosko, “conhecer de antemão” ou “pré-conhecer” ocorre, por exemplo, em Romanos 8:29 e, em 1 Pedro 1:2, o substantivo prognosis, “presciência”, também pode ser verificado. Quanto à segunda pergunta, a resposta é igualmente afirmativa. Como a onisciência é um dos atributos necessários de Deus, sem o qual Ele, evidentemente, não poderia governar o universo, logo, Deus precisa conhecer em Seu eterno presente tudo aquilo que, da perspectiva humana, é chamado de futuro, a fim de que possa reger o mundo e executar os Seus sábios desígnios. Aqui há uma questão importante. Embora a presciência divina seja cronologicamente anterior aos eventos futuros, contudo, os eventos futuros são logicamente anteriores à presciência divina. Aliás, tal presciência divina de eventos futuros não os causa, mas apenas os constata, visto que, nas palavras do próprio Armínio, “uma coisa não acontece por ter sido conhecida previamente ou predita, mas é conhecida previamente e predita porque ainda virá a acontecer” (As Obras de Armínio, Vol.2, p.67). Por fim, dizer que o Arminianismo leva ao Teísmo Aberto é uma afirmação deveras absurda. Tal crença nunca fez parte do arminianismo clássico-wesleyano, sendo estranha ao mesmo. Por outro lado, cabe lembrar que o pai do Teísmo Aberto, Clark Pinnock, era originalmente de tradição calvinista! Por aceitar o pressuposto calvinista de que a onisciência divina implica necessariamente determinismo, e, ao mesmo tempo, em reação a este mesmo pressuposto equivocado, Pinnock concebeu o conceito de Teísmo Aberto. 

05) É comum encontrar no arraial cristão brasileiro ensinamentos estranhos à Bíblia. Por exemplo, em muitas pregações, afirma-se que antes da sua corrupção, o diabo era um querubim ungido no céu e maestro do coro celestial de anjos. Como alguém que também atua na área de demonologia, poderia nos dizer se isso tem respaldo nas Escrituras? A Bíblia ensina que o diabo era um querubim ungido?  

CAV: Em nosso contexto tupiniquim, temos experimentado uma verdadeira demoniomania de uns anos pra cá. Tal ênfase demasiada dada aos demônios é perigosa e, quando feita acriticamente, pode produzir verdadeiros absurdos teológicos. No que se refere à crença popular de que “o diabo era um querubim ungido”, tal concepção parece ser derivada da interpretação alegórica de Orígenes (II-III Sécs. d.C.) de Ezequiel 28, apesar deste se referir a Satanás simplesmente como “anjo” e não como “querubim”. Entretanto, no contexto do Antigo Oriente Médio, querubins eram retratados como criaturas híbridas semelhantes a esfinges, tendo o corpo de um animal, asas e a cabeça de um ser humano. Parece-me que Ezequiel 28 tem a intenção de representar o rei de Tiro ironicamente como um “guardião” de seu povo, mas que, na verdade, em vez de protege-lo acabou contribuindo (solidariamente com o próprio povo) para a sua ruína. Já a ideia de que Satanás era “maestro do coro celestial de anjos” é retirada de Ezequiel 28:13. Contudo, penso que a referência feita neste trecho a alguns instrumentos musicais se refira, não a Satanás como uma espécie de André Rieu pré-queda (risos), mas aluda, isto sim, ao dia em que o “deus-rei” de Tiro subiu ao trono, ocasião esta celebrada com muita música e festa. Em suma, a ideia de que o diabo era um “querubim-maestro” parece ser resultado mais de uma tradição interpretativa folclórico-alegórica popular da Bíblia do que fruto de exegese séria.  
06) O senhor tem trabalhado intensamente na exposição do Arminianismo entre os cristãos aqui do Brasil. Como tem sido essa experiência? Sente que ainda existem muitas dúvidas com relação ao Arminianismo? Se sim, o que o senhor tem feito para dar conta desse desafio? 

CAV: Sim, tenho falado com frequência sobre o Arminianismo a diversos públicos no Brasil. Aliás, nas próximas semanas discorrerei sobre esse tema em duas palestras, uma no Rio e outra na Paraíba. Essa experiência tem sido muito gratificante e, ao mesmo tempo, bastante desafiadora. Tenho notado especialmente dois tipos de postura quanto ao assunto. Primeiramente, as pessoas têm exibido um desejo muito grande de saber mais sobre esse sistema teológico. E, em segundo lugar, percebe-se, paralelamente, um desconhecimento profundo acerca da questão, até mesmo por parte de pastores e líderes de igrejas que, em tese, são arminianas. De modo geral, tenho notado um interesse cada vez maior das pessoas em querer saber exatamente o que é a teologia arminiana. Eu acho isso maravilhoso.    

07) A continuidade dos dons espirituais é um tema que novamente tem sido alvo de interesse e estudo. Qual sua perspectiva com relação aos dons? Bem sabemos que todo Pentecostal é continuísta, mas nem todo continuísta é Pentecostal. Como o senhor se encaixa dentro do terreno pneumatológico? 

CAV: Com relação aos dons, sou um continuísta convicto. Vejo o Cessacionismo como uma crença estranha e perigosa, para a qual não há o mínimo fundamento bíblico. Na verdade, o cessacionismo nada mais é do que uma crença baseada na experiência, ou seja, na experiência da ausência de experiências sobrenaturais por parte de seus proponentes e defensores. Entretanto, o cessacionismo não subsiste diante das evidências escriturísticas e históricas, que atestam amplamente a continuidade dos dons e das manifestações sobrenaturais ao longo da história da igreja. Comparo os cessacionistas aos peixes, que, por viverem sempre cercados pelas águas, não acreditam na existência de vida fora e acima de seu habitat natural aquoso... até serem pescados. Quando isso ocorre, eles descobrem que há vida além da superfície dos rios e dos mares. Em termos pneumatológicos, me defino como “carismático”, isto é, creio na atualidade de todos os charismata (dons), mas, diferentemente do pentecostalismo clássico, não acredito que o batismo com o Espírito Santo (ou “enchimento com o Espírito Santo”, como prefiro denomina-lo) deva ser acompanhado necessariamente pela evidência glossolálica. 

08) Quando se trata de tradução da Bíblia para a língua nativa, já podemos - graças a Deus - contar com várias delas em língua Portuguesa. Entretanto, na hora de estudar as Sagradas Escrituras muitos cristãos que não têm uma formação acadêmica, desejam uma tradução que mais se aproxime do “original”, ou melhor, daquilo que se depreende terem sido os originais. Como estudante das línguas bíblicas, o senhor certamente tem algo a nos dizer sobre isso. Essa preocupação precisa ser real? Existe alguma tradução em língua portuguesa que mais se aproxime do original? Se sim, qual delas? E o senhor, quando vai pregar utiliza qual versão da Bíblia? 

CAV: Tenho respondido a essas perguntas com bastante frequência. Na verdade, estas questões referentes às traduções bíblicas estão entre as dúvidas mais recorrentes entre os cristãos em geral. Quando falamos sobre traduções bíblicas, devemos esclarecer primeiramente que existem dois métodos principais de tradução da Bíblia: o método de equivalência formal/literal e o método de equivalência conceitual/dinâmica. (1) O método de equivalência formal busca seguir, na medida do possível, a forma da língua em que se encontra a mensagem original. Poderíamos enquadrar nesta classificação as traduções brasileiras da Bíblia conhecidas como ARC (Almeida, Revista e Corrigida) e ARA (Almeida, Revista e Atualizada), as quais buscam ser mais literais e seguir de perto a forma dos textos originais. (2) O método de equivalência conceitual, por sua vez, busca comunicar o significado exato da mensagem original, expressando-o de forma compatível com a língua receptora. Para esse método, traduzir o conceito por trás das palavras é mais importante do que seguir um literalismo rígido. Isto não quer dizer, entretanto, que não existam elementos formais e conceituais sobrepostos em ambas as metodologias. Quer dizer apenas que cada um desses métodos privilegia mais um pressuposto tradutivo do que o outro no seu processo de elaboração de uma tradução bíblica. Entre as Bíblias que seguem este segundo método tradutivo está a NVI (Nova Versão Internacional). Creio que os exemplos a seguir ajudarão a visualizar melhor as diferenças entre os dois métodos. Tomemos como exemplo Gênesis 1:1. Utilizando o método de equivalência formal, esse versículo seria traduzido assim: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. Já utilizando o método de equivalência conceitual, poderíamos traduzir esse mesmo versículo desse modo: “No princípio, Deus criou o Universo”. Neste primeiro versículo da Bíblia, “os céus e a terra” funcionam como uma sinédoque – figura de linguagem que é caracterizada normalmente por tomar a parte pelo todo e vice-versa. Na verdade, essas duas traduções estão dizendo a mesma coisa, mas com palavras e pressupostos tradutivos distintos. Ambas as traduções estão dizendo que Deus criou todo o cosmos. Em geral, eu diria que é difícil dizer qual tradução mais se aproxima do original, visto que esta é uma questão bastante subjetiva. Dependerá da predileção do leitor por traduções mais formais ou mais conceituais da Bíblia. Particularmente, diria que a ARA (Almeida, Revista e Atualizada) e a NVI (Nova Versão Internacional) são duas ótimas opções de traduções da Bíblia para o português. Quando prego, utilizo frequentemente a ARA. 

09) Algumas pessoas costumam dizer que sentem a impressão de que os autores bíblicos quando relatavam alguma adversidade ou calamidade, entendiam que elas procediam de Deus. Segundo elas, isso é perceptível principalmente no Antigo Testamento. Essa impressão durante a leitura bíblica é aparente ou é real? Se for real, porque os autores judeus escreveram dessa forma? Deus tem participação direta nas calamidades que acometem a humanidade? 

CAV: Antes de qualquer coisa, devemos conceituar o que você chama de “adversidade” ou “calamidade”. Em filosofia, costuma-se classificar os males existentes no mundo (os quais certamente se traduzem em adversidades e calamidades) em dois tipos: males morais (aqueles resultantes das escolhas intencionais humanas) e males naturais (doenças, acidentes, fenômenos da natureza etc). Embora entenda, por um lado, que Deus possa ter participação direta em vários fenômenos da natureza destrutivos (tais como, terremotos, maremotos, tufões etc) como forma de exercer o seu justo juízo divino contra o pecado, compreendo, por outro lado, no que tange aos males morais, que Deus apenas os permite. Com “permissão” quero me referir ao entendimento de que Deus permite a existência do pecado no sentido de que Ele permite que ele se realize, mas não o vê com aprovação e nem tampouco o deseja, mas apenas consente com o seu livre curso a fim de que os seres humanos possam exercer a sua liberdade divinamente concedida (quer para o bem, quer para o mal). Creio que Deus permite a existência do pecado por duas razões principais: primeira, (já previamente mencionada) para que a liberdade da vontade humana seja preservada. Caso contrário, os seres humanos não poderiam ser responsáveis por seus atos. Em segundo lugar, creio que Deus só permite o mal porque, de algum modo, ainda que desconhecido por nós, Ele pode produzir algum tipo de bem a partir dele.

Quanto à maneira dos judeus descreverem a origem dos males no Antigo Testamento, deve-se salientar que, de acordo com o pensamento hebraico, o que quer que Deus permita, Ele é visto como cometendo-o. Contudo, tal ação divina deve ser entendida, muitas vezes, como uma forma de exprimir a divina permissão. Para poder explicar melhor essa questão temos que levar em consideração a chamada “revelação progressiva” divina, que é definida por Zuck (A Interpretação Bíblica, p.85) nesses termos: “[a] uma informação que pode ter sido parcial [anteriormente] foi acrescentada [outra informação] posteriormente, de sorte que a revelação ficou mais completa”. Tendo essa definição em mente, gostaria de responder à sua questão valendo-me de três textos bíblicos como exemplos do que quero dizer. Em um estágio anterior da revelação bíblica, 2 Samuel 24:1 diz que o “Senhor” incitou Davi a realizar um censo e, ao mesmo tempo, o puniu por isso. Entretanto, em um estágio posterior da revelação, mais precisamente em 1 Crônicas 21:1, somos informados de que, na verdade, foi “Satanás” quem fez isso. Ora, como podemos harmonizar essa aparente contradição? Um argumento baseado na analogia fidei nos ajuda a responder a questão. O livro de Jó, nos capítulos 1 e 2, nos diz que todos os males causados na vida e família de Jó foram realizados por Satanás, mas sob a permissão divina. Entretanto, Jó (e seus parentes e amigos) parece não ter a menor ideia da existência de um ser chamado Satanás, de modo que, num certo sentido, ele atribui equivocadamente a origem de todos os seus males a Deus, e não ao diabo. Entretanto, Jó age assim porque, diferentemente de nós, ele não leu o livro que leva o seu próprio nome! Se o tivesse feito, ele saberia que o verdadeiro responsável por todos os males que lhe sobrevieram foi Satanás. Creio que esse mesmo conceito esteja por trás dos primeiros dois textos citados. Portanto, a solução mais adequada para a dificuldade bíblica acima mencionada seria: Satanás incitou Davi a realizar o censo, mas o fez sob a permissão de Deus. Contudo, essa interpretação é construída tendo como base o texto auxiliar de Jó, a partir do qual infere-se e projeta-se a mesma interpretação sobre os textos de 2 Samuel 24:1 e 1 Crônicas 21:1. Em linhas gerais, e respondendo à sua pergunta mais especificamente, sim, Deus tem participação nas calamidades que acometem a humanidade, quer permitindo-as, quer agindo ativamente na sua execução a fim de exercer os Seus justos juízos. 

10) Assim como Armínio, acredito que a fé salvífica seja um dom de Deus, não no sentido de que ela seja dada de forma irresistível e compulsiva, porém de maneira amorosa e que capacita o homem a crer em Jesus e consequentemente ser salvo. A Bíblia apresenta a fé como sendo um instrumento pelo qual Deus salva o homem e que ela vem através da pregação do evangelho. Diante dessa realidade, como fica a questão dos não-evangelizados? Como poderão crer se não ouviram ainda a palavra da salvação? Como o senhor entende essa questão da fé como um dom e como um elemento essencial para a salvação? 

CAV: Concordo com você quanto ao fato de a fé ser um dom de Deus, mas não no sentido calvinista, como um dom dado apenas a alguns indivíduos de forma incondicional, ou melhor dizendo, de forma arbitrária e injusta. No que diz respeito aos povos não-evangelizados, creio que Deus seria absolutamente injusto se utilizasse como critério para a salvação deles a fé em Cristo (assim como seria injusto usar a fé em Cristo como critério de salvação para os bebês e os portadores de debilidades mentais). Deus poderia julgar e condenar de forma justa aqueles que não creram em Cristo, quando, na verdade, eles nunca ouviram falar de Cristo? Penso que não. Neste caso, creio que Romanos 1 e 2 talvez nos ajude a lançar maior luz sobre a questão. Segundo estes dois capítulos da Bíblia, Deus julgará as pessoas de acordo com a informação autorrevelada dEle que elas tiverem. Neste caso, tais informações são oriundas de duas fontes: a natureza (Romanos 1) e a consciência (Romanos 2), sendo o conjunto de ambas conhecido como “revelação geral”. Desse modo, entendo que mesmo nos lugares onde a mensagem do Evangelho é desconhecida, a salvação seja possível a qualquer um que responda em fé a autorrevelação geral de Deus, na natureza e na consciência. Em outras palavras, a fé em Cristo é o critério para a salvação daqueles que ouviram falar de Cristo e que podem responder à mensagem ouvida. A fé em Cristo não pode ser o critério para a salvação daqueles que nunca ouviram falar de Cristo e/ou não podem responder à mensagem do evangelho (p.ex., personagens veterotestamentários, povos não-evangelizados, criancinhas e portadores de deficiências mentais). Entretanto, todos aqueles que vierem a ser salvos só o serão em razão da morte expiatória de Cristo, ainda que não tenham um conhecimento consciente desse fato. Talvez um exemplo mais claro se faça necessário aqui. A salvação no Antigo Testamento se dava da mesma forma como no Novo Testamento, ou seja, pela graça, mediante a fé. Contudo, o conteúdo dessa fé era distinto em ambos os casos. No AT, a salvação se dava pela fé em Yahweh (e não em Jesus, pois este ainda nem existia enquanto personagem histórica, i.e., como Jesus de Nazaré). Já no NT, a salvação se dá pela fé em Cristo. Em resumo, eu diria que uma fé-resposta, proporcionada pela graça divina, é imprescindível para a salvação daqueles que podem responder em fé, mas não é necessária para aqueles que não podem responder desta forma (p.ex., bebês e portadores de deficiências mentais). Uma outra resposta possível (ainda que hipotética) seria dizer que os não-evangelizados jamais creriam no evangelho ainda que o ouvissem. Neste caso, Deus teria organizado o mundo de tal maneira que aqueles que Ele sabia de antemão que creriam no evangelho, caso o tivessem ouvido, nasceriam num tempo e lugar da história nos quais tal fé-resposta lhes seria possibilitada. Por outro lado, Deus também pode ter organizado providencialmente o mundo de tal modo que aqueles que Ele conhecia previamente que nunca creriam no evangelho, mesmo se o tivessem ouvido, nasceriam em um tempo e lugar da história nos quais tal fé-resposta não lhes fosse possível (não por causa de algum decreto divino oculto que os impedisse de serem salvos e nem tampouco porque Deus não intencionou alcança-los com a mensagem graciosa do evangelho, mas simplesmente porque Deus já sabia que eles rejeitariam livremente a Sua salvação). Em resumo, é isso.  

Atenciosamente, Esquina da Teologia Pentecostal.

10 comentários:

  1. Excelente entrevista, com um conteúdo além dos livros. Parabéns amado Vailatti. Deus seja louvado por sua vida. Abraços.
    Pr Elias Croce.

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  2. Muito bom, alguem sabe quando e onde será esta palestra no Rio de Janeiro?

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  3. Excelente oportunidade de conhecer os posicionamentos do entrevistado. Parabéns pela iniciativa.

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  4. Excelente entrevista com meu amigo Pastor Carlos Augusto Vaillati, tenho tido o prazer de frequentar sua igreja e aprender muito com ele. Com todo o respeito aos irmãos arminianos, mas na minha opinião o Pastor Vaillati é o "Pelé" do arminianismo clássico!!!

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  5. Excelente entrevista com meu amigo Pastor Carlos Augusto Vaillati, tenho tido o prazer de frequentar sua igreja e aprender muito com ele. Com todo o respeito aos irmãos arminianos, mas na minha opinião o Pastor Vaillati é o "Pelé" do arminianismo clássico!!!

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  6. Ótima entrevista! Parabéns irmão Everton. Deus seja louvado! Obrigado pastor Vaillati pela atenção dispensada a nós!

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  7. O Vailaite è uma bênção de Deus nas nossas vidas!

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