7 de janeiro de 2017

Estudo sobre o capítulo 19 de Isaías: Profecia contra o Egito.



Por Everton Edvaldo

Leitura Bíblica: (Isaías 19.1-25)

Introdução: O livro de Isaías é sem dúvida bastante emblemático e conhecido pelo povo de Deus. Sua natureza profética nos encanta e nos alegra, entretanto, não devemos ignorar as diversas mensagens de advertência e de juízo que viriam sobre vários povos. Há cerca de 700 a.C; Deus, através de Isaías, revelou o juízo que estava reservado para ser derramado sobre nações, cidades, tribos e reis. Do capítulo 1 ao 24, o livro de Isaías está repleto de profecias em que Deus diz que está contra Judá, Jerusalém, as filhas de Sião, o reino de Israel, os perversos, a Assíria, a Babilônia, os Filisteus, Moabe, Damasco, Efraim, Etiópia, Egito, Dumá, Arábia, Tiro e os transgressores. Hoje estudarenos o capítulo 19 do livro profético de Isaías, veremos o contexto histórico em que a passagem se encontra, a profecia em si (que trata do juízo sobre o Egito e de sua restauração). Por  fim vamos extrair algumas lições importantes que podem ser aplicadas em nossas vidas. Boa leitura!

O CONTEXTO HISTÓRICO DA PASSAGEM.

No início do capítulo 19, Isaías profetiza contra a nação egípcia. Porém, antes de entrarmos na profecia propriamente dita, precisamos entender o contexto que ela se encaixa.

Na época em que Isaías recebeu essa revelação, o Egito era conhecido entre os povos como "refúgio das nações." Ele exercia uma grande influência na economia e no exército dos povos. Era no Egito que haviam cavalos viçosos, fortes e bem treinados, capazes de fortalecer qualquer exército em que fossem colocados. Muitos governantes estrangeiros, importavam a cavalaria egípcia e assim garantiam a segurança das suas cidades e a estabilidade dos seus exércitos. Os egípcios também possuíam um forte armamento de guerra, o que atraía ainda mais a atenção de outros povos. Nessa época, também era comum as nações mais fracas buscarem refúgio no Egito, pedindo ajuda e fazendo aliança com eles. 

Vejamos o que diz Isaías 31.1-3:

"Aí dos que descem ao Egito em busca de socorro e se estribam em cavalos; que confiam em carros, porque são muitos, e em cavaleiros, porque são muito fortes, mas não atentaram para o Santo de Israel, nem buscam ao SENHOR! Todavia, este é sábio, e faz vir o mal, e não retira as suas palavras; ele se levantará contra a casa dos malfeitores e contra a ajuda dos que praticam a iniquidade. Pois os egípcios são homens e não deuses; os seus cavalos, carne e não espírito. Quando o SENHOR estender a mão, cairão por terra tanto o auxiliador como o ajudado, e ambos juntamente serão consumidos."

Outro fato interessante é que o Egito estava sempre de portas abertas para amparar aqueles que tinham suas cidades saqueadas ou estavam debaixo do jugo de alguma outra nação. É caso de Judá. Por ser considerado grande, o Egito acabou se tornando para os líderes de Judá, uma nação que poderia lhes dar assistência contra a ameaça da Assíria. Nesta época, a Assíria era a principal rival do Egito e estava no auge do seu poderio de conquistas. 

Ou seja, ao invés de buscarem ao SENHOR e se refugiarem nele, os judeus colocaram sua confiança no Egito e acabam corrompendo-se com seus ídolos. É por isso que Deus promete abater toda a glória egípcia afim de cumprir seus propósitos e fazer uma grande obra no meio dos três povos: Egito, Assíria e Israel. 

Enquanto isso não acontecia, o Egito se orgulhava de seu status entre os povos. Eles gozava de uma farta prosperidade. Para eles,  estava tudo bem.

I PARTE DA PROFECIA: 3 ABALOS DE DEUS SOBRE A NAÇÃO 

1. O abalo na religião.

Primeiramente, Deus anuncia sua sentença contra o Egito, revelando que viria a esse lugar cavalgando numa nuvem ligeira, denotando assim a velocidade com que o juízo divino seria derramado sobre eles, frustrando toda sua prosperidade. (v.1). O próprio Deus entraria em cena! 

No versículo 2, vemos que seus ídolos estremeceriam na presença de Deus. Sim, Deus viria sobre as nuvens simbolizando sua majestade acima de tudo e de todos. Deus tocaria na raiz da religião egípcia atingindo dessa forma o coração dos egípcios. Eles eram tão apegados aos seus ídolos que repousavam inteiramente sua confiança neles. Ao ter seus ídolos humilhados,  a esperança deles seria conturbada e a fraqueza dos seus deuses exposta.

É interessante observar que a religião pagã aparentemente fornecia uma certa segurança para eles. Vemos também que após o abalo na religião egípcia, haveria uma guerra interna dentro da nação. Deus colocaria egípcio contra egípcio, cidade contra cidade e reino contra reino tirando deles o sôssego que possuíam. Eles até recorreriam aos seus ídolos, encantadores, necromantes e feiticeiros, porém seria tudo em vão  (v. 3). O primeiro colapso seria interno deixando o cenário propício para outra nação lhe conquistar (v. 4). Sim, Deus promete entregar os egípcios nas mãos de um senhor duro, e revela que um rei feroz os dominaria, se referindo a ESAR- HADOM, um poderoso imperador Assírio que conquistou o Egito em 671 a.C.

2. O abalo na economia.

Deus também mexeria com a economia egípcia secando as águas do rio Nilo, um dos maiores do planeta. O Nilo era a fonte de sustento egípcio, graças às suas inundações anuais que deixavam a terra produtiva e fértil para o plantio.

Ao atingir o Nilo, Deus estava abalando as três principais indústrias daquele povo: a agricultura, a pesca e têxteis.

Com os baixos níveis de água do Nilo, os canais não seriam reabastecidos, destruindo por completo a esperança deles. Na época de Isaías, era de se esperar que qualquer outro povo sofresse com uma seca dessa intensidade, menos o Egito. Deus faria algo inédito naquele lugar. 

Sem água não haveria plantação, sem plantação não há colheita, nem comida nem dinheiro. Sem plantação, os animais não se alimentam, ficam desnutridos, não procriam e como consequência não são comprados, prejudicando assim o comércio e as negociações. Sem água, não há peixe, sem peixe, os pescadores não trabalham e ficam sem renda e sustento. É por isso que Deus diz que os pescadores gemerão (v. 8). Com a seca do Nilo, o transporte fluvial não faria mais parte dos projetos de Faraó, visto que naquela época, grandes embarcações transportavam pelo Nilo, mercadorias e até mesmo blocos pesados de pedras , utilizados nas construções. 

Os tecelões que trabalhavam no linho fino e no pano de algodão ficariam envergonhados. Os jornaleiros (trabalhadores) andariam de alma entristecida.

3. O abalo na ciência.

Deus também diz que são néscios os príncipes de Zoã; e os sábios conselheiros de Faraó, na verdade, davam conselhos estúpidos. Zoã ou Tânis era a capital do Egito naquela época, uma das cidades mais importantes da região nordeste do delta do Nilo. 

Tais sábios (que tinham fama internacional), não seriam capazes de evitar o desastre que o SENHOR tinha determinado contra sua nação. São loucos os príncipes de Zoã e de Mênfis ou Nofe (uma cidade no Baixo Egito e antiga capital do país.)

Seriam tantas calamidades nacionais que esses sábios ficariam loucos, incapazes de dar explicações racionais e de oferecer alguma solução. Eles são comparados pelo profeta com bêbados quando cambaleiam em seu vômito (v. 14).

O cumprimento da primeira parte.

A profecia referente a uma guerra civil presente dos versículos 4 ao 16, provavelmente, foi cumprida em 670 a.C., quando o Egito foi conquistado por Esar-Hadom, rei da Assíria (a principal rival do Egito) e sucessor de Senaqueribe, seu pai (2 Rs 19.37; Is 37. 38). Nesta época, o Egito era governado por Taharka (Tiraca) [01], um faraó da XXV dinastia.

Quem era Esar-Hadom?

Segundo R. N. Champlin: 

"No Acádio, 'Assur deu um irmão.' Foi um poderoso imperador assírio, filho mais jovem de Senaqueribe e seu sucessor. Governou o império assírio de 680 a  669 a.C. (...). Nas páginas do Antigo Testamento, Esar-Hadom é mencionado por três vezes: II Reis 19.37; Esd. 4.2 e Is 37.38." (CHAMPLIN, v.2, p. 432).

A conquista do Egito.

Entre 675-674 a. C, Esar-Hadom (também chamado de Assaradão) voltou sua atenção para o Egito contra o qual enviou duas expedições militares, iniciando a conquista daquele país, chegando a conquistar a cidade de Mênfis em 671 a.C; vencendo o exército egípcio que estava sob o governo do Faraó etíope Tiraca (2 Reis 19.9). Tiraca há muitos anos, vinha incentivando rebeliões na palestina e várias cidades deixaram de seguir a Assíria para se aliarem ao Egito.

Em suas inscrições, Esar-Hadom costumava se  vangloriava das suas conquistas:

"Sou poderoso, sou todo poderoso. Sou herói, sou gigantesco, sou colossal." (Citado por CHAMPLIN, v. 2; p. 432).

Hadom também chegou a se intitular como "Rei dos reis do Egito."

Comentando sobre esse acontecimento, Champlin diz:

"Conquistar o Egito foi um empreendimento fácil para ele. A fim de melhor provar a sua grandeza, entre outras façanhas, ele se tornou eficiente matador em massa: 'Diariamente, sem cessar, matei multidões de seus (de Tiraca) homens. A ele feri por cinco vezes, com a ponta da minha lança, com ferimentos sem recuperação. Mênfis, a sua cidade real, em meio dia, mediante solapagens, túneis, assaltos, eu cerquei, eu capturei, eu destrui, eu derrotei, eu incendiei.'" (CHAMPLIN, v. 2, p. 432).

Ele instalou seu governo em Mênfis obtendo o controle do delta do Nilo. Colocou governantes assírios e organizou o Egito em distritos. Esar- Hadom volta para a Assíria afim de resolver os problemas de Nínive. Entretanto, dentro de dois anos, Tiraca, Faraó do Egito que havia se refugiado em Núbia, promove um contra-ataque no Egito. Esar-Hadom apressou-se em voltar ao Egito para abafar a revolta, mas adoece no caminho e morreu em Harã, vítima de uma doença crônica.

II- PARTE DA PROFECIA: A RESTAURAÇÃO DO EGITO.

A segunda parte da profecia do capítulo 19 de Isaías, engloba os versículos 17 ao 25. Nela, Deus promete a restauração espiritual do Egito, cumprindo dessas forma seus propósitos para esta nação.

Neste tempo prometido por Deus, haverá 5 cidades que falarão a língua de Canaã e farão juramento ao SENHOR. Uma delas se chamará "Cidade do Sol."

Naquele dia, haverá um altar no meio da terra do Egito, indicando que os egípcios adorarão ao SENHOR!  Haverá adoração, livramento, conversão e cura.

Por fim, Deus abençoará o Egito e o chamará  de meu povo, juntamente com a Assíria, obra de suas mãos, e Israel, sua herança.

O cumprimento da profecia.

Essa profecia encontrou o seu primeiro cumprimento quando alguns habitantes do Egito perceberam que o SENHOR (que se utilizou da Assíria como instrumento de julgamento) era maior que seus deuses. Tais egípcios abandonaram seus caminhos ímpios e perversos.

Também quando os israelitas estavam exilados no Egito e alguns habitantes aprenderam sobre Deus com os judeus que viviam em suas terras. Por causa desse acontecimento, muitos egípcios conheceram a Deus e passaram a servi-lo. 

No momento,  ela está se cumprindo gradualmente, na medida em que milhares de egípcios estão se convertendo ao Deus vivo todos os anos. Entretanto, devemos reconhecer que essa profecia terá seu cumprimento pleno no fim dos tempos, quando todas as nações serão abençoadas durante o reinado milenar do Messias.

Deus certamente fará uma grande obra pois dará paz e harmonia a nações que há séculos são inimigas.

Conclusão: Certamente, aprendemos muito com essa passagem bíblica. Deus abateu a glória do Egito com o  objetivo de fazer uma grande obra no meio desse povo. O SENHOR é aquele que fere mas cura. Muitas vezes passamos por situações adversas onde Deus permite que percamos as coisas em que colocamos a nossa confiança. Com essa passagem, aprendemos que só devemos confiar em Deus. Nada nem ninguém deve ocupar o lugar de Dele em nossas vidas. É Nele que encontramos o verdadeiro refúgio e esperança. Ao permitir que passemos por situações adversas, não pensemos que Ele quer ver a nossa derrota, mas a nossa restauração. Que possamos buscar a Deus todos os dias e abandonar as coisas que nos afastam de sua presença. Amém! 

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NOTA:

[01]- "Taharka foi um faraó da XXV dinastia egípcia que reinou entre 690 a.C. e 664 a.C.. De origem núbia ou cuchita, sucedeu ao seu irmão Chabataka. É mencionado em Isaías como Tiraca, rei da Etiópia. Ele foi o terceiro faraó etíope, e sua mãe era negra. Coroado em Mênfis, cidade que também funcionaria como a sua sede de governo, o seu reinado é o mais esplêndido de todos os reinados cuchitas no Egipto. Após um período de secas, no ano 6 do seu reinado o Egipto conheceu uma cheia que gerou grandes colheitas agrícolas, muito celebrada na época em inscrições realizadas em Coptos, Tânis e Kaua. Nestas inscrições pode ler-se como o evento das cheias foi interpretado como uma intervenção divina de Amon-Ré, que o teria escolhido como rei. Apoiou rebeliões na região da Palestina com o objectivo de debilitar o poder dos Assírios, que tinham penetrado na região. Ele se aliou a Luli, rei de Tiro, e a Ezequias, rei de Judá. Em 673 a.C. Taharka e os seus aliados alcançam ali uma vitória, que se traduz na expulsão dos Assírios. Em 671 a.C., o rei assírio Assaradão invade o Egipto dividindo-o entre cerca de vinte príncipes, o chefe dos quais era o meio-líbio Necho de Sais. Alguns príncipes do Baixo Egipto aproveitam o acontecimento para se revoltar, outros continuaram a apoiar Taharka, que conseguiria reconquistar brevemente o Baixo Egipto em 669. Assaradão enviou uma força para lutar contra Taharka, mas morreu no caminho. Alguns anos mais tarde, ele foi derrotado, em Mênfis, por Assurbanípal. Necho de Sais, que havia conspirado com Taharka, foi perdoado, e se tornou o governador do Egito, reduzido a uma província assíria. Taharka parte então para Napata, onde morre em 663 a.C.. Seu sucessor na Etiópia foi Tanutamon, que pretendeu recuperar o Egito. Ordenou um vasto programa de construções na Núbia, em Napata, Guebel Barkal, Meroé, Semna, entre outros locais. No templo de Amon em Karnak destaca-se uma alta colunata mandada por si edificar. Perto do templo de Amon, Taharka patrocinou a construção de várias capelas para Osíris, dedicadas ao deus pelo rei e pela adoradora divina de Amon, Chepenuepet II.Foi sepultado num túmulo que apresenta uma forma piramidal, situado em Nuri, a norte de Napata, onde foram encontradas mais de 10 000 estatuetas funerárias." (https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Taharka.).

Bibliografia:

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Hagnos: 1991.

Site consultado: 

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Taharka. Acessado dia 07/01/2017.

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